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Reportagens


A mãe de Teixeirinha
JOHANNA KLEINE



Mãe é inesquecível, para o bem ou para o mal. Por séculos, filhos artistas imortalizavam suas genitoras em textos, poemas e cançôes como a fada doméstica atenta ao bem-estar dos filhos ou como a bruxa que a vida de seus rebentos.

Na quarta reportagem da série em homenagem ao dia das mães, neste domingo, Zero Hora traz o perfil de uma das mais choradas mães rio-grandenses - a do cantor e trovador Teixeirinha.

O maior golpe da vida do menino Vitor Maleus Teixeira foi a perda de sua mãe querida, aos nove anos de idade. A história virou lenda. Virou canção, filme, e emocionou milhares de pessoas que se compadeceram com a tragécha do menino. O guri Vítor se transformaria mais tarde em Teixeirinha - o maior fenômeno popular da música rio-grandense. Mesmo depois da consagração nacional, o cantor conservou o trauma da perda da mãe, uma dor que o acompanhou até a morte, em 1985.

Ledorina Mateus Teixeira, mãe de Teixeirinha, parecia trazer gravado na própria carne o signo da desgraça. Foi miserável nunia região pobre, em um tempo difícil. Morreu queimada em 1936 e, como se estivesse destinada ao limbo, os registros sobre sua vida são escassos. As poucas informações a seu respeito foram fornecidas pelo próprio filho em mais de uma dezena de composições e em dois de seus filmes.

O resto se esfumaça em uma bruma de mistério. A mais conhecida canção do cantor sobre a mãe - e aquela que o catapultou para o sucesso -, Coração de Luto, é um relato melo-dramático da morte de Ledorina. Bastou a música ganhar as rádios e - como o próprio Teixeirinha diria - o bochincho estava feito. Foi rebatizada pelos críticos de "churrasquinho de niãe", dando a entender que o cantor estava usando a memória da mãe para fazer dinheiro.

Na década de 20, Ledorina vivia com Saturnino Teixeira em Rolante, na época distrito de Santo Antônio da Patrulha. Com ele teve três filhos: Osvaldo, Geni e o caçula Vítor. Mais tarde a família se transferiu para o interior de Taquara. Quando Teixeirinha tinha sete anos, o pai morreu, deixando Ledorina e os filhos em má situação. A primeira família de Saturnino expulsou-os do rancho em que viviam. Por falta de condições, Ledorina se viu obrigada a dar os dois filhos mais velhos para serem criados por outras famílias. Ficou apenas com Teixeirinha, morando de favor em terras alheias.

Pelo que se sabe, Ledorina tinha cabelos loiros, era bonita e morreu jovem aos 28 anos. As informações terminam aí. Não se sabe se Ledorina teve dinheiro ou tempo enquanto viva para tirar um retrato e, se chegou a bater um daguerreótipo - como se dizia à época -, a imagem não atravessou as décadas. Na música, bem como na realidade, a mãe foi um espaço vazio na vida do cantor. Em Coração de Luto, ele escreveria: "No mundo fui atirado/ com a morte de minha mãe/ fiquei desorientado/ com nove anos apenas / por este mundo jogado".

Com o intuito de provar que Coração de Luto baseava-se em caso verídico, Teixeirinha estrelou em 1967 um filme com o mesmo nome, alterando um pouco a história. Nas telas, Ledorina (interpretada pela atriz Amelia Bittencourt) morre no incêndio do rancho onde vivia. Na vida real ela sofria de violentos ataques epiléticos. Um dia, enquanto queimava folhas secas no pátio de casa, ela desfaleceu e caiu sobre a fogueira. Agonizou dolorosamente por três dias antes de morrer. Foi o final de uma existência marcada pelo sofrimento.

Muito da trajetória da Teixeirinha pode ser resumida como a busca de uma mãe ideal. Mesmo sendo órfão também de pai, é da mãe a saudade esmagadora que povoa toda sua obra. "Eu era tão garotinho/ todos tinham mamãezinha/ só eu coitado não tinha/ para me dar um carinho", lamentava ele na música Cidade Triste. Na maioria de seus 12 filmes, o cantor não era órfão. Nas telas, havia sempre uma mãe carinhosa para seu personagem.

A saudade afetava também a vida pessoal do compositor. Em arroubos de sentimentalismo, repetia seguidamente para os nove filhos que só não sabia a importância de uma mãe quem não a tinha. Chegava a considerar o dia das mães como o mais triste do ano. Nos momentos de dor, sempre recorria à mãe morta por meio de orações, pedindo forças. A admiração que tinha por Ledorina era comparável à sua devoção à Nossa Senhora de Fátima.

Para venerar a memória da mãe querida, Teixeirinha construiu para ela o túmulo mais bonito do cemitério antigo de Taquara. A vida de Ledorina parecia uma música de Teixeirinha. E as músicas de Teixeirinha não seriam as mesmas se ela tivesse sido mais feliz.