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O Gado Alçado

texto de Laf - Luís Araújo FIlho

A última vez que estive aqui foi quando se fizeram duas grandes corridas de baguais; há de fazer uns nove anos; já estava tudo decidido. Lá naquele fundo, contra o Jaguari, era a encerra. Veio gente de mais de vinte léguas e juntou-se mais de cem pessoas, - uns como peões e outros de puros aficcionados. Fez-se uma manga de duas léguas de comprimento e outra mais pequena, aproveitando-se um braço do arroio, até a encerra, lá onde lhe disse. Na entrada das mangas havia de ter quase uma légua e ia estreitando pouco a pouco até a encerra. O trabalho durou mais de mês e as volteadas eram de oito em oito dias e às vezes mais.

No princípio, como os animais não estavam ressabiados, as mangas eram de rama de mata-olho, regulando a altura dum homem e fincados perto, perto.

Depois a rampa se tornou vasqueira e se fez de baideirolas; só a encerra é que era de varejões e postes bem fincados e amarrados. Quando se tinham feito umas quatro volteadas, a animalada reconheceu as mangas e já foi debalde... foi preciso cerca e botar gente por fora, para eles não se atirarem. A primeira volteada que ajudei foi das melhores. Mui de madrugada saímos, como cinquenta homens, dos mais bem montados, alguns em pelo, e demos volta sobre as pontas do Quaró - lá por aqueles altos, - e quando rompeu o dia batemos na bagualada, tocando rumo das mangas, primeiramente numa espécie de reponte por longe e depois apertando apertando até quando levantou o dia, toquemos de firme e, daí a pouco, a eguada levantou povadeira e rumor que parecia uma tormenta. Por fora das mangas iam os flanqueadores e todo aquele tropel veio a tiros e a gritos, afunilando, afunilando, até a encerra, que era feita à laia de caramujo, ou como porta de joão-barreiro, de modo que depois de entrar na disparada os anumais agarravam a volta e nunca mais davam com a porteira.

- E agarravam muita eguada?

- Sim, dessa vez ficaram na encerra uns seiscentos a oitocentos animais, a varrer, com muitos que já estavam dos outros dias, porque o que entrava não saía mais.

- Ora, aí era courear e tirar cabelo, até o último, porque o animal bagual nunca se amansa; é sempre sestroso e matreiro, e põe os mansos a perder; é como cachorro chimarrão, que nunca é fiel; vem p´ra casa antes de abrir os olhos e afinal sempre se torna daninho e, quando menos, ovelheiro. O trabalho de coureação e cerdeio era para a peonada, que havia muita, tudo por conta do dono da estância, e a gauchada, depois da corrida, passava jogando e haraganeando pelo comércio, porque aquilo parecia um acampamento; havia seis ou oito carretas de negócio e vários gringos com boliches, que vendiam a troco de graxa os animais mortos, porque isto o estancieiro dava a quem queria, além da carne, sal e erva, que a ninguém faltava, porque ele fornecida tudo só pelo ajutório dos aficcionados.

- Mas não teria sido melhor se aproveitassem de outro modo, por exemplo, mudando de querência, costeando em outros campos...

- Ora compadre, quem é que faz caso de sacos de palha... só dessa vez me consta que mataram cerca de dois mil e não fizeram falta, porque ainda há de sobra.

(Recordações Gaúchas, 1905, Laf - Luís Araújo Filho).

Luis Antônio Araújo

Chamava-se Luís Antônio Araújo mas assinava simplesmente - Laf; e sob este nome publicou as Recordações Gaúchas. Parece que poucos o leram e menor ainda é o número dos que chegaram a citá-lo depois. Seu pequeno livro - afastando-se da tendência literária da época - permaneceu isolado entre as narrativas românticas e a retórica grandiloqüênte dos parnasianos. Ele próprio não alimentou pretensões exageradas e, na dedicatória, oferece singelamente "este folhetim aos meus patrícios campeiros".

No entanto, ofereceu o melhor exemplar da expressão naturalista em toda a literatura gaúcha.

Compõe uma fotografia exata da paisagem, anota objetivamente os fatos hitóricos, registra o linguajar e os hábitos dos tropeiros, transcreve o floclore. É porventura o primeiro a fazê-lo sem intenção prévia de recobrir a realidade com artifícios ornamentais. Justamente por esta razão a sua obra significa um sopro renovador do regionalismo, até então amarrado aos padrões heróicos legados pelos escritores do século XIX.

Aqui o relato adquire as dimensões duma reportagem sincera, tudo detalhando com descrições minuciosas, embora as personagens sejam fictícias, e revela ao leitor um panorama bastante nítido do "meio social tosco mas positivo" , tal como Laf entendia o espaço cultural do pampa.

O mundo regionalista que surge das Recordações Gaúchas foi mantido nos limites da verosimilhança, porque o realismo de Laf recusa qualquer idealização épica puramente imaginária. A vida rude dos campeiros e a observação rigorosa são a sua matéria suficiente.