Você está aqui

A Estância

texto de Alcides Maya

Dominando as planícies, do seu topo verde sobre coxilhas, entre árvores centenárias, a residência do coronel se impunha duramente ao rancherio contíguo a fachada heróica, de um rude heroísmo primitivo. Era uma construção antiga, maciça, com pequenas janelas quadradas, de parapeito, portas augustas, baixas, muito afastadas umas de outras, e beiral, de telhas soltas terrulentas, partido, aqui e ali, dos temporais. Flanqueavam-na grandes mangueiras de pedra, com altos palanques internos, de coronilha; e dois alambrados, de léguas, aguçavam parelhos, um ao norte, outro ao sul, os seus moirões mestres de guajuvira, calmados a espaços de ninhos.

Denominara-se outrora, em tempos de rebeldia e de invasão, a "Casa Grande"; fora um estabelecimento glorioso, opulento, quase feudal. Ligada à sorte do Continente de São Pedro durante as pendências lusitanas com o Vice-Reinado espanhol, quartel-general dos "Farrapos" mais tarde, decaíra aos poucos do esplendor de antanho e, de herança em herança, de mutilação em mutilação, de compra em compra, tornara-se propriedade de Paulino Gomes, comandante da guarda nacional, chefe político do distrito e último representante de poderosa família das cercanias.

Desabitada largos anos, por causa de uma demanda, e entregue aos cuidados de posteiros rudes, adquira-a o coronel pela excelência das terras. A habitação, primitivamente de açotéia, com uma estacada ao fundo, sofreu amputações de panos inteiros de paredes arruinadas, ficou circunscrita a um dos lanços dos edifício, teve o estuque substituído por um forro de cedro, recebeu cobertura de telha e novo travejamento. Reabriram-se passos; rasgaram-se veredas internas, empreenderam-se à noite volteadas, para apanhar as reses alçadas, com dezenas de mangueadores e numerosos sinuelos. O arvoredo, bem tratado, liberto de guazumas e parasitas, reviçou, floriu, e o cercado alegrava os arredores , destacando sobr eum fundo de ramagens, musicadas a ventos e gorgeios, os seus talhões de as suas lavouras, onde o empedoar dos milhos alternava, quente e fulvo, como o verde gaio tenro das alfafas e com o louro altivo ondeante dos trigais.

Mas a instalação não tirara à fábrica afortalezada o seu ar sombrio: chamavam-na agora a Estância Nova e o nome não condizia com o tom senhorial soturno do frontispício, relembrando episódios de combate, façanhas cavalheirescas de 35, legendas sangrentas da Reconquista. Envolvia-a o prestígio das tradições; convergiam para seus muros as belezas selváticas do meio, e velha, mas segura de si, alcandorada e sólida, ainda parecia destinada, como dantes, à vigilância das fronteiras imensas, escancaradas lá-baixo, sobre longes de pampa....

Restingas engrossavam desse lado, ramificando-se pelas chãs, avolumadas de árvores e de águas até ao Esqueador e de lá, nos pontos grumpados ou nas reentrâncias de mato, avistava-se a frontaria da estância, cuja história Chico Santos referira ao neto, aos fragmentos.

(Ruínas Vivas, 1910)

Alcides Maya

Alcides Maya representa o caso-limite do regionalismo tradicional que forjou o mito do "herói gaúcho". Coube-lhe viver, na passagem do século, o momento de profunda transformação em que se deu a industrialização do pampa, assinalando a crise do patriciado rural até então soberano e absoluto.

Desencantado diante da realidade em transição, tudo o que escreveu está impregnado de um intenso pessimismo e se orienta para a rememoração do passado, buscando reconstruí-lo na dimensão imaginária da ficção. Daí, inclusive, o título de seus livros: Ruínas Vivas (1910), Tapera (1911) e Alma Bárbara (1922).

Maya ainda alimenta em sua época a utopia de uma "raça gaúcha", conduzida por "seletos personagens de bravura", enquadrando-a em meios aos exércitos, trincheiras, clarins e estandartes, num cenário quase medieval. Isto explica parte dos temas românticos - a nostalgia da vida primitiva, a intuição do presente problemático, a valorização do tempo translato, a solidão irremediável das personagens. Em auxílio desta ideologia concorre ainda o estilo parnasiano da sua prosa, irrigada por uma tendência oratória onde a frase é preciosista e altissonante, intumescida pelo acúmulo de adjetivos e vocábulos raros.

Nem por isso deixou de ser um observador honesto de sua gente. É certo que sua obra está inteiramente referida ao mundo bélico e cavalheiresco; mas este mundo só está aí enquanto evocação e contraste, um passado recuperável apenas na recordação, deitando luz sobre a miséria do presente. E o saudosismo de Alcides Maya possuía também um fundamento social, pois refletia a posição duma parcela considerável da elite sul-riograndense nesses dias. Foi isto, aliás, que lhe garantiu o sucesso público e o lugar de verdadeiro líder da sua geração intelectual.