roteiro para chegar lá!

    Venâncio Aires  

 

Venâncio Aires, 09 de maio de 1998.

Pois então, compadre Rodolfo, tudo buenas?

Como prometido, estoy aqui em Venâncio Aires, debaixo de uma árvore, a canetear esta cartita pra ti. Antes de mais nada, como vai a pequeña Ju? E a Maríndia? Belíssima mulher!

(Me desculpa se escrevo em folha de caderno, mas é que não trouxe o notebook pra cá... hehehe, compreensível, né?)

Na viagem vinha contando pra minha tropa aquela nossa indiada para Laguna há uns 15 anos atrás, te lembra?

Eu levei minha prancha de surf e querendo aproveitar o máximo, fui pra praia com ela de imediato. Mas cansado daquelas horrendas 5 horas dirigindo, resolvi descansar um pouquito. Deitei de barriga pra cima com a cabeça encostada na prancha, apesar das recomendações dos amigos, e acordei 4 horas depois. Hehehehe, no trabalho passaram a me chamar de "O homem da máscara de pele", pois ela nem descascou: caía em placas de 2x2 cms... Parecia uma casca de ovo.

Bueno, tu já deves ter cruzado muito este Rio Grande representando a IBM nos usuários de mainframe, mas de qualquer jeito, vou te escrever esta pois sempre é bom saber das novidades.

Este sábado resolvemos vir aqui na FENACHIM, a Feira do Chimarrão em Venâncio Aires. A cidade ostenta orgulhosamente o título de 'capital do chimarrão'. Toda cidade do interior é capital de alguma coisa, pra compensar Porto Alegre. Pra tu veres como são aficcionados pela idéia, olha o nome dos dois jornais da cidade: "Folha do Mate" e "Gazeta do Chimarrão". Mas hein?!

bonequinho (Se tu quiseres saber mais do chimarrão, bueno, volta ao menu principal e dá uma olhada no item Chimarrão, tem uma penca de assuntos lá.)

A cidade fica a uns 130 kms de Porto Alegre, em direção ao centro do estado, indo pela estrada Tabaí-Canoas que está excelente. Era horrível antigamente, por causa do trafégo de caminhões, mas agora está, em certos trechos, triplicada em largura e é possível ultrapassar os mesmos com razoável tranquilidade.

É uma cidadezinha pequena, com uns 53.000 habitantes, e colonizada por imigrantes vindos da Boêmia (Áustria), e se instalaram onde moravam índios Umbus, Humaitás e Guaranis. Não dá pra esquecer que sofre uma baaaaita influência dos alemães de Santa Cruz do Sul e dos portugueses de Bom Retiro do Sul e arredores.

Mas vai que desta vez chacoalhei as crias mais tarde da cama, pois como é curtito o tiro, largamos de casa às 08:30, chegando aqui próximo das 10:00. Desta vez, ao contrário da viagem a Livramento, não houve fiasco com o frio, pois vieram encarangadas e cheias de roupas até o pescoço. Claro, como sempre algo pode dar errado, na chegada estava quente, mais de 21 graus, e tiveram que deixar tudo no porta-malas do Lafayete.

Ah, se tu vieres aqui não esquece que até a Tabaí vens de farol desligado, pois é rodovia federal, depois acende os faróis (de dia ou de noite) pois é rodovia estadual e tem a lei que obriga essa frescura, com o perdón da palavra.

No meio do caminho vi o que há tempos não encontrava: uma carreta com junta de bois.

De imediato travei o carro, desci com a câmera de fotografar feito um turista ávido por fotos e perguntei ao vivente se poderia tirar uma com ele.

O mesmo ficou meio aturdido, mas se empertigou todo na frente da animalada, e com seus 70 e picos anos, ajeitou o chapéu de palha e fez pose de militar pra foto. Dei-lhe um baita abraço e largamos de volta para Venâncio.

No entroncamento da cidade paramos novamente para mais fotos. Mais paro do que ando na estrada de tanta foto que tiro. Mas é bonitaço: o trevo é grande e totalmente florido, de uma maneira caprichosa de tirar o chapéu pros da terra.

Mas bueno, nem tudo é beleza.

outro índio louco por mate!! Ao chegarmos no parque tentei entrar com o carro na exposição. Daí me lasquearam essa: "Não, é só pra expositores. O sr. tem que deixar o carro aí nas beiradas da estrada."

"- Mas ora essa, tchê!!!"

Não me dando por vencido, fui pro outro lado. E lá me disseram que o estacionamento era só pros expositores. Mas tchê!!! Que invocado que fiquei. Um tal lá me disse que poderia deixar o carro lá longe no estacionamento coberto da APAE. Mas eu não quero caminhar 500 metros pra gastar meus pilas na feira. E se chover?

Bom, deixei o carro estrambelhado pelos barrancos da estrada. Ughhss....

Mas chega de fiasco.

Entramos no parque e ficamos entusiasmados: uma limpeza só.

Coisa lindaça, tudo arrumadinho e surpreendentemente o local é imenso, grande, mas grande mesmo. Pra tu teres uma idéia aqui tem três galpões enormes de exposição, churrascaria, ginásio, quadras de bocha cobertas, zona de rodeio e tudo o mais.

Eu que já sou meio metido, virei a direita e já me fui fotografando a maquineta de amassar erva. São alguns troncos conjugados como um virabrequim de carro: três sobem e três descem, alternando-se no movimento, esmagando as folhas da erva e deixando-as quase pó, como quando compramos pro chimarrão.

"Entremo" no salão principal entusiasmados, doidos pra se enjoar de tanto sorver chimarrão. Mas... ora direis, só tinha UM (ONE) estande com chimarrão e erva-mate. O resto era café, tabaco, aparelho de ginástica, de pescar, móveis, etc e tal.

Mas o quê?! Na festa do chimarrão só tinha UMA empresa, que é a ELACY (051.741.1146) apresentando seus produtos. Mas que coisa seu. Ah, ela diz que despacha erva-mate pra todo o país, mas sempre em pacotes de 15 kgs. Tu fazes o depósito bancário e eles te enviam. Bom hêin?!

Fiquei encasquetado com aquilo.

chimarrão

Fui na recepção da prefeitura e me disseram que não é época de colheita, etc e tal. Mas ué? O Gilberto Heck, da Elacy, me disse que pode guardar a erva-mate na geladeira ou freezer - ele recomenda a geladeira - por até UM ano. Entonces?

Em compensação aprendi que a terra vermelha é excelente pra plantar erva-mate e a branca (?) pro fumo. E que a maioria das plantações estão em municípios vizinhos, em Venâncio fica toda a industrialização.

Puxa, aqui as recepcionistas são uns mulheraços. Deus do céu, fiquei de pescoço todo torto, de tanto apreciar deusas nórdicas loiraças em vestimentas ...ããã... buenas, tu me entendes.

Estas feiras são uma coisa muito curiosa pros viventes da terra. Primeiro, uma baita expectativa comercial dos artesãos e industriais da região de encher a guaiaca com pilas.

E os participantes dos rodeios? Tudo gente da terra, barrigudo até, querendo mostrar pros outros quem é o melhor no tiro de laço, etc. Tem times - piquetes - que se organizam, treinam táticas, e tudo o mais. É a glória ganhar e ser afamado na região por semanas a fio...

Bom, descendo uma lomba (falar lombada é coisa de estranja), paramos em frente a uma barraquinha do Centro de Cultura do município de Vale Verde (nunca ouvi falar!!). Eles estavam vendendo tijolinhos de madeira - souvenirs - para ajudar na construção da biblioteca pública. Bueno, já abri a guaiaca - pra esse assunto não seguro os pilas, pois tudo começa com educação - e comprei. Ainda tirei uma foto ao lado da tia que os vendia.

Chegando na área do rodeio, examinei numa tenda alguns apetrechos baguais, como chapéu, bombacha, faixa, cinto e outros trecos. Mas não me agradei de nada.

Resolvi fotografar os ajudantes que ficam "fincando" (é isso mesmo, enquanto a bicharada tá no brete, pronta para correr pro laço, a gurizada fica com umas lanças espetando os bichos para andarem direitinho e até acho provocar eles).

Me enboletei no alto duma cerca e levei um pateada dum taura lá, dizendo que ali era muito perigoso. Rá, mal me conhece o tipinho. Em todo caso, como estava com a família e sem a minha adaga - que não levo pra festa-, aquiesci (boa essa, hein, "aquiesci") e me fui adiante.

Entrei noutra tenda, desta vez buenaça e acabei comprando uma bombacha linda por 25 pilas. Baratinha. Azul com riscos brancos, e tecido que parece um tergal. A dona viu essa minha cara de matungo e achou que eu era algum participante do rodeio. Mal viu meus tênis fila e camiseta Hugo Boss. Tentei pechinchar uns pilas, mas a tia era de Santa Cruz do Sul, osso duro de roer. Mas ainda assim saí feliz, pois combina com a faixa que comprei em Livramento.

Fui impedido pela família de participar do rodeio. Disseram que era sacanagem com o pessoal da terra, pois não avisara que participaria. Meu mulherio disse que se soubessem que eu iria montar e laçar, o pessoal perderia a expectativa do primeiro prêmio.

Bom, também não sou olho-grande, poderia apenas concorrer por fora. Daí disseram que eu não trouxera minhas chilenas e sem elas não poderia acelerar o pingo pra correr atrás do novilho. Vi que andavam de má vontade e me emburrei!!

Mas e eu sou lá de me mixar para montar nessa cavalhada?

Olha só a tranquilidade do vivente aí embaixo!!

mas que vida!!

Entramos na quadra de bocha coberta. Na verdade, são duas e corria o campeonato Mercosul de bocha. Como era de campeonato de times e países, fiquei de fora. Mas tava lindo ver aquela turma toda de tênis (só pode entrar assim na cancha), uniforme e berrando aos loucos por cada jogada.

Fui pro outro galpão com a cambada. Lá vimos um grupo de gansos. Ô belezura de animal, não tem melhor pra alertar a presença de estranhos. Melhor que cachorro. E que fiasco e zona que fazem. É um grasnar horroroso e ainda por cima são uns agressivos.

Esse galpão era o agrícola. Tirei algumas fotos de folhas de erva-mate para olhares, de fumo, que já colhi muito em Tapes; do fumo seco, que vira tabago pro pulmão dos que gostam; das carpas de 18 (DEZOITO) kgs dentro de uma piscina, incentivando a piscicultura e até (olha só) das MINHOCAS do seu José Caldas que vende pra procriação e alimentação humana (gasp, ele tentou de todas as formas me convencer dessa, tinha até umas receitas de bolachas, pastéis, croquete, paté, mas acostumado a uma picanha, ia ser brabo engolir estes verminóides!).

Na volta, subindo a lomba, paramos novamente na Casa de Cultura de Vale Verde para comer... pinhões. Mas que cousa boa, seu!! Isso é que é bom. Nada como sair deste cimento da capital e se bandear pros campos.

Perto da uma da tarde, almoçamos por R$ 7 por cabeça no restaurante. Um buffet sensacional, onde tinha moganga caramelada, aipim frito, picanha, salsichão, galeto e mais um monte de comida de empanturrar... Uffss... comi feito um loco, depois de ver aquele rodeio.

Después que o mulherio comprou uns cacarecos nos camelôs, que estes tem em tudo quanto é canto do mundo, fomos até a cidade que fica a uns 2 kms do parque e do entroncamento. Lá tirei umas fotos da igreja, que é a segunda maior de estilo gótico da América Latina, só menor que a de Santa Cruz do Sul. Gótico tu sabes como é, aquelas pontiagudas que tentam chegar ao céu.

Vamos nos bandear agora para Porto Alegre e acho que vai demorar o mesmo tempo (1:30) pra voltar.

Ah, já ia me esquecendo: 5a-feira passada, à noite, estivemos lá no 35 CTG (av Ipiranga, 2000 - 051.336.0035). É muito bonito, tem cursos periódicos de dança, ganhei um simpático adesivo, e vi lá um par de bota de garrão no museu deles. Quando a Ju tiver que fazer algum trabalho, leva ela lá ver o museu.

Baita abraço

Cohen

bonequinho outro

PS: descobri lendo a ZH de domingo, que o preço baixo, a concorrência do produto importado e a dificuldade de controlar as pragas está afastando os plantadores da erva-mate. Talvez por isso tivesse tão poucos expositores (UM) na Fenachim. Dizem que Santa Rosa, Erechim ou Arvorezinha estão produzindo mais erva que Venâncio.

PS 2: Dá uma olhada na coleção que vai contar a história do Rio Grande do Sul e que virá encartado todas as 5as-feiras na Zero Hora. Pelas fotos, é um material de primeiríssima qualidade.

PS 3: Visita a página da cidade em http://www.venancioaires.famurs.com.br/ que tu vais encontrar mais informações sobre a cidade, a igreja, a Fenachim, e tudo o mais. É bem organizada a página!