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O Combate

Texto de Darcy Azambuja

O combate foi bem defronte à Granja Nova. Desde o começo da revolução, aquela região povoada e fértil, a cavaleiro de rumos propícios para incursões e retiradas, vinha sendo constantemente batida pelas forças em luta. Os donos tinham-na abandonado, suspenso qualquer trabalho por impossível. E pouco e pouco consumou-se a destruição do labor de tantos anos.

Os aramados por terra, as taipas arrombadas, queimado como lenha e madeiramento das calhas, o arrozal amassado na lama endurecida, as máquinas enferrujando às interpéries, abatidos os rebanhos, as invernadas feito campo raso, logradouro de quem quisesse... Ao canto da lavoura, tinham parado as asas do catavento, cansadas de girar. Todo o campo talado e aberto. Fizeram-se arena, onde sempre tremulava alguma flâmula de guerra.

(...)

Em dado momento, quatro cavaleiros destacaram-se da ala esquerda dos atacantes e vieram, abrigando-se em árvores, em direção à mangueira, que ficava ao lado da Granja. Choveram balas, e três deles caíram. Mas o último alcançou a mangueira e em pouco a cavalhada ali encerrada espalhou-se pelo campo, aos gritos de alegria e escárnio dos atacantes.

Preparavam-se, estes, para uma carga decisiva. À voz de - "a cavalo" - formou-se prestes um esquadrão e, entre os da "testa", o velho Severo perfilava-se, rijo, como remoçado. Remoçara, de fato, com a vida guereira. Sentia-se novo, e agüentava alegre, como da "outra", a existência vibrante e dura de marchas forçadas, de acampamentos, sempre no lombo do pingo, combatento sempre, comendo quando Deus queria.

A memória realizava-se, dando-lhe a suprema alegria de reviver o passado, as suas velhas saudades, as visões que lhe povoavam a lembrança, os seus hábitos e os seus ódios antigos, todo o outro tempo, os "velhos tempos" que tanto viveram dentro deles, e eram agora reais; e os seus setenta anos remoçavam nas luta recomeçadas.

Os cavalos caracolavam, empinando-se tomados tambvém do anseio dos cavalheiros. Ao sinal dado, num - vá! - despenharam-se, em clamor de tempestade. A lança em riste, inclinados sobre o pescoço dos cavalos, as faces convulsionadas numa ânsia de vertigem, eram uma crespa onda humana a rolar pela encosta. Em baixo a fuzilaria crepitou com descargas rolantes.

Severo foi dos primeiros a cair, e ficou à meia-encosta, ouvindo o eco pavoroso dos gritos e detonações, nitridos e estrondos num bárbaro reboar.

E morrendo, numa última visão, sintetizou os pagos todos, vendo-os como os vira outrora, há muitos anos: tudo aberto, escampo, e o solar feito baluarte estrondejante de descargas em meio à campanha em guerra...

E o duro lutador ainda murmurou: "- Agora sim ...". Agora sim, os seus pagos tinham revivido.

E pendeu a cabeça, os olhos já vidrados, consolado em morrer pela vida que voltava.

(No Galpão, 1925)

Darcy Azambuja

O aparecimento de No Galpão, em 1925, traduz o esforço pela atualização do regionalismo que se fez sentir após a publicação dos Contos Gauchescos, sob a poderosa influência de Simões de Lopes Neto. A ficção permaneceu fiel aos temas que já eram patrimônio comum e, bem assim, manteve em grande parte o mito duma "idade áurea" do guasca. No entanto os novos tempos já não deixavam oportunidade para o sentimentalismo, nem para os arroubos retóricos dos últimos parnasianos.

Uma saudável tendência realista percorre a literatura sul-riograndense ao avançar o século XX, imprimindo maior naturalidade ao relato dos narradores que, no rastro do escritor pelotense, procuram estabelecer os fundamentos da criação fictícia na pesquisa folclórica, no levantamento lingüístico e na verossimilhança dos caracteres. A expressão regionalista deveria encontrar o seu ponto ótimo ao vincular o documento e a invenção, seguindo aliás uma inclinação geral da literatura brasileira moderna.

O mundo de Darcy Azambuja ilustra significativamente este processo de aquisição do realismo contemporâneo na transcrição do regional. Sua obra volta-se quase toda em direção ao passado da província e ainda privilegia a reconquista de um "tempo antigo". Mas nem por isso ignora o presente e está isenta de saudosismo reacionário.

Ao contrário, a recuperação da História, que restaura o velho código de honra na palavra dos seus sobreviventes, visa precisamente à atualização da memória coletiva, preservando-a.

Os contos de No Galpão e aqueles que aparecem mais tarde em Coxilhas (1957) refletem essa tentativa de equilíbrio entre um estilo moderno e a temática regionalista tradicional.