Japão  

 


Shizuoka, 11 de outubro - 1998

Amigo Cohen

Desculpe-me a demora para enviar esta, causada por atividades imprevistas aqui por estes rincões e também, como você perceberá adiante, pela grande quantidade de informações que eu precisava relatar.

Não tenho certeza se era bem isso que você esperava dos meus relatos, mas, pode selecionar o que não convém e deletar. Vou procurar colocar um pouco de tudo, desde o começo das andanças por aqui até as minhas últimas gauderiadas.

Vamos lá:

ANDANÇAS DE UM GAÚCHO DESGARRADO DO PAGO


Meu nome é Gustavo Baggiotto, 26 anos, crescido na pequenina cidade de Nova Palma, situada no centro do Estado do Rio Grande do Sul. Cumpri meu Serviço Militar e concluí o estudo superior em Santa Maria (UFSM), tendo chegado ao posto de Segundo Tenente do Exército e me tornado professor de Educação Física e de Artes Marciais.

Dentro da Educação Física sempre tive mais interesse pelos estudos da Fisiologia do Exercício, e, por isso, atuei como pesquisador no laboratório dessa área no Centro de Educação Física e Desportos (CEFD) da mesma universidade durante meu curso de Graduação.

Em 1996, meu último ano de curso, vendo um folheto sobre bolsas de estudo no Japão resolvi tentar uma vaga. Entrei em contato com o Consulado Geral do Japão em Porto Alegre e, depois de fazer vários testes (língua inglesa, exames médicos, entrevistas,...), preencher um grande número de formulários e ser aceito por 4 universidades japonesas (através de cartas e FAX que eu mesmo enviei), fui aprovado pelo governo japonês para uma bolsa de estudo denominada “MONBUSHO”. Tal bolsa seria de 1 ano e meio, consistindo de 6 meses de estudo da língua japonesa e 1 ano de atuação como “Research Student” (estudante pesquisador).

Logo ao chegar aqui, em 07/10/97, após 28 horas de vôo, notei a grande diferença que é estar exatamente no “outro lado do Mundo”. Um país desenvolvido, com tecnologia avançadíssima, um povo trabalhador,... e aquelas escritas que não dava para entender nada.

De cara peguei o “SHINKANSEN” ou “trem-bala” (mais de 250Km/h), que me levou até Gifu, a cidade onde eu estudaria japonês.


Nos primeiros tempos fiquei impressionado com a organização e limpeza das cidades, com a mais variada gama tecnológica aplicada no dia-a-dia dos japoneses (até banheiro automatizado tem!) e com a preservação da cultura e costumes milenares expressa nos mínimos detalhes em templos, castelos, maneira de se vestir para o trabalho no campo e o próprio modo de ser dos japoneses, sempre dando valor às boas maneiras, respeito e polidez no falar. Por exemplo, o que é mais comum de se ouvir em uma conversação entre japoneses são as palavras “obrigado”, “desculpe”, “com licença” e “por favor”.

Em relação à comida não tive problema nenhum em me adaptar, pois, sendo vegetariano, encontrei boa quantidade de pratos “comíveis”. O único problema era escolher a coisa certa, errei muitas vezes até aprender o que dava e o que não dava para comer. Quanto ao gosto, logicamente era muito estranho a princípio e tudo parecia ter cheiro de peixe, mas gostei da comida japonesa (se bem que ando com uma saudade bagual do velho feijão, polenta,...).

Na Universidade de Gifu fiz um curso intensivo de japonês especialmente direcionado a estudantes estrangeiros. Eram 6 horas de aula por dia e mais 4 ou 5 horas de estudo no quarto (eu morava no dormitório da universidade), pois, tinha bastante trabalho de casa, era preciso estudar as lições com antecedência (porque antes de se começar a estudar uma determinada lição havia um teste sobre os assuntos que seriam estudados), haviam provas semanais e grandes provas mensais (incluindo avaliação oral).


Os professores de japonês eram em 12 e minha turma de 5 alunos (eu, 1 da Indonésia, 1 da Tailândia, 1 de Bangladesh e 1 da Albânia). No início a conversação era toda em inglês, depois, aos poucos, começamos a misturar inglês com japonês até que, ao final do curso, utilizávamos quase só japonês. Foi um estudo duro, puxado, mas valeu muito a pena!

Apesar de toda essa ocupação com os estudos eu, que sempre dormia entre 4 e 5 horas por noite, encontrei tempo para treinar as Artes Marciais (JUDO - na própria universidade, e AIKIDO - em uma academia que ficava a 12,5Km de onde eu morava, para onde eu ia 3 vezes por semana de bicicleta), participar de eventos de intercâmbio internacional, fazer aulas de KIMONO (participei de um concurso Regional e do concurso Nacional em Tokyo, ficando classificado em 2º lugar no Regional e em 4º lugar no Nacional), e até atuar como modelo fotográfico para um guia de apresentação da cidade de Gifu (vestido como um padre Jesuíta português muito famoso que viveu aqui 400 anos atrás, chamado Luís Frois).

As viagens também eram feitas em grupo e, nelas, eu tive a oportunidade de conhecer vários locais muito interessantes deste país, tais como: Tokyo, Osaka, uma fábrica da Toyota e seu museu de automóveis, e Nagano, onde foram realizadas as Olimpíadas de Inverno deste ano (fiquei 5 dias em uma estação de esqui nas montanhas onde, após um incontável número de quedas, aprendi a esquiar; também lá tive a oportunidade de entrar nú na neve!).

Bem, enquanto isso tudo ocorria fiquei sabendo que em fevereiro haveriam avaliações para o ingresso no curso de Mestrado da minha universidade, em Shizuoka. Então me inscrevi, estudei bastante os assuntos da minha área e, após um dia inteiro de testes (em japonês, inglês, Fisiologia do Exercício, entrevistas,...), fui aprovado com méritos, me tornando o primeiro estrangeiro a ingressar no Mestrado da Faculdade de Educação desta universidade. Este fato também proporcionou 1 ano de extensão na minha bolsa de estudo.

Vindo para Shizuoka a partir de abril, passei a residir no dormitório da universidade e iniciei o curso de Mestrado, com todas as disciplinas em japonês, uma verdadeira “viagem”, pois, os professores falavam muito rápido e com um vocabulário difícil, coisa que eu não estava acostumado até então. Mas eu “sobrevivi” ao 1º semestre e já estou cursando o 2º!

Nesse tempo nunca deixei de praticar as Artes Marciais (JUDO na universidade e AIKIDO em uma academia onde ensina um famosíssimo Mestre de 91 anos de idade que fora aluno do criador do JUDO e do criador do AIKIDO). Os japoneses gostam de meu desempenho, sendo, por exemplo, fácil para eu vencer judocas faixa-preta bem mais pesados em luta de solo (agradeço a dois grandes amigos de Santa Maria que me passaram ótimas dicas de JIU-JITSU).

Em junho participei de uma seleção abrangendo a Província de Shizuoka e me tornei, juntamente com outros 24 estrageiros de vários paises, “Embaixador da Amizade”, representante do Brasil nesta província, tendo recebido o certificado de posse das mãos do governador em uma cerimônia especial no Palácio do Governo. Agora, freqüentemente sou chamado para eventos de intercâmbio internacional, principalmente em escolas, para falar sobre meu país e, também, para aprender mais coisas daqui a fim de que eu represente a província quando voltar ao Brasil, falando aos meus conterrâneos sobre o Japão.

Minhas férias de inverno aconteceram há pouco (enquanto era inverno no Brasil aqui fazia um verão muito quente) e, “para variar”, resolvi fazer algumas aventuras diferentes, tais como escalar o Monte Fuji, atravessar o Japão de leste a oeste de bicicleta e conhecer a Tailândia e Nepal. Tais experiências descrevo a seguir:

Escalada ao Fuji


Dizem que quem vem para o Japão e não tenta escalar o “FUJI-SAN” (a montanha mais alta do país, com 3776m) nem deveria ter vindo. Então, em um grupo de 5 pessoas (3 do Brasil, 1 da Argentina e 1 de Zâmbia) resolvemos fazer a escalada.

Uma vez que só se pode escalar o monte em um período de 2 meses por ano, tinha muita muita gente lá subindo também, inclusive um número muito grande de brasileiros. Começamos a escalada às 9:00 da noite e chegamos ao topo às 2:30 da madrugada. Até quase o topo o tempo estava bom e dava para ver o céu muito lindo, as luzes das cidades lá em baixo,... mas quando estávamos perto do topo começou a fechar uma neblina muito densa e até a chover.

Lá no topo ventava muito forte e era muito frio (entre 0 e 1ºC), em contraste com o verão muito quente que fazia no Japão (ou “lá em baixo”), sendo que nós quase congelamos (dividimos dois sacos de dormir e nos abrigamos em um local que não pegava muito vento, o único, um banheiro!). O objetivo era ver o nascer do sol lá de cima, entretanto, quando começou a clarear o dia não foi possível ver nada devido ao mau tempo. Tão logo nos aquecemos novamente, mandamos alguns cartões postais de lá (tem até correio no topo) e descemos rapidamente (pois algumas amigas começaram a sentir náuseas devido ao ar rarefeito). No fim, apesar de todo perigo que é andar sobre rochas vulcânicas, todos voltaram bem, sem se machucar. Foi uma experiência singular para mim, a qual quero repetir, me aguardem para o ano que vem.

Viagem a Toyama


Como aqui no Japão o risco de ser assaltado é muito pequeno, pensei que seria possível realizar uma viagem de bicicleta a algum local distante, como por exempolo o Mar do Japão, no outro lado do País, o que também seria uma ótima oportunidade para conhecer melhor o interior japonês, bem de perto. Em 2 planejamos a viagem, preparamos as bicicletas (Mountain Bike) e partimos com mais ou menos 20Kg de bagagem cada.

Percorremos muitas estradas nas montanhas (duríssimas subidas mas prazeirosas e velozes descidas), passamos por túneis muito longos e escuros (de 1,5Km e até 2,5Km de extensão), visitamos lugares muito bonitos e tiramos bastante foto. Ao todo foram aproximadamente 450Km percorridos em 4 dias, sendo que nos 2 primeiros dias enfrentamos um sol muito forte e nos 2 últimos chuva constante (a solução foi colocar capa de chuva e ensacar a bagagem com sacos plásticos).

Partíamos sempre às 7:00 da manhã e ficávamos até por volta das 18:00 pedalando, com intervalos pequenos para tomar água e um maior ao meio-dia para o almoço (utilizávamos sempre as famosas “CONBINI”, ou “Convenience Store”, para comprar a comida, pois tinha em qualquer lugar e ficavam abertas 24 horas). Por dia rodávamos mais de 100Km, sendo que na primeira cidade que paramos para passar a noite (Nirasaki), como não conhecíamos o local fomos pedir informações em um posto policial sobre possíveis locais para armar a barraca e também para tomar banho; o local indicado para acampar era um pequeno parque que tinha um cemitério ao fundo, até aí sem problemas, mas, justamente naquele dia o banho público da cidade estava fechado, então nao teve outro jeito se não, à luz de lanterna, utilizar uma torneira do cemitério, um por vez, para tomar “banho” (enquanto um tomava banho o outro ficava de “guarda”).

Os próximos locais que paramos foram Matsumoto e Itoigawa, já no litoral, e no último dia chegamos em Toyama onde mora um amigo meu tailandês, na casa do qual ficamos algum tempo. Na viagem não tivemos nenhum acidente, mas nem por isso deixamos de passar por muitos perigos, uma vez que a maior parte das estradas japonesas nao têm acostamento, e quando têm não passa de 30cm (os caminhões passavam muito perto). A volta foi de trem devido às chuvas fortes e incessantes (desmontei nossas bicicletas e coloquei em bolsas próprias para carregá-las).

Viagem ao Nepal e Tailândia


A viagem foi muito interessante, iniciando com 2 dias na Tailândia, nos quais pude fazer um "reconhecimento" de Bangkok, fazer um “tur” de barco até uma antiga capital do país chamada Ayuthaya (muitas ruínas de milhares de anos) e também comprar algumas coisinhas por preços baixos se comparados ao Japão.

Depois fui para o Nepal, em sua capital Kathmandu. Foram 5 dias lá conhecendo um país totalmente diferente, com uma mistura de culturas, pobreza, preços baixíssimos, etc... Ja' havia contatado uma agência de turismo para fazer todo o planejamento dos locais a serem visitados, coisas interessantes a fazer lá, hospedagem, etc..., então foi tudo tranquilo, pois, tinha um hotel bom, um carro, motorista e um guia ótimo (que tinha Mestrado em Sociologia e Arqueologia, falava inglês muito bem e ainda falava um pouco em japonês), tudo por um preço muito baixo.

Conheci lugares e pessoas que só vendo mesmo para crer. As ruas eram bem estreitas na maior parte da cidade, sem semáforos, com poeira, e com uma mistura de pessoas, motos, carros, bicicletas, vacas..., o que causava uma confusão danada (o espaço para passar era sempre disputado e conquistado na buzina, que barulheira!).

Além de alguns lugares milenares e muito importantes historicamente, também tive a oportunidade de entrar naqueles mercados abertos e comprar algumas coisas na base da barganha (como na Tailândia), por exemplo: alguma coisa que ofereciam por 600 rúpias às vezes era possível comprar por menos de 200 rúpias! A disputa dos vendedores que vinham oferecer coisas era incrível, e até chegaram a me oferecer maconha e cocaína duas vezes.

Fui ver um crematório hinduísta onde pude acompanhar todo o processo de cremação de um corpo, desde a chegada ao local até a sua queima ao ar livre. O interessante é que tudo era realizado na margem de um rio, no qual haviam pessoas lavando mortos (purificação), outros tomando banho, crianças brincando nuas, outros lavando roupas ou louças, outros procurando objetos de valor no fundo do rio (que um dia foram pertence dos cremados), cachorros, macacos, vendedores ambulantes, ascetas ("Sadhu") que moravam em tumbas, tinham o corpo todo pintado e mexiam com cobras naja, pessoas rezando, turistas,.... enfim, uma enorme mistura de coisas que para nós ocidentais não é comum.

Fiz um vôo pela cadeia de montanhas do Himalaia em um pequeno avião e pude passar bem perto de fabulosos picos com mais de 8000m de altitude, inclusive o mais alto de todos, o topo do Mundo, o Everest (tirei fotos que ficaram muito boas). Numa das noites fui para um hotel nas montanhas (mais de 2200m) para ver o pôr-do-sol e o nascer do sol lá de cima, muito belo!

Voltando à Tailândia participei de mais um tur para alguns locais bem típicos daquele país (como por exemplo o "mercado flutuante") e tive a oportunidade de ver apresentações de elefantes, pessoas enfrentando cobras e crocodilos muito perigosos, etc... Tirei foto montando um elefante e segurando o rabo de um tigre solto. Depois voei para o sul da Tailândia, em um local chamado Puket, com praias e ilhas muito lindas (a mais famosa Phi Phi).

Não posso esquecer de dizer que em Bangkok fui ao famoso Estádio Lumpini assistir lutas de Muay Thay, a Arte Marcial tailandesa; paguei caro por um ingresso para sentar bem pertinho do ringue, mas pude assistir 4 horas de lutas (mais de 8) as quais estavam bem disputadas, tudo feito dentro da tradição tailandesa (com rituais dos lutadores antes das lutas e com músicas tocadas ao vivo durante os combates).

Realmente foi uma viagem muito proveitosa e interessante, tendo eu a oportunidade de aprender muitas coisas sobre outras culturas e sobre o modo de vida nos países com condições econômicas ruins. Por exemplo, sobre o Nepal, eu achei que, apesar da pobreza aparente que se podia ver lá, tinha algo de místico no ar, algo que fazia com que todas aquelas pessoas vivessem em harmonia,...

Lá era possível andar com tranquilidade nas ruas, mesmo no meio da multidão, sem problemas de assalto ou coisa do genero. Ainda tem a proximidade do Tibet, o qual foi invadido pela China muitos anos atrás fazendo com que muitos tibetanos se refugiassem no Nepal, India, etc...; eu mesmo fui a um refúgio desses tibetanos e pude ver aquelas mulheres muito alegres fazendo tecelagem, cantando, produzindo roupas e aqueles tapetes caríssimos e muito finos pela riqueza dos detalhes e pela pureza do material utilizado na confecção; o guia falou que os tibetanos se tornaram muito ricos no Nepal por causa do seu trabalho, e também advertiu que só nao se falasse sobre chineses para eles, pois realmente eles odeiam os chineses pelos massacres e destruições que fizeram naquele país. Ainda quero conhecer o Tibet também,...


E eu continuo por aqui, longe da minha terra mas sempre em contato com muitos amigos e familiares por cartas (mais de 50) ou por e-mail (dezenas). Inclusive participando da NETCHÊ, uma lista de discussões muito legal criada no RS através da qual recebo muitas notícias do pago, coisas engraçadas,... e tenho a oportunidade de “conhecer” virtualmente muitas pessoas queridas (um até me apelidou gentilmente de “Samurai dos Pampas”) e até fazer alguns intercâmbios com alguns colecionadores de moedas, selos,... que nem eu.

Buenas tchê, este foi o relato das andanças de um gaudério que está longe do pago há 1 ano. Talvez ele fique camperiando pelo Japão por mais 3 anos após o término do Mestrado (curso de Doutorado), ou talvez até case com uma japonesa, mas com certeza voltará à querência amada para visitar a tapera e construir o seu “ninho”, o seu paradeiro definitivo até que chegue a hora de passar para o outro lado, para a estância do além.

Um baita “quebra costelas” a você que teve a paciência de ler tudo isso até o final!

GUSTAVO BAGGIOTTO

Endereco:
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JAPAN
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Tel/Fax: (81) (52)709-5165




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