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Juca Guerra

Texto de Simões Lopes Neto

(...) Um moço chamado Tandão Lopes laçou.. e laçou mal, de meia espalda: o touro bufou, e depois do tirão já se lhe veio em cima.

O moço estava mui bem montado; o pingo era de patas porém apenas racim, mui casquilhoso; os arreios já vinham mal e com o tirão a cincha correu pras virilhas...

Virge´ mãe!

O bagual agachou-se a velhaquear e, para piorar ainda, em volta, enredando-se no laço, frouxo; o moço - ginetaço! - fechou as chilenas e meneou o rebenque, de chapéu do lado, numa pabulagem temerária, de guasca que só a Deus respeita!

Foi nesse apuro, que o touro carregou, e veio, de língua de fora, berrando surdo... e entreparado, baixou a cabeça, retesando o cogote largo e ia a levantar a guampa, quando, meio maneado no laço e ladeado por um sofrenaço de pulso, o bagual planchou-se... e o moço Tandão ficou também aí caído, preso pela perna, exposto, entregue...

O touro recuou um pouco, escarvou, meio dançando, retesou os lagartos, numa fúria de força e fez a menção... A campeirada olhava, parada, vendo a desgraça vir...

Mas nisto, justo, justo quando o touro, balanceando no ar, pareceu dar o pulo da carga, o Juca Guerra esteve-lhe em cima! Em cima!

Foi como o trovão e logo o raio..., pois como um raio o gaúcho carregou a atirou a montaria contra o touro! Oigalé! Pechada macota!

O tostado arrebentou as duas paletas na encontrada e caiu, sacudindo a cola, os olhos chispeando, de beiço enrugado e subido, de dor... Caiu, mas o touro também.

E tanto que atirou o seu pingaço, de pechada feia - e certo de o escangalhar - contra o touro, escorregou pela garupa, e enquanto os dois brutos se batiam e enovelavam, o Juca já aliviava o companheiro, que apenas livre, pulou para o cupinido, ainda meio azonzado do trompaço, manteou-lhe nas aspas e torceu-lhe a cabeça, que cravou no chão, num pronto! O bicho pataleava, puxando a respiração forte, que ondulava o arredondado da barriga. Aqueles, sim, eram dois torenas que se valiam!

Só então que os vedores acudiram... mas foi para aguentarem uma tirana de sotretas! comedores de carne! maulas! vasilhas! capões!... e outros rebencaços de língua, desses que a gente esparrama quando está de marca quente...

E no meio daquele bolo de campeiros, sobre as macegas pisadas, ao lado do outro arquejando e do cavalo gemente, os dois homens se abraçaram e beijaram-se, chamando-se irmãos; e assim juntos chegaram para o cavalo tostado, quebrado pelos encontros... fieram-lhe umas festas de puro mimo e tristeza... e enquanto o Juca, com sua própria mão sangrava o seu confiança, o moõ abraçava a cabeça inteligente do flete... Correu o sangue, em borbotão; e quando, esvaído, o tostado afrouxou a força a s respiração e o garbo, e foi descaindo e ia a tombar, de vez, os dois amigos, lado a lado, ampararam-lhe a cabeça... e devagarzinho, como se fosse uma criança dormilona, deitaram-na grandemente sobre os capins, - pro raso - sobre um pé de malmequer branco, ramalhudo, que florejava ali, como num propósito. Coitado do flete.

Mas como deixá-lo viver assim arrebentado? para vê-lo morrer de dores, inchado, com fome e com sede... e antes disso serem-lhe os olhos vazados pelos urubus... e os buracos deles, ainda vivos, virarem toca das varejas?!... Não!

Um gaúcho de alma não abandona assim a seu cavalo; antes mata-o, como amigo, que não emporcalha o seu amigo!

Vancê assuntou bem no conto?

(Contos Gauchescos, 1912)

Simões Lopes Neto

Simões Lopes Neto é o maior dentre todos os regionalistas até os dias atuais. Sua obra constitui, simultaneamente, a síntese do acervo anterior e uma criação original, funcionando como verdadeiro divisor de águas.

Blau Nunes, velho peão e guerreiro, protagonista dos Contos Gauchescos, é mais uma vez o vaqueano que conduz o viajante através dos pagos. Trata-se aqui do portador de um conjunto de valores que expressa a imagem do gaúcho gerada pela tradição coletiva - a grandeza, a hospitalidade, a amizade, a confiança, a audácia e a perspicácia.

Ocorre que a jornada não estabelece um itinerário geográfico em busca das paragens típicas; também é um percurso existencial, pois o tapejara narra os casos de que participou, traçando a própria autobiografia. Mas esta coinncide, ainda, com um período crucial da história do Rio Grande do Sul e a sucessão episódica oferece um panorama ao leitor: as lutas de fronteira, o desenvolvimento do contrabando, a Revolução Farroupilha, a Guerra do Paraguai, finalmente a transformação dos campos abertos em propriedades dos estancieiros-soldados que tudo mandam e tudo podem.

O discurso simoniano ultrapassa portanto o mero localismo pitoresco e, na sua abrangência, engloba a tradução de um código ético, o testemunho histórico, a revelação psicológica. No fundo de tudo isto reside o substrato folclórico, a utilização literária da fala dialetal, sempre confrontando o homem e a natureza, infundindo uma qualidade simbólica ao mundo imaginário.

No resultado final encontramos um desses raros momentos em que o regionalismo brasileiro se desprende do simples documentário para beirar o território do mito.