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Carniça

Texto de Vargas Neto

'Stá vendo aquele lugar,
Onde o capim raleia?
Ali perto, onde aquele
cusco está deitado?
É bem ali que se carneia.
Gosto do dia de carniça
por causa da alegria da fartura...
Há tanto fervido, tanto assado!...
Mas de tarde sempre fico triste,
porque o gado parece até que reza missa,
e fica a soluçar,
cavando terra,
onde o companheiro foi sangrado.
Depois vão se esparramando,
no passito, berrando,
num gemido muito feio...
Até parece um adeus de despedida...
É o "terço" da saudade do rodeio...
Não mal comparando
o sol entrando é assim...
Como um boi sangrando bem no sangrador!
E o céu fica ensangüentado
como uma compa de carmim
no tempo que dá flor.
O sol é um boi baio mui graxudo.
Não há na invernada um outro que se parde!
A sombra dá um tiro de laço macanudo.
A noite se aproxima
e sangra o sol com a faca da tarde...
Ele parece que caiu no chão!...
Derrama uma sangueira de tristeza
pelo silêncio do rincão...
Depois
- não sei se você reparou...
as estrelas vêm chegando no tranquito,
como um rodeio branco mui bonito,
que vem berrar,
que vem rezar,
pelo rasto do sol que se sangrou...

(Tropilha Ciroula, 1925)

Vargas Neto

Na concepção literária de Vargas Neto o rodeio se dá na "fazenda da vida". Esta imagem serve como exemplo paradigmático dos poemas publicados em Tropilha Gaúcha (1925) e Gado Xucro (1928); serve, ainda mais, para ilustrar sua aguda intuição. Há uma base sólida que parece residir no próprio chão da campanha onde nada escapa à observação e ao registro objetivo.

O leitor interessado na arqueologia da sociedade rural encontrará farto material de investigação e um dos painéis mais exatos já produzidos pela literatura gaúcha. E, apesar disto, o ponto de chegada está bem distante daí: é a sequência verdadeiramente prodigiosa de referências simbólicas que Vargas Neto logra instaurar no desenvolvimento da sua expressão telúrica.

Assim, ele anuncia uma vertente moderna do regionalismo que, depois de 1920, passou por extensas modificações, uma vez esgotados os modelos tradicionais. Embora ainda seja possível reconhecer, no texto, a intensa preocupação descritiva, seus recursos poéticos buscam ampliar psicologicamente o cenário dos pagos. Os traços característicos da paisagem são evidenciados porque valem como um "sinal" da universalidade.

Tal é, invariavelmente, o sentido do processo metafórico empregado por Vargas Neto - pandilha de saudades, égua madrinha da tristeza, o rasto do sol que se sangrou... A transposição dos significados nos sugere o ingresso num território metafísico, abrindo horizontes mais largos do que faria supor inicialmente a atitude descritiva.

Eis a qualidade surpreendente da sua poesia regionalista: foi urdida na matéria bruta da vida campeira; talvez por isso tão autêntica, extraindo daí a força de comunicação.