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15 de setembro de 2006

Final do inverno, quatro da manhã. As rajadas de vento somam-se ao início da chuva. Às seis e meia ele desperta, caminha até a janela, esquadrinha o exterior e, cabeça baixa, aperta com força a cortina. Ajeita-se na cozinha e bebe o café. A prenda aproxima-se, beija-o. Larga a caneca sobre a mesa, vai até a cocheira e traz a égua. De maneira pausada, aperta estribos, mala de garupa e aperos. Por fim, prende dois conjuntos de laços na crina do animal: um azul celeste com branco; outro, amarelo, vermelho e verde. Monta. Ouve-se um longo relincho e seguem.

Na junção do caminho da Edu Chaves com Sertório, a várzea transborda. Uma fila indiana de carretas e cavaleiros busca passagem na parte mais alta. Na espera pela vez, água a palmo e meio no cano das botas.

Apeia ao chegar no paradouro Laçador. Oferece ração ao animal. Examina o relógio. Levanta as vistas na direção do corredor. Acende um palheiro e deixa a fumaça penetrar as narinas. Esfrega as mãos e braços. Coça o pescoço. Observa a chegada de carruagens, enquanto um aroma forte de querosene esparrama-se pelo ambiente.

Após vários minutos, Diabolin aponta no horizonte. Vem na sua potranca negra, da raça Harley. Invade a área do paradouro, joga os estribos para o lado e abraça o amigo GDM. Conversam sorrindo, gesticulando e chacoalhando água das vestes. Os olhares miram o céu. Balançam a cabeça para os lados, várias vezes.

Estrada. Cruzam a ponte do Guaíba sob forte chuva. Um, vai de sinuelo. O outro, de arrasto. O chapéu protege o rosto do impacto dos pingos. Cada carreta ou carruagem que passa, gera um vigoroso borrifo. A capa de chuva protege apenas o cavaleiro; o flete molha a pelagem por completo. Por quilômetros e quilômetros seguem nesta formação, parando apenas para descanso dos animais. Hiena, a égua de GDM, parece cansar mais cedo do que a de Diabolin. Uma preá atravessa veloz o corredor. Quilômetros adiante, um graxaim. Não olha para os lados, cabisbaixo e com o rabo encolhido, avança lento pelo corredos, indiferente à dupla.

Fim de chuva

Em Pântano Grande a chuva cessa e uma varrida no céu abre um intenso sol. Adiante, gesticulam e mudam rumo para a cidade de São Gabriel, terra dos marechais, princesa das coxilhas. Pelo calçamento de pedras irregulares, a dupla alcança o Nutribem. Com as roupas sujas de poeira, água e uma lama, adentram no recinto. São recebidos pelo proprietário que os convida a sentarem, enquanto ajeita pratos e talheres. Fartam-se, pagam a conta e voltam aos pintos. GDM ajeita o lenço contra-pó que ostenta as cores sul-rio-grandenses. Ajeitam bagagens e prosseguem, estrada ao leste, rumo ao próximo povoado. Retilíneos trajetos se passam por horas e horas.

Seguem-se imagens dos cavaleiros no pampa gaúcho...

Chegando na primeira cidade de pouso...

Seiscentos e cinquenta quilômetros percorridos. Antiga Capela do Uruguai. Ex-Santana do Uruguai. Atual Uruguaiana. Chegam a tempo de ver o pôr-do-sol sobre o rio. Dirigem-se até a Magna Corretora e negociam o seguro que permite, segundo o vendedor, ingressar em território argentino com seus cavalos. GDM busca algum haras para exame de seu animal que cansa rápido, precisando de alimento em menos de cento e vinte quilômetros de marcha. Os funcionários da Gama Honda param tudo o que fazem para lhe atender. O problema parece ser nas ventas do bicho. Não há o que fazer. Não possuem recursos.

Cabanha Touro Passo

Evoluem na direção de Itaqui através da BR-472. Vinte e oito quilômetros por um corredor de asfalto. Seguem as orientações do patrão da estância que enviara um chasque com mapa:


Buenas, Chê.

O negócio é o seguinte: Tu chegas em Uruguaiana pela BR 290 e pegas a BR 472, saindo para o lado de Itaqui, São Borja... etc. São mais ou menos 27, 28 Km de asfalto.

Tu vais passar numa ponte um pouquito maior que as outras que passaste nesse caminho, que diz (não diz, mas está escrito; tu tens que ler) "Ponte sobre o rio Touro Passo". Tem algumas árvores na cabeceira.

Depois de passar o Touro Passo (que cruza também no fundo da minha propriedade, mas não adianta te atirares n'água, porque dali é ainda bastante longe) tu vais pegar o primeiro corredor (brete) à mão direita. Não tem como errar, pois há uma "baita" placa com a cabeça de um touro hereford (da minha parceria rural cam a PUCRS) e outra menor no costado que afirma estar a Cabanha há 11 Km dali.

Zera o hodômetro do teu carro e podes crer que nos 11 Km de estrada tu chegas na frente de uma porteira e mata-burros com um telhadinho de telhas sobre um muro de pedras. Aí também tem uma placa com a marca "TOPASS" e a cabeça de touro.

As casas estão há 800 metros, com estrada encascalhada.

Bueno... vais ver um gado pampa numa pastagem de azevém...

Coisa pouca, rodeiozito pequeno... mas se não fossem minhas eu comprava só pra não perder o gosto de ficar olhando!...

Me mantém informado. Por exemplo: que horas tu achas que vais chegar?

Um abraço,

Ricardo



O entardecer alcança-os no estreito corredor de chão batido. Diabolin pára e fotografa várias vezes o pôr-do-sol.

"- Me perdoe, parceiro" - diz ele - "mas sou louco por esta hora do dia."

GDM bufa. Levanta a aba do chapéu. Afrouxa os barbicachos. Põe a mão na cintura. Aperta as rédeas com vigor. Chacoalha sola no estribo. Depois de alguns minutos, seguem marcha.

Entram porteira adentro da cabanha. O gado Hereford mantém-se estancado na trilha até a casa grande. Quando os viajantes aproximam-se a um metro, foge em repentinos movimentos. Na casa, são recebidos pelos proprietários que ordenam:

"- Vamos chegando, gente boa. Apeiem aí mesmo e venham matear."

O resto da noite encontra nossos viajantes dentro da casa grande, banhados e charlando com Ricardo e Nilza. Em meio a um jantar campeiro, com sopa, guisado e arroz, ouvem os projetos do estancieiro, que envolve uma análise fitoterápica de toda a flora local e seus elementos ativos, composição da alimentação do gado. Compreendem as diferenças do gado canadense, alimentado com ração - e que pode gerar a vaca louca, pois incluem-se na mesma restos de ossos de outros animais-, confinado a espaços reduzidos em função do frio e da neve - que cai no lombo, mas escorre pro lado, ao contrário da chuva pampiana que penetra no couro.

Ricardo mostra as premiações recebidas durante a Califórnia da Canção, que ajudou a construir, assim como troféus das várias exposições de animais. Fala dos livros feitos, como Estampas do Sul, com ilustrações do pago; romances como A Sesmaria da Pedra e A Estância do Lagoão; Considerações sobre os bovinos de corte, quase um manual sobre a raça Hereford.

Seu próximo feito, pronto e esperando apoio para publicar, é Perico - A sociedade rural do Prata e o mundo desenvolvido, obra em três volumes que, além de registrar fatos históricos e envolver partes ficcionais, ainda analisa o contexto da época.

A noite encontra Diabolin na leitura de Don Segundo Sombra e Martin Fierro.

Lá fora, o coaxar da noite caindo...



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