Como chegar lá



    Quaraí !!  

 


Porto Alegre, 06 de março de 1999.

Que tal seo Cláudio Grecco?

Pois compadre, ontem estive na cidade onde tu moraste, Quaraí!

Gastei a máquina fotográfica em mais de 40 fotos (nem todas estão anexas nesta carta) e foi uma belezura de viagem: em parte por que tua cidade fica na fronteira, e isso - o contato com os castelhanos - sempre é algo de deixar os pelos em pé (por causa das guerras) e com olhar respeitoso (por que são gente muy valente).

Agrada-me estas viagens... diz o dito: "viver não custa, saber viver é que são elas". De tal formas que, se tenho oportunidade, vou em busca de nossas origens e trago, de bandeja, algo aos amigos que não dispõe de tais facilidades.

A viagem...

Começando com a partida de Porto Alegre... Fué às 21:00, o ônibus lotado de macho e uma chinoquinha linda de morrer, de mini-vestido sentada ao meu lado. Assim que o ônibus partiu, um diacho dum seboso, sentado na poltrona mais atrás, me tocou no braço e disse:

"- Ah sortudo... foste o único do ônibus, hein?!"

Não respondi ao diabo, ele que fique co'azar dele. Eu sou corujeiro (sempre disposto a tudo) e nem ligo se sento ao lado de cria, velho, índio ou japonês.. pra mim é tudo gente buena.

O ônibus da Planalto, que é a empresa que despacha mercadorias e gente pra Quaraí, tem ar condicionado e isso é luxo dos buenos. Nesta noite em que dizem fez 30 graus, lá dentro estava geladito.

E isso foi o que mais me irritou. A criança do meu lado, uns 16, além de estar quase pelada, e eu tenho vontade de esfolar uma mãe que embarca uma filha assim (e se acaso ela senta ao lado dum tarado??!!), passou a sentir frio durante o trajeto... tanto que pegou o protetor de cabeça que vem na poltrona e enrolou nos braços.

Eu, que tenho cria nessa idade, fiquei sentido com isso e puxei a camisa cuidadosamente dobrada na mala (era a única veste disponível) e entreguei pra pequena, que se desmanchou de agradecimentos.

De mais sobre a viagem noturna, uma vontadezita volta e meia de fazer tirar água do joelho...

Em Quaraí chegando, levei um susto. Como ia chegar cedito, umas 5:30, levei uma penca de livros dentro da bolsona. Mas... como poderão ver nas fotos... hehehehe... a estação rodoviária de Quaraí é meio diferente de Santa Rosa ou Santa Cruz do Sul... é pequenina e quase não tem bancos.

Entre embarcar nos táxis disponíveis (tudo lata véia), resolvi dar uma caminhada e já na primeira quebrada encontrei um hotelzito, chamado União.

Do Hotel

Como já esperava, um castelhano veio me atender. Perguntei quanto pagaria para ficar ali durante umas 3 horas, largado num quarto.. Não entendi cousa alguma que o animal falou... tive que perguntar umas 3 vezes para entender que seriam 9 reais... "nove" é "nueve" em espanhol, e o "V" é falado como "B", de tal formas que ... cruz credo, gramei pra entender o dito.

- Tá bueno, vou ficar.

No que falei isso, ganhei a chave do sete e mais duas toalhitas.

Quando entrei no quarto, vi o que já esperava.

Como é um hotel próximo da rodoviária, a tendência é encontrar algo pra viajantes, caixeiros, vendedores, etc: um ventilador sobre um criado-mudo, três camas, uma pia e... e o que mais? Tá bueno assim, ora essa, não tinha mais nada!!

Ah, mas preciso falar dos lençóis, que são todos gravados com o texto "ROUBADO DO HOTEL UNIÃO DE QUARAÍ".

Mas hein?! Hohoho...



Acordando e circulando...

Quaraí é uma cidade com seus lá 25.000 habitantes (www.famurs.com.br), o que já bem grandinha.

Já, pelas oito, me ergui, chacoalhei os pelos, tentei lavar o rosto e me fui pro "salão de café". Lá, numa mesa comunitária onde todos tomam seu café preto com leite, mais um pãozito com manteiga, fatia de queijo e mortadela... um Blau Nunes, viajante vaqueano, falava sobre a região de São Borja, o calor e coisa e tal. O dito devia ser viajante, e agradava-lhe ter aquele pequeno público, a escutar com toda atenção e remelas no rosto o que ele dizia e aumentava um tantito.

Nestes hotéis, gente simples, batalhadora.. a cepa da simplicidade campeira e com a nostalgia das carreteadas.. Se tu vens pro hotel principal, que nem sei se existe, perde esta autenticidade, essa áurea viajandeira... e bueno, tudo aqui regado a chimarrão, e mais causos dos... mas isso é coisa pra mais adiante!

E lá pelas 08:20 saí a conhecer a cidade...

Quaraí é cidade do interior.
Com cheiro de cidade do interior.
E quem sabe e viveu nele, sabe muito bem do que estou falando.

Neste horário, o comércio local estava abrindo. De um lado, via uma loja de revelação rápida de filmes em 1 hora ... Do outro lado da rua, uma camionete descarregando um tambo de leite...

UM TAMBO DE LEITE!!!
A Parmalat não chegou lá ainda... ainda bem!!!!
Pois que assim temos a chance de ver ainda isto!

O comércio está lotado de árabes. Como sempre, eles gostam muito da zona fronteiriça, e a gente identifica eles logo, pela fisionomia de sobrancelhas cerradas e cor de pele escurecida. Gente fina, que vão tocando os negócios e criando tradição no assunto. Um abraço ao Lobão, cujos pais tem um comércio lááá em Santa Rosa.

Também, por ser zona fronteiriça, encontra-se um outro tipo de gente bem instalada... O exército!!!

Quando aparece uma quadra cheia de casinhas brancas, pintadinhas, e os carros com placas de vários locais do país (oficiais transferidos) já se sabe que é zona militar.

Pois então? Não íamos controlar a zona de fronteira pra segurar os castijas?

Lá, em Quaraí, ainda se vê muuuuuuuita casa de porta aberta e sem grades. O que virou uma neura em cidade grande, parece que nem de longe aperreia o pessoal desta terra.

Caminhando e suando, por que estava um calor dos diachos já neste horário, fui-me na direção do túmulo do Maragato. Antes de viajar, investiguei naquele caderno da ZH "Origens do Rio Grande" e descobri isso:


Flores para o Maragato

A Revolução Federalista de 1893 criou um santo em Quaraí. Louvado até hoje como Maragato, Euzébio Pereira foi um dos muitos degolados pelos defensores do governo de Júlio de Castilhos no final do século passado. Condenado a ser mais um rebelde anônimo, virou mártir depois de protagonizar uma cena histórica.

Em agosto de 1894, ele e seus companheiros combatiam os pica-paus dentro de uma trincheira. Encurralados perto do córrego, os maragatos começavam a ficar desesperados ao imaginar o fio da espada no pescoço.

Para não condenar os amigos, que tinham muitos filhos, Euzébio - pai de uma menina - pegou todas as armas e deu cobertura à retirada dos aliados. Em seguida, foi dominado e teve a garganta cortada.

Em retribuição à bravura do revolucionário, os companheiros de Euzébio trataram de proteger Alexandra Trindade, sua mulher, e a filha Delmira. O local onde o combatente foi morto nunca mais ficou sem flores. Por ironia, a rua onde tudo aconteceu acabou recebendo o nome do algoz do Maragato: Júlio de Castilhos.

ZH, 4 de dezembro de 1996


Pois amigos, dois comentários: eu fui lá numa sexta-feira, 5 de março de 1999 e... o que ZH diz se confirmou: realmente haviam flores no túmulo do homem. Olhem nas fotos.

E mais: pra acabar com essa questão de ficar na rua Júlio de Castilhos, quebraram um beco pelali, que se chama agora BECO DO MARAGATO.

Entonces, hein? Aprendeste mais um tiquito.

Por que fiz todo o trajeto a pé, e eram umas doze quadras, resolvi entrar em uma venda e tomar um refrigerante, que pelas 9 da matina ainda é cedo pra tomar trago.

Surpresa!

E pois!!! Que surpresa... Clica aqui e vê o que eu vi!!!

Uma venda "das antigas". Com cristaleira de balas, vassoura pendurada, balcão de frios... E Coca-cola (me desculpem os xenófobos) a R$ 0,50!!

Uma coisa surpreendente em Quaraí: a pilcha lá é realmente traje de serviço, do dia-a-dia, do cotidiano. Por mais que existam estas querelas e discussões sobre origens da pilcha e cousa e tal, o pessoal usa no dia a dia, e não somente os mais velhos. A gurizada também!!

E, pra quem gosta de nossas tradições como eu, os olhos se arregalam, a boca sorri marota, o peito se estufa e fui eu, índio velho, feliz da vida a circular entre o povaréu.

E pra completar: alguém por perto põe no rádio o "Baile do Quero-Quero", música alegre que abre o espírito e deixa este vivente mais feliz e todo bodoso.

Ah, isso me alembra um poema de Luiz Alberto de Menezes, que termina assim:

"Onde andarão estes sonhos
os mais lindos que vivi?
Se comigo não ficaram
com certeza se afogaram
nas águas do rio Quaraí."

Atençón, uma dica:

Se alguém se bandear algum dia praquelas bandas, recomendo comprar filmes na loja Visio, do seo Luiz Carlos, bem na rua Sete de Setembro, a principal. Gente finíssima, assim como outra figura, que mais adiante les conto.

Ia me esquecendo... as mulheres árabes mantém o costume de cobrir os cabelos mesmo num lugar tão distante das Árabias, como é Quaraí. Viste o que é tradição?!

Suando e bufando, depois de 3 horas de caminhada com sacola, fui-me até a praça tirar umas fotos, em especial na frente da estátua em homenagem do Lions para o dia das mães, inaugurada em 15 de março de 1968. Ela estará fazendo, em alguns dias, casualmente 31 anos, a guria.

Mais adiante vou te por a par dos meus custos em Um dia de Quaraí, pra tu veres se é caro ou não ir até a fronteira e conhecer teu Rio Grande!

Epa... até já ia me esquecendo, seo!

Quaraí é fronteira com o Uruguay (com y, como eles gostam!) e basta atravessar uma ponte e estamos lá, em Artigas!!

Atravessando a fronteira...

E foi o que eu fiz... descendo macio pela praça, depois de ter largado minha bagagem por aí, fui caminhando em direção à ponte e resolvi bater uma foto.

Nisso um guarda saiu fiasquento de sua lida e veio me proibir de bater a foto.

- Mas que isso?
- Não pode bater fotos dos guardas!
- Mas e eu lá quero foto de macho? Sai pro lado que meu negócio é com a ponte.

E conversa vai, conversa vem, perguntei a ele a distância para ir até o outro lado. O milico me disse que eram 750 metros ligeiritos... Como era sol de 15 da tarde, pedi a ele descaradamente o seu boné, ao que ele se negou e ainda debochou dizendo que pegar sol no côco é bom. Arre! Na próxima passo o camboim (surrar, espancar) no dito.

Tá lendo ainda? Hehehe, buenaço! Não te apressa, copia pro teu micro ou coisa que o valha, mas já que tu não vais até o Quaraí, pelo menos pega carona comigo, ora essa.

Entonces lá vou eu, com a maior cara de turista (mas por dentro gaúcho vaqueano mordido pelo sol, tarimbeiro - conhecedor - barbaridade), câmera pendurada, calça de brim e sapatos atravessando a ponte. Vou vestido de turista que é pra não me reconhecerem, senón acaba-se a espontaniedade.

Aliás, este sol de três da tarde, a pino, com calor de 34 graus me recorda um trecho de poema de Jayme Caetano Braun, chamado "Hora da Sesta", e quem já viveu sabe:

"O sol parece uma brasa
na cinza do firmamento.
Sobre o campo sonolento
ninguém está de vigília,
na lagoa - uma novilha,
bebe - de ventas franzidas
e duas graças perdidas
sentam na grama tordilha.

No galpão - tudo é silêncio,
a cachorrada cochila
e a peonada se perfila,
estirada nos arreios,
só se escutando os floreios
da mamangava lubuna
fazendo zoada, importuna,
nos buracos dos esteios."

Num lusco-fusco, cruzam ciclomotores, calhambeques, bicicletas... é um movimento dos diachos na ponte.

No meio da ponte vejo o pessoal tomando banho no rio. Arre, eu ali todo aparamentado e aquela turma a nadar e a se refrescar no rio. Confesso... a vontade foi esquecer de vocês e disparar pro aguadouro. Mas qual quê! Tenho uma missão, trazer o Rio Grande de novo (ou de primeira vez) pra essa turma desgarrada e não me esqueço. E, sereno e resignado, sigo adiante.

Olhando do outro lado, se vê, ainda da ponte, um esplêndido parque, ao estilo Saint Hilaire. Várias churrasqueiras, áreas de passeio, etc. Estes uruguayos sabem viver bem.

Bueno, entonces alcanço o outro país do Plata, el Uruguay. De cara, já vejo um carro de bombeiro. AMARELO. Sabe o choque que é ver um carro de bombeiro cor-de-caganeira? Blarghsss...

Peço um refrigerante (que de agora em diante vai ser chamado simplesmente de algo) e pago R$ 1. Já é um aumento de 100% sobre a venda lá do outro lado. Mas qual, o sol está de rachar couro e preciso me cuidar.

Vou subindo a rua principal da terra, sentindo aquele clima de estar em terra estranha, leis diferentes, língua diferente...

Pra quem nunca fez isso (excursão não conta!!), vale a experiência. Vai ver o que os chibeiros (contrabandistas) sentiam naqueles tempos. E mais: uma cidade é bem grandinha, com uns 69.000 habitantes.

Vou com fé nas palavras de Martin Fierro:

"Ante o perigo - por Cristo! -,
meu coração não remancha;
qualquer chão p'ra mim é cancha;
e nisto sentido tomem:
quem se tenha por bem homem,
faz pé firme e não se plancha.

Sou gaúcho! - Entendam bem
como meu canto o explica:
a terra ante mim se achica
e pudera ser maior;
nem a víbora me pica,
nem me queima a fronte o sol."

Se bem que nestes tempos de paz, de comércio lado-a-lado, a cousa já anda bem mais tranquila.

Loguito se alcança a praça que tem o nome da cidade, e onde existe um enoooorme monumento ao homê: General José T. Artigas, 1764-1850. Uma belezura de estátua, das grandonas.

De imediato, minha sensibilidade acurada, herdada de alguns índios chanas, percebe alguns detalhes que um vivente desacostumado não sentiria:

a) ninguém anda pilchado por este lado do rio, curioso...

b) a infestação de ciclomotores, em especial Zanella, com fábrica no Uruguay (com y como eles gostam) é impressionante! Andam sem capacete, três de uma vez só, crianças de dois anos, ....

Sigo escoteiro (sozinho) e cruzando as ruas... Pergunto a uma guria o que uma turma de gente idosa faz numa fila imensa frente ao banco.

É dureza pra quem não está acostumado...
A la fresca, que estes gringos falam complicado.
Claro, não entendi bulhufas do que a guria falou.

Mais adiante chego a um monumento enorme, dedicado a "La Gloria de los Heroles de 1825 - Batalha do Sarandi".

Pra te deixar com água na boca, me encosto numa parede e bebo... algo?

Non, non... desta vez é UMA PILSEN!!!! UMA PILSEN!!!
Se bem que, confesso, prefiro Norteña, pero es también buena una pilsen helada.
Ota! Se pelos menos falassem mais devagar.

Parece que algumas modas brasileñas chegaram a Artigas...
Em quase todas as esquinas existe uma mesinha com gente sentada vendendo loterias. Eu falei em QUASE TODAS as esquinas, é algo impressionante.

Pra quem é de Quaraí ou Artigas, ó: Pinzón, Gal. Lavalleja, Gal. Eugênio Carzón,... te lembram destas ruas? Mira acá el mapa de la ciudad (234 kb).

Começo a voltar ao Quaraí... já ando feito gado com aftosa, babando e suando horrores... Mas ainda tenho tempo de tirar umas fotos do estádio de futebol e outras cousas...

Gente Distinta!

Seo Caio.

José Carlos da Costa Carvalho. Este é fina flor, da melhor cepa da sociedade de Quaraí. O homem trabalha no cartório de Registro Civil da cidade e é um exemplo de integridade, bondade e hospitalidade tipicamente genuínas do rio-grandense, gaúcho e da gente de Quaraí. Ao amigo Caio, aqui uma homenagem que nem sei se um dia vais saber, mas lasco e deixo meu registro.

Se mosqueando, esperando o horário...

De volta à lida, chega na tardinha e me aprochego na esquina da Sete de Setembro com a praça. Peço algo (aquilo, aquilo) de litro e vou bebericando devagarzito.

Noutra mesa de rua uma gringa a me olhar, toda arrumada, de conjunto azulito, lábios carnudos vermelhaços e com o charme que somente estas gringas de fronteira sabem ter. Cansado, mas não morto, espicho o olho pra ela, que de bobo não presto.

Nisso, o tararaca (sujeito desajeitado, tonto) da casa chega com um pano e meleca azul e passa a limpar minha mesa, interferindo na minha visão. Dá-me nos nervos este pateta vir limpar a mesa onde AINDA estou a tomar minha beberagem...

A la putcha!!! Chega o patrão da china e tomba minha vontade de perguntas "se hoy es lunes" pra pinguancha.

Já com a mesa empesteada pela limpeza do traste, vou caminhando novamente, desta vez a procura de comércio. Loguito ali na esquina, encontro a casa La Madrid, onde um balconista esperto barbaridade, me dá R$ 2,00 de desconto num legítimo chapéu Prada, de palha equatoriana... "legítimo panamá importado" registra os dizeres nele.

De imediato, batizo ele de QUARAÍ e pras viagens de verão, estará sempre comigo. Tenho a boina e o chapéu de feltro, mas no veranico, só louco de por um negócio desses na cabeça. E o QUARAÍ, branquito e leve, vai proteger os miolos deste taura aqui.

Esperando o horário do ônibus, que sai às 22 de Quaraí, me largo nas escadarias da igreja da paróquia São João Batista de Quaraí. Ali, sentado e encostado nas paredes, chamo a atenção das "gurias" que vem chegando pra missa. Mas nem estou, sacudo os ombros e sigo na minha leitura, volta-e-meia espiando os olhos por baixo do Quaraí (o chapéu!).

Cansado de tanto ler Lopes Neto, e com o lombo duro da lajota, entro na igreja. Lá dentro, padre Artur reza com o pessoal a Oração Eucaristica II, onde logo me integro, apesar de religião diferente. Como o Deus é o mesmo, vamo que vamo.

A confusão é pequena pra mim. Quando o pessoal se ajoelha, eu sento, parecendo guri novo em baile de chão batido, se atrapalhando todo nos passos. Dali a pouquito passam senhoras com cestinhas, que desconfio não é a distribuição de pão. De imediato saco uns miles da guiaca e largo dentro da cestinha.

Lá dentro é um exercício dos buenos: um senta-levanta dos diachos, que chega a me dar nova canseira. 90% do pessoal, das 150 pessoas, são mulheres e, destas, 70% com mais de 60 anos.

Quando se encerra o culto, vou saindo... e volto pra praça, feito cachorro perdido.

Encosto num boteco e bebo mais uns goles de algo. A coisa ia buena, meio fresquito mas... borrachudos são animalzitos nojentos e vão me picando a careca, que no resto tenho couro duro, feito couro de anta, que como diria o Romualdo, "é um couro quase impossível de quebrar-se: é de uma resistência espantosa, rival do aço estirado." Por isso na pele nem sinto os mosquitos.

Largo da mesa e dou uma circulada pela praça. Umas quadras de amarelinha pintadas no chão, o super-mercado Eldorado, a loja Obino, e torno ao hotel União, onde o dia começou.

Lá, vou mateando com um compadre de Porto Alegre, vendedor de miçangas que vem me contando os causos de Bagé (onde o pessoal que cria puro-sangue, coloca os bichos em ar-condicionado; homens armados na estrada e coisa e tal), seus amigos ricos de sei-lá-onde, e pelaí vai...

Chega 21:45. Deixo aquele abraço ao pessoal e vou à rodoviária. Embarco, chego em Porto Alegre às 05:45, me atraso de propósito pra pegar o táxi depois das seis, quando já é novamente bandeira um. Em casa ainda tenho tempo de tomar um mate, pra revigorar e preparar pro dia que começa.

Dos preços...

Entonces, pra terminar a história, os gastos:

- passagem de ida: R$ 31
- almoço: R$ 6,62 em buffet livre
- filme de 36 poses: R$ 5
- chapéu Quaraí: R$ 28
- algos: R$ 3 por vários litros
- Pilsen 1/2 litro no Uruguay: R$ 2,15
- hotel: R$ 9 por alguns momentos de sono e uso do banheiro coletivo
Feito?!

Bueno, vai dar uma espiadinha nas fotos entonces!

baita abraço

Cordialmente

Roberto Cohen


 


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