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Joao Guedes

Texto de Cyro Martins

Estavam ali reunidos, num boliche de fim de rua de cidadezinha, quatro indivíduos que se emborrachavam juntos quase todas as noites e que não eram amigos. A noite estava abafada e os seus rostos mais pesados que habitualmente.

Havia qualquer coisa grave suspensa sobre eles. Mostravam-se mais ensimesmados que em qualquer ocasião. Mas nenhum deixava transparecer a causa das suas apreensões. Cada qual vivia para si o seu drama.

Guedes, o homem de olhar bom, barbudo e encurvado, que se achava sentado defronte ao capitão, meditava na sua história, no destroço da sua vida. Cada anoitecer o encontrava mais desgraçado.

Ele não contava o princípio da sua decadência pelo dia em que se mudara pra cidade. Datava-o do dia em que, indo a trote pela estrada, evitando as pedras para poupar o cavalo, sem avistar ninguém, nem no corredor nem nos campos, os seus olhos ardidos do solaço deram com um rombo no aramado.

Perto, viu uma ponta de ovelhas esparramadas na encosta duma coxilha. Quase sem pensar, deu de rédeas ao cavalo e entrou na invernada. Contou uma pontinha de ovelhas, entre as quais as suas vistas campeiras destacaram logo um capão lanudo e gordo. Repontou-as no rumo dum baixo, onde corria uma sanga de barro.

Ariscas, algumas sentavam. Deixava que se escapassem, como um refugo proposital. Por fim, sobraram o capão e uma ovelha velha. Foi aí que cerrou perna, esquecido de tudo. A ovelha logo debruçou entre as macegas, estafada. Mas o capão tinha graxa e gambeleava com agilidade, forçando-o a bruscas esbarradas. Queria atropelá-lo contra um barranco. Lastimava-se de não trazer consigo um laço. Não desanimava-o, porém. Pelo contrário, encarniçava-se cada vez mais, embora começasse a sentir canseira e a notar que o montado se esfalfava. E nessa teimosia foi correndo sanga abaixo, como nos tempos de guri arteiro, e ziguezagueando, até chegar ao ponto em que o animal apenas troteava. Boleou-se do cavalo, então, e saiu num frenesi, errando manotaços na lã crescida e crivada de flechilha do capão rome.

Enraivecera-se. Por nada desistiria da caça. Num dado momento o animal meteu as mãos num buraco e caiu. Ele, correndo muito perto, rolou por cima e não teve tempo de agarrá-lo.

Desesperado, apedrejou-o, como que apedrejasse um bicho desprezível. Acertou-lhe na cabeça. O capão testavilhou e rodou logo adiante. Suado, exausto e furioso, João Guedes arrancou da faca e sangrou-o como quem sangrasse um inimigo.

Quando se viu na estrada, à noitinha, carregando a presa atravessada na garupa e sentindo a ardência no peito, dor na lagarta das pernas e suor gelado na testa, horrorizou-se do que fizera e jurou jamais repetir semelhante façanha.

Entretanto, instigado pelas próprias necessidades e pelo conluio encorjador com o Fagundes, recaiu uma e outra vez, até o flagrante em que foi preso.

Fazia agora dois meses que se achava em liberdade, porém se, achava mais prisioneiro que nunca. Tinham sido dois meses terríveis, esses. Perdera a filha, vendera o cavalo, vendera os arreios, Maria José secava dia a dia, passavam fome. Na véspera, percorrera a cidade à cata duma changa qualquer. Tratara a limpeza dum sítio por oit mil réis. Compreendia que não era serviço pra um homem da sua idade e no seu estado. Talvez caisse no meio das ervas...

Depois disso, qual seria o seu próximo passo?

(Porteira Fechada, 1944)

Cyro Martins

Com origens intelectuais na geração de "30", Cyro Martins criou o ciclo do "gaúcho a pé": Sem Rumo (1937), Porteira Fechada (1944) e Estrada Nova (1953). É preciso situá-lo num determinado quadro histórico.

Alguns anos antes de seu primeiro livro ocorrera o surto do romance social. José Américo de Almeida denunciou o drama do retirante nordestino; José Lins do Rego analisou a transição do engenho de açúcar para a usina; bem próximos, Jorge Amado e Graciliano Ramos trouxeram ao primeiro plano o regime de dominação vigente nas grandes propriedades rurais.

O projeto literário do romance de 30 era, portanto, a crítica à realidade brasileira; trata-se de uma literatura comprometida.

No mundo oferecido por Cyro Martins os triunfos épicos e os lances de heroísmo individual estão relegados ao passado morto. A saga do gaúcho foi substituída pela industrialização do pampa que, introduzindo novas técnicas de produção, alterando hábitos e e estilos de vida seculares, degradou o homem do campo. Deu-se aí uma ruptura histórica. O gaúcho a pé, empobrecido, é obrigado a abandonar as estâncias, buscando refúgio na periferia das cidades.

Sob condições miseráveis, incapaz de garantir a própria sobrevivência fora de seu meio natural, torna-se um exilado na terra em que nasceu.

Para esta realidade se dirige a observação de Cyro Martins, revestindo o regionalismo de uma perspectiva crítica, já no limite da denúncia sociológica e recusando fantasiar a injustiça da pressão economica. Também está isento de demagogia panfletária. Seu realismo é, antes, um apelo para visualizar o gaúcho na verdade dos novos tempos.