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O Monarca

Texto de Caldre Fião

-Não vês? Ei-los, ali estão! São quatro... praticam entre si mui afervorados... eles aqui, neste retiro, com os cavalos pela rédea! Quem serão? Que virão aqui fazer? (...)

- Eles estão armados e podem perceber-nos, e então, coitados de nós!... estes malditos gaúchos tem alma danada! Matam gente como eu costumo matar mosquitos lá na loja quando vou me deitar... eles estão acostumados a matar gado... já não lhes faz mossa na consciência (...)

Eram quatro moços vestidos à gaúcha: eles traziam chapéus arredondados de abas largas; trajavam chilipás com franjas; coletes vermelhos com botões amarelos, chales de cachemira velhos amarrados à cintura, excetuando um deles que cingia uma linda e bordada guaiaca; e traziam ainda grandes e pesadas chilenas de prata; estavam armados à riograndense, com espada, duas pistolas, uma faca, uma carabina, e laço e as bolas, que estavam seguras aos tentos dos cavalos; seus aspectos eram guerreiros; em seu todo apresentavam uma lhana franqueza e alegria bem pronunciada. Três deles tinham cabelos ruivos em cabeleiras pendentes sobre os ombos, exceto o que cingia a guaiaca, que tinha cabelos castanhos também da mesma ofrma dispostos (...)

Pacávio ergueu-se do chão onde estava, e recitou cheio de entusiasmo:

Nestes pagos sou muito conhecido
Por monarcas de grande opinião.
Tenho fama por todo este rincão
E por Deos, que sou quebra destimido.

E se houver algum mais presumido
Que apareça este grande quebralhão
Que ei de pisotear-lhe no garrão
E a rebenque levar esse atrevido.

Sou monarca e meio abarbarado
Se me pisam no ponche já me esquento
E saco o meu facão enferrujado.

E por Deos, que daqui me não ausento
Sem deixar um diabo codilhado
E também já me corto que nem tento.

(O Corsário, 1849)

Caldre e Fião é o patriarca da literatura gaúcha e um dos fundadores do romance brasileiro. Consta que já em 1848 teria publicado uma "novela riograndense", intitulada A Divina Pastora, mas não se conhece nenhum exemplar deste livro até hoje. O verdadeiro ingresso do gaúcho na ficção brasileira ficará registrado por sua obra posterior, O Corsário, e ocorre no trecho que aqui se transcreve. Pela primeira vez a literatura erudita traça o perfil do tipo regional, incorporando também o vocabulário local e os termos dialetais na descrição de usos e costumes.

O Rio Grande do Sul de Caldre e Fião não é ainda o espaço dos campos indivisos em que se dá o pastoreio; seu cenário preferencial está localizado na longa e arenosa praia entre a embocadura do Araranguá e a do Rio Grande, habitada por pescadores, náufragos e piratas.

Aí se desenrola o drama passional entre Maria (a donzela pura) e Vanzini (protótipo da vilania), temperado por forte dose de sentimentalismo ao gosto da época e visando a uma finalidade moralista - o triunfo dos bons e dos juntos sobre a ambição e a violência.

Não se poderá dizer que Caldre e Fião tenha sido propriamente um "regionalista" pois, como se vê, seus temas e ambições eram mais amplos. Entretanto, o quadro histórico da ação é a Revolução Farroupilha (da qual ele foi contemporâneo), trazendo à cena seus principais chefes e vultos políticos. Além disso, quando procurou fixar o tipo humano, incluiu no texto o célebre "soneto monarca", sem sombra de dúvida a matriz de todos os que abordaram o assunto daí em diante.

O gaúcho - mitificado como monarca das coxilhas - já pertencia à tradição popular no tempo de Caldre Fião. Através de seu romance adquiriu foros de cidadania na literatura nacional.