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19 de setembro de 2006

Hoje é uma terça-feira. Acordo com o zunir da campainha da escola ao lado do hotel. Enquanto me visto, escuto algo admirável. É terça-feira, meio de semana, e todas as crianças cantam o hino nacional. Lembro de uma prima que mora nos EUA: contou-me que os filhos cantavam o hino todos os dias. E no Brasil?

Tenho um problema. A moto está folgando a corrente de transmissão. Além de um barulho estranho na parte traseira. Resolvi levar na concessionária Honda da cidade. A vantagem de uma motocicleta desta marca é que em qualquer lugar existe uma revenda. Decido ir logo depois do café. Levo uma surpresa. A cidade cresce pra depois da praça - onde achávamos que era o fim dela - é imensa. Ando quatorze quadras até a concessionária e vou passando por muitas outras revendas de veículos e motos.

  

Chego na Honda Paraná e sou atendido de imediato. O técnico pára tudo que faz e começa a trabalhar na Hiena. Diz que o consumo exagerado pode ser o filtro de ar, mas não possuem nenhum para reposição: não existe Shadow 600 na cidade. Aliás, existem pouquíssimas motos grandes. Um vendedor comenta que quando o peso era parelho com o dólar - 1 x 1 - podiam comprar muito. Fiquei triste em contar a ele - e não o fiz - que foi exatamente isso que os quebrou, pois não havia como exportar nem incentivar a indústria local em função disso. O barulho na parte de trás era o encosto do garupa frouxo. Por último, o técnico aperta bem a corrente para que eu possa tocar. Nada me cobram e por isso, deixo 20 pesos para o rapaz.

Pego campo rumo a Paso de Los Libres

O trajeto é muito bonito. Vou seguindo pelos corredores e admirado pela beleza que consigo sentir. Árvores sombreiam o asfalto. Gado e soja, além das cercas. Em cada posto de gasolina, máquinas de água quente para quem gosta de chimarrão. Passo por um nhandu e, infelizmente, estou a 110 kms/h. Uma pena, fotografá-lo seria quase um prêmio pela viagem.

     
     

Ah sim, o gaúcho existe!

Na trilha para Paso de Los Libres, encontro uma gauchada tocando gado. Paro. Resolvo fotografar. O patrão percebe e me chama. Aproximo-me.

"- Meu nome é Roberto" - digo eu -, "- Sou do Brasil, Rio Grande, somos gaúchos também."

Don Daniel explica-me que tem faltado água e por isso é preciso levar o gado diariamente para uma aguada mais adiante e buscá-lo no cair da tarde. Nada por caminhão. É por cavaleiros mesmo que tocam os animais para lá e cá, como sempre se faz há centenas de anos nos pagos gaúchos. (O branco nas fotos não é uma asa de avião - já me perguntaram isso -, mas sim uma tubulação que permite a passagem de água).

     
     

Quase aqui...

  

Uns ares de Rio Grande chegam-me no horizonte. Às 17:00 avisto Paso de Los Libres. Troteamos, eu e Hiena, pela rua principal em busca de uma nova mochila para levar dúzias de alfajores encomendados. Encontro em um armazém/bolicho/lojinha várias delas penduradas. Compro uma simples, após árdua negociação com o proprietário: 29 pesos, sem arrego por que, diz ele, os brasileiros estão com dinheiro. Desço a rua até o primeiro super-mercado, onde varro as prateleiras, levando todos os alfajores disponíveis. Enfio-os dentro da pequena mochila e penso que, coriscando nas idéias, ainda há tempo para rumar a Porto Alegre e pousar nalguma cidade do caminho.

  

Assim, cruzo a fronteira, passo novamente no bar do árabe. Sou bem recebido. Troco pesos por reais. Toco até Alegrete. Lá, pergunto por algum hotel e um vivente que ia para a faculdade, resolve me amadrinhar até o Hotel São Jorge. Ele é simples, vários quartos externos um ao lado do outro, me recordam um cortiço. Mas sou muito bem recebido e o quarto é limpo e agradável. Pois fico, exclamo com entusiasmo para poder amansar as paletas depois de uma longa tropeada.

"- Coma nossa comida caseira", convida a recepcionista e eu, mais por preguiça de sair do que por concordância, aceito a sugestão.

Primeiros os encargos, depois os amargos. Retiro tudo da Hiena e levo para o quarto, sob o início de um chuvisco lamuriento. Descubro que a bombona de gasolina de 5 litros, que comprei em Paraná, para o caso de uma pane seca na estrada, vazou. Tudo que carregava dentro daquela mochila cheira a posto de gasolina. Vou até a Hiena e despejo o resto da azul gasolina argentina dentro do tanque. Tomo um banho, sigo para o restaurante onde me apraz um belo arroz-de-carreteiro, especial de primeira, com pão e salada e cerveja. Na mesa ao lado, o pessoal da Ita Kirsch Fotografias. Visite o site, clique sobre o nome deles, depois em livros. Veja que coisa macanuda o "Visões do Rio Grande". Quero ver se acho em alguma livraria para comprar, pois me parece ótimo.

A meia guampa vou torteando até o quarto. A noite chuvosa me encontra roncando alto, às vésperas do dia 20 de setembro, numa das cidades mais gaúchas do mundo.



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