Canto Geral/99
Montenegro - RS

Porto Alegre, 26 de novembro de 1999.


Oigalê, o registro deste meu passeio se veio bem atrazadito, hein?!

Bueno, tu deves estar estranhando este fundo, que mais parece uma propaganda de rádio, não é?!

Pois não sou muito chegado a fazer propaganda de seja lá quem for, mas... quando a coisa toca em nossa cultura gaúcha, bueno, muda de figura e me recuso a deixar de enaltecer quem faz as cousas por nobreza!

Pois lá pelas tantas, durante setembro, o amigo Leandro, da poderosa CNP de Montenegro, me convidou a ir prestigiar um evento que estaria organizando na cidade de Montenegro.

A palavra-mágica pra me convencer foi dizer que meu ídolo estaria lá, Mr. Barbosa Lessa. De quebra, comprei livros para ele autografar para a Adriana Souza, amiga da internet; Lonise e Sandra Pecis, do ZAZ, amigonas de longa data.

A noite, por que o evento foi à noite, foi daquelas horrorosas de invernaço! Uma chuvarada cobria a estrada, e fazia minha cria perguntar, de 1/2 em 1/2 hora: "- Ih, pai, tu queres ir mesmo?".

Teimoso feito uma mula, e ainda com amizade em jogo, capaz que ia me derreter por tão pouca cousa.

Depois de andar feito uma barata na cidade - de Montenegro, of course-, chegamos ao teatro.

O esperto do Leandro havia alertado ao pessoal da portaria que não deixasse eu pagar ingresso. Por isso, fui me identificando como Amaral, paguei os R$ 5,00 de entrada - micharia -, e adentrei o recinto, seguido da patroa e a cria. Ainda mais que a renda toda iria para um asilo das vovós! Pô, mas que barbaridade, eu me encolher pra uma situação dessas!

E olha que na portaria tava a Mirele, guria linda coisa mais preciosa!

Já pegamos a cousa andando...

O evento era bem eclético, e tinha músicas de Milton Nascimento, Bill Halley até Negrinho do Pastoreio (Barbosa Lessa) e Os Cardeais (Elton Saldanha). Sim, por que nossa cultura não pode ser xenófoba e recusar o de fora. Mas precisamos sim é continuar valorizando o que é nosso, ora essa!

Pois num bem agradável teatro, o Teatro Roberto Athayde Cardona, numa noite chuvosa de primeiro de outubro de 1999, estávamos nós três lá se divertindo, ouvindo música e até pulando pra dançar.

Ouvimos o Paraguay cantando Mi Viejo e Pedro Canoero; o Rodrigo Magrão e Maurício Fernandes; o Giancarlo e Vox Angelis, sendo que o Gian chacoalhou TODO MUNDO com Guantanamera, do folclore cubano... mas o teatro quase veio abaixo com o carisma deste diacho de cantor bueno; encerrando o Darney.

Eu ia escrever um caminhão de coisas mas me prendo a duas mais importantes:

  • O esforço de duas pessoas que eu consegui pescar: o Leandro Gonçalves, da CNP e o André Zanatta.

    Pode ter mais gente, sintam-se representados por estes dois. O mais importante é o espírito altruísta dos dois, que poderiam ir pra casa e ficando vendo televisão ou até mesmo dormindo. Pois ao contrário, se engajaram numa campanha em ajuda da comunidade, dos idosos e levaram o nome de Montenegro mais além. Pelo menos aqui!!

  • Como é bonito o movimento da comunidade, quando sem fins lucrativos, esforça-se para fazer um evento. Não tinha pila envolvido, era toda a renda com destino ao Recanto das Vovós.

A coisa engraçada foi no meio do espetáculo a indiada me chamar pra fazer a homenagem pro Barbosa Lessa.

Hahahaha, capaz. A festa é dos home e eu que vou homenagear? Na hora boa, eu que apareço?! Capaz, eles mesmo tiveram que se virar entregando ao taura mais que merecido Lessa as honras por seu trabalho de historiador, compositor e tradicionalista.

E, para aqueles que não lembram ou mesmo não conhecem, vai aqui a mensagem impressa no prospecto da festa toda e que é um recado dos mais idosos para os jovens. Aprendamos:

"Se eu pudesse viver novamente a minha
vida,
na próxima trataria de cometer mais
erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria
mais.

Seria menos higiênico
Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais
rios.

Iria a mais lugares e onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos
problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto
da sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas, se eu pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos,
Porque, se não sabem, disso é feita a
vida,
só de momentos, não percas o agora.

Eu era um desses que ninca ia a parte
alguma sem
um termômetro, uma bolsa de água
quente,
um guarda-chuvas e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da
primavera
e continuaria até o final do outono.

Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e
brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que
estou morrendo."

(Jorge Luiz Borges)

É isso aí, gente de Montenegro!

Obrigado por mais essa lição de humildade e consideração ao próximo! Agora mesmo, largo este micro e vou dar um abraço mais que apertado na turma aqui de casa!

:o))


Baita abraço

Cohen