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O Tropeiro Destemido

Texto de Amaro Juvenal

Nessas estradas peladas,
às vezes, o dia inteiro,
Em marcha, o pobre tropeiro
Não sabe o que há para fazer;
Nem água para beber
Mesmo a custa de dinheiro.

Mais valia andar sem poncho
E tropear durante o inverno
Que meter-se nesse inferno
De cercas que não têm fim.
Mas, que seja tudo ansim...
Que bem l´importa ao governo?

O tropeiro que se amole,
Ou mude de profissão!
Que o governo tem função
Mais nobre a desempenhar;
Gente pra qualificar
E os preparos da eleição.

A noite tornou-se escura,
Nenhuma estrela no céu;
De repente um escarcéu
Brotou ali num costado:
Era um matungo enredado
Nas rodilhas de um sóveu.

E, num vá, deu-se o estouro...
Que parecia taquara
Estralando na coivara
Num fogo que o vento ateia.
Amigos, é coisa feia
Quando uma tropa dispara!

Era só aspa batendo
No meio da escuridão,
Tropel das patas no chão,
Os gritos de - volta! volta!
Como um raio que se solta
do ribombo de um trovão.

Nas trevas da negra noite
O gaúcho destemido
Corre, seguindo o ruído,
Sem medo ou temor da morte;
E vai, sem rumo e sem norte,
Guiado só pelo ouvido.

Não tem que esperar socorro
Naquele imenso perigo;
No cavalo tem o amigo
Em quem se pode fiar
E, no mais, é atropelar,
Contando apenas consigo.

Dês que a tropa dá o estouro
Não tem que fazer mais conta,
É ter decisão pronta,
Bater na marca sem susto,
Até que, com muito custo,
Consiga chegar à ponta.

Nisto é que está o busílis,
Que não depende de ensino;
Saber tomar um destino
E não se apertar no apuro,
Poder guiar-se no escuro
E nunca perder o tino.

(Antonio Chimango, 1915)

Amaro Juvenal

O Antonio Chimango foi escrito pelo tributo Ramiro Barcelos que assinou o pseudônimo Amaro Juvenal. É uma dimensão nova do regionalismo gaúcho, pois acrescenta-lhe a sátira política; e, no quadro da literatura brasileira, veio a dar um dos mais felizes exemplos deste genêro.

Trata-se de uma visão fiel do Rio Grande de 1910/20, mergulhado no autoritarismo despótico das lideranças geradas no primeiro período republicano, que logo adiante seria contestado mediante a rebelião armada. Homem combativo que tivera seus interesses sufocados nas intrigas partidárias, o escritor investe contra os donos do poder fazendo-os protagonistas duma caricatura mordaz; o espaço político da província não passa de uma estância qualquer, outrora próspera, desmantelada pela tirania e pela incompetência do chimango.

Por ousada que fosse a crítica de Amaro Juvenal, não se deveu apenas a ela a notável repercussão do poema, garantindo as sucessivas edições que a mantiveram na preferência popular até hoje.

A permanência resultou, sobretudo, da originalidade de sua composição, pois Amaro Juvenal teve a feliz idéia de intercalar a sátira propriamente dita nas rondas dos tropeiros.

E os comentadores têm apontado nesta fórmula um raro caso de congeminação poética ou criação dupla, sem quebra da unidade essencial. Ora, é este segundo aspecto - a denúncia da miséria campeira, seus trabalhos e sacrifícios - que atribui o legítimo sentido regional e literário ao texto, ultrapassando o simples painel epocal.

Ao longo do tempo, o Antonio Chimango revelou que sua força estava menos na crítica aos poderosos e muito mais na fervorosa elegia ao tropeiro anônimo, o peão humilde das estâncias.