Página Não-Oficial do Teixeirinha
Reportagens


O Rei do Regionalismo
Há dez anos morria Teixeirinha,
o maior ídolo popular da música gauchesca
JUAREZ FONSECA



Prova disso é a resposta dada em 1976 à pergunta de mais um daqueles jornalistas que lhe viviam fazendo cobranças: "Se eu fizesse música com intenções sofisticadas ou intelectuais, estaria ainda hoje na beira da praia com meu violão, a ver navios. Quando eu escrevi Coração de Luto o povo se definiu logo. Eu sou povo também, e as pessoas gostam de minhas canções porque elas cabem exatamente no ouvido delas".

Até hoje cantada e gravada, Coração de Luto provocou, na época de seu lançamento, uma polêmica como há anos a música brasileira não vê. Os críticos e os bem-pensantes detestaram profundamente, disseram que era a coisa de mais mau gosto jamais feita. Indiferentes a essas opiniões e esse nojo, de norte a sul do Brasil as rádios populares tocavam a música e o povo comprava o disco.

Coração de Luto permanece imbatível na posição de música mais vendida da história do disco no Brasil. Esse recorde será lembrado na próxima terça-feira, quando for aberta oficialmente a semana "10 Anos sem Teixeirinha', na Casa de Cultura Mario Quintana (veja box ao lado). Biaggio Baccarim, ex-diretor artístico da gravadora Chantecler, na qual Teixeirinha gravou quase todos os seus discos, garante que só Coração de Luto é responsável pela metade dos 25 milhões de discos vendidos pelo cantor de 1960 a 1995.

"Eu nunca vi nada igual em 37 anos de trabalho na indústria fonográfica", diz o paulista Biaggio, hoje assessor jurídico da Warner, a gravadora que há três anos comprou o acervo da Chantecler. 'Nós prensávamos o disco em três fábricas, e mesmo assim não se dava conta. Os caminhões carregados chegavam e nem entravam no depósito, iam direto para as distribuidoras e as lojas. Em lugares mais distantes, como Belém do Pará, enquanto não chegavam novas remessas o disco era vendido no câmbio negro, pelo dobro do preço."

Coração de Luto era o lado B do quarto 78 rotações que Teixeirinha gravou para a Chantecler em 1959. Ele levava mais fé em Gaúcho de Passo Fundo, por isso fez dela o lado A. Venceu o drama. Em poucos meses a música se tomou um estouro de vendas, e explodiu em 1960 com o lançamento do primeiro LP, O Gaúcho Coração do Rio Grande.

A gravadora fez Teixeirinha excursionar pelo interior de São Paulo para reforçar o sucesso na estrada. Eufórico, o trovador retornou a Porto Alegre com uma Kombi e dinheiro para comprar uma casa.

Vitor Mateus Telxeira nasceu no interior do município de Rolante (e não em Passo Fundo, como disse na música) em 3 de março de 1927. Por não existir cartório lá, só seria registrado já moço, em Porto Alegre.

Na infância viveu dois dramas que o marcariam profundamente: aos seis anos a morte do pai de ataque cardíaco, e aos nove a morte da mãe, que durante uma crise de epilepsia caiu sobre o fogo que ateava em folhas à beira do rancho da família - a história que emocionaria multidões.

"Os que me acusam de ter feito o 'churrasquinho de mãe' são meia dúzia de doentes", atacaria mais tarde, diante das críticas. Órfão, depois de perambular por casas de parentes, tão pobres como ele, Teixeirinha resolveu tentar a vida em Porto Alegre, sozinho. Vendeu balas, entregou viandas, trabalhou em pensões de estudantes, começou a aprender violão, de ouvido.

Dizia que desde que aprendera a falar já fazia versos rimados. No final da adolescência começou a se apresentar em programas de rádio, no Interior. Conheceu o famoso trovador Gildo de Freitas e logo se tornou um dos grandes da trova. Só Gildo mesmo para bater-se com ele.

Em 1959 estava apresentando um programa de rádio em Passo Fundo quando recebeu o convite para gravar. Viajou para São Paulo num trem Maria Fumaça e gravou o seu primeiro 78 rotações, com Briga no Batizado e Xote Solcdade. Um ano antes casa-se com Zoraida, que ficou encarregada de cuidar da barraca de tiro ao alvo que ele comprara em Passo Fundo.

Em 1961, já famoso em todo o Brasil e instalado na casa própria em Porto Alegre, viajou para uma apresentação em Bagé e precisou de um gaiteiro para acompanhá-lo. Um conhecido sugeriu que testasse uma garota de 14 anos, que surpreendia a todos tocando as músicas dele no acordeão. Nome da mocinha: Mery Teresinha. No ano seguinte Mery já estava gravando com ele e vivendo uma relação afetiva que só se interromperia em 1983, quando ela o abandonou com um bilhete lacônico, "Não me farei mais presente ao seu lado", antes de casar com o mentalista Ivan Trilha.

Teixeirinha manteve duas famílias o tempo todo, tendo seis filhos com Zoraida e dois com Mery. Mas o abandono o abalou profundamente, pois para o público ele e ela eram figuras indissociáveis. Com Mery Teixeirinha gravou a maioria de seus discos, com Mery dividiu durante mais de 15 anos programas de rádio que eram líderes de audiência, com Mery fez 12 filmes, ele o galã, ela a heroína.

A dupla fazia de dois a três shows por semana, em circos, teatros, ginásios, CTGS, cinemas, por todo o Brasil. Teixeirinha não tinha empresário, ele mesmo administrava tudo, apoiado em um raro talento para ganhar e multiplicar dinheiro.

Era um ídolo popular como o Rio Grande do Sul nunca teve, conhecido em países africanos e europeus, conhecido até nos Estados Unidos (onde se apresentou muitas vezes para as colonias de latino-americanos e portugueses), mas era também um homem amargurado pela separação de Mery quando teve um infarto, em 1984.

Mas foi um câncer que o abateu no dia 4 de dezembro de 1985. Mais de 50 mil pessoas participaram de seu enterro no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia, em Porto Alegre, ao som de suas músicas. No mesmo dia estava chegando às lojas seu 49' LP, Amor aos Passarinhos.