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16 de setembro de 2006

Na véspera, decidimos ficar até o meio-dia. Afinal, não é todo dia que se tem a chance de pousar numa estância e ainda conhecer o seu dia-a-dia. Bem cedito, às 07:00 levanto. Diabolin folga dormindo; passou frio à noite. Lá fora, nada de descarga de caminhões, rádios em alto volume, buzinas. Somente a passarinhada animada com um novo dia azulado.

Minha primeira função é checar os animais. A Hiena está calma, enfeitada com suas fitas tricolores. A Potranca Negra, de Diabolin, acompanha a primeira na tranqüilidade do pampa.

Enquanto meu compadre de expedição descansa, vou à charla. Encontro Ricardo e Nilza chimarreando. Me gusta. Contento-me com o amor que o casal transmite. Nestes tempos aloprados, é benéfico pr'alma constatar mostras de carinho. Na parede atrás do sofá, uma ilustração do próprio Duarte, cancheiro que é, na arte do desenho. Ali estão delineadas as figuras formadoras do pampa gaúcho: o índio, o negro, o peão e o dono de estância. E ao fundo, em forma obscura e inacabada, uma figura que pressuponho ser o próprio artista.

Num treme-treme, aparece nosso taura Diabolin que, mais adiante no dia, mostrará-se um verdadeiro tapejara em terras argentinas. Pilchado: bombacha, botas, vem com sorriso costa-a-costa de faceirice. Mal mal vê o povo, se entrega a abraços e cumprimentos. Saímos na direção do galpão. Ricardo nos dá uma nova aula de criação, comentando que mantém animais mais novos presos em ganchos pelas ventas para domá-los. Conta uma história ainda melhor: na sexta-feira pela manhã sentiu um rumor estranho nos campos. Perguntei como ele percebia isso. No que me respondeu:

"- Seo Cohen, aqui tudo é muito calmo o dia inteiro. Se um cavalo aponta as orelhas, a cachorrada dá dois ou três latidos, é por que tem coisa. Olhamos numa direção do campo, eu e meus peões, e vimos uma corrida de ovelhas. E a gente sabe quando o bicho pula de alegria ou quando tem algo diferente. Nos tocamos até lá e era uma cadela chimarrão (sem dono, que se tornou selvagem, bravia) com filhotes correndo atrás das orelhas. Coisa mais triste, por que mordem, esfacelam a ovelha, mas não matam. É só por arte, mesmo. Foram umas dez ovelhas nessa maldade. Olhe aqueles pelegos ali em cima da cerca. De ontem!

     

De fato, nada como a vida do campo. Ricardo afirma que o sujeito da campanha desenvolve a visão para quase dois quilômetros de distância. Enquanto quem vive em regiões urbanas tem capacidade para cinqüenta ou cem metros (não precisa mais que isso), no campo o sujeito identifica uma determinada vaca, capão ou pessoa a centenas de metros de distância.

Questiono pela guarda animal: os gansos. Turma que serve de alerta para qualquer aproximação desconhecida. Ricardo me aponta uma direção e, provando que o pessoal da cidade pouco desenvolve a visão, lá estão eles. Como o sábado abriu bonitaço, feito o entardecer de sexta-feira, fico admirado com a beleza e planura do pampa.

     

Hora de seguir viagem...

  

Aproveitamos a hospitalidade do casal e almoçamos na casa grande. Um belo espinhaço de ovelha, que nos enche de forças para penetrar em solo do país vizinho. Levamos de Uruguaiana e da fronteira, a imagem de um sujeito empreendedor, seo Ricardo Duarte. Taura que estuda e ministra aulas de genética na universidade. E que a aplica em seu rebanho. Que é excelente ilustrador, pesquisador de mão-cheia, historiador, romancista, poeta. Mas muito mais do que isso: ser humano de qualidades inigualáveis, como o fino trato com seus iguais, a hospitalidade, cordial, humano e amigo.

A ti, macanudo amigo, nossos maiores agradecimentos e o orgulho de contar com gente desta nobre estirpe portuguesa no Rio Grande!

Cruzando fronteira...

Nosso primeiro obstáculo é percorrer os onze quilômetros de chão batido até a parte asfaltada. Muito pó e buraco. É cedo e os pingos estão bem-dispostos. São cavalos de se tourear polícia. Vamos tocando, embalados no entusiasmo de chegar ao solo platino.

        

Nossa programação não previra as dificuldades em trocar reais por pesos argentinos em pleno sábado, feriado bancário. Puro esquecimento. Recolhemos orientação na cidade e rumamos para a rua do camelódromo, onde existe um proprietário de bar árabe que, de maneira gentil e confiável, realizou o câmbio para nós.

Direção: ponte da amizade. Cruzamos o rio Uruguai. Um sentimento de incerteza e de aflição toma conta. O que será do outro lado? E a dificuldade do idioma? E se atropelar alguém e ficar retido? Todo uma série de medos que, creio eu, é natural quando se chega em país estranho.

Em solo estrangeiro

  

A aduana do lado argentino está vazia. Para quem vai de passaporte, o processo é rápido. Diabolin apresenta o dele, recebe um carimbo e está liberado. Eu preciso preencher uma ficha e carregar comigo um passe de entrada/saída no território platino. Agora, tocar 470 quilômetros até a cidade de Paraná, às margens do rio de mesmo nome. Teremos que cruzar pela polícia rodoviária de Entre-Rios (região que fica entre o rio Paraná e o Uruguai) que dizem ser mordedora para mais de metro!

Adiante, em San Jaime, o esperado acontece. Somos convidados pela polícia a encostar. A primeira solicitação nem é de documentos, mas do seguro Mercosul. Parece que estão conscientes da dificuldade em obter este papel (carta-verde) em nosso país. Nem o Banco do Brasil, HSBC, etc fazem-no mais, pois a Sulamérica (seguradora por trás de todos eles) abandonou a prática para motos. Conseguimos na HDI Seguros que ainda faz somente para cilindradas acima de 250.

O policial nos pergunta se vamos ao encontro de motos. E eu, no meu portunhol ordinário, confirmo, cumprimento-o, pergunto se deseja alguma coisa de lá - nem sei onde é o encontro. Somos liberados, mango nos animais e bamo que bamo.

Cinqüenta quilômetros adiante, outra barreira. A mesma coisa. Contudo, uma aflição vai se desmanchando. Todos eles pedem apenas os documentos, conferem-os e nos desejam boa-viagem.

Perto da cidade de Federal, novamente a polícia nos barra, confere documentos e libera. Percebo que mandam todos pararem. Vejo-os conferindo sinaleiras de caminhões, faróis, etc. Alegro-me ao ver isso, estão garantindo que as chimbicas não possam rodar nas estradas (engano meu: descobri mais tarde que argentino com carro bom voa a 140 km/h e os com carros ruins, andam a 20 km/h).

Final de tarde, chegamos a Paraná

     

A cidade de Paraná é muito bonita. Ao anoitecer, praças, chafarizes e bairros tomam vida. Havia pesquisado no site Welcome Argentina e fiquei surpreso com o tamanho da cidade. Pergunta daqui e dali, nosso tapejara Diabolin em seu exímio espanhol decifra a questão: vamos pousar no Hotel Paraná.

Desabamos os alforjes e malas de garupa sobre as camas. Um banho e toca a conhecer a noite da cidade. Estamos bem em frente da praça principal da cidade. Iluminação total, muita gente e bastante policiamento. Aqui na Argentina ninguém usa capacete quando trafegando de moto e por isso é um mar de cabeças de fora. Aliás, também não possuem muitas motos grandes e o que mais se vê são scooters carregando três e até quatro pessoas/crianças. Depois de circular, nossas expectativas são atendidas e achamos um bom lugar para comer um entrecot magnífico. Por fim, o repouso necessário. Os corpos, cada qual em sua cama, despecam feito barro que cai de roda de carreta.

        



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