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Glauco Rodrigues



Fonte
Gentileza de Elizabeth Kasper.

Nasceu em Bagé em 1929. É pintor, desenhista e gravador. Pinta desde 1945.

Expôs pela primeira vez em 1948, na mostra OS NOVOS DE BAGÉ, em Porto Alegre, onde já frequentava a Escola de Belas Artes. Transfere-se para o Rio de Janeiro logo em seguida, onde estuda na Escola Nacional de Belas Artes e desenvolve sua carreira artística. Em 1950, juntamente com Carlos Scliar, Glênio Bianchetti, Danúbio Gonçalves e Vasco Prado, cria o Clube da Gravura de Porto Alegre e o de Bagé.

Em 1960, participando do IX Salão Nacional de Arte Moderna, obtém prêmio de viagem ao exterior. Participou da Bienal de Paris em 1961, no ano seguinte viaja para Roma onde permanece até1965. Realizou exposições individuais na Alemanha (München, Stuttgard e Frankfurt). Em Roma, em 1963, expõe na Galeria d'Arte della Casa do Brasil. Em 1964, participa da XXXII Bienal de Veneza. Em 1967 recebe prêmio na IX Bienal Internacional de São Paulo.

A partir de 1969 faz várias exposiçoes individuais no Rio, São Paulo, Brasilia e em 1975, expôs, juntamente com Danúbio Gonçalves, Carlos Scliar e Glênio Bianchetti, no Salão de Atos da UFRGS, sob o título de Tradições Gaúchas.

Em 1980, pinta o quadro A Primeira Missa no Brasil, quadro oferecido pelo governo brasileiro ao Papa João Paulo II.

Em 1985, realiza aquarelas de paisagens gaúchas para a abertura e vinhetas da minissérie O TEMPO E O VENTO, de Érico Veríssimo, para a TV Globo e que se encontram no MARGS em Porto Alegre.

Referência bibliográfica: DICIONÁRIO DE ARTES PLÁSTICAS NO RIO GRANDE DO SUL, de Renato Rosa & Decio Presser (Editora da Universidade)

Imagens

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extraído do jornal Zero Hora - edição de 20/03/2004


Glauco Rodrigues (1929 - 2004)
Consagrado artista plástico gaúcho morreu ontem, no Rio de Janeiro, aos 75 anos
CAMILA SACCOMORI

Morreu ontem à tarde o pintor, ilustrador, desenhista e gravador gaúcho Glauco Rodrigues. O artista, que havia completado 75 anos no último dia 5, sofria de câncer e estava desde quarta internado no Hospital Samaritano, do Rio. O corpo do artista será enterrado no Cemitério São João Batista, na capital fluminense.

Nascido em Bagé, começou a pintar, como autodidata, em 1945. Seu primeiro quadro se chamou Moinho ao Pôr-do-Sol. A família queria vê-lo como engenheiro ou funcionário do Banco do Brasil, mas Glauco já havia escolhido a pintura. Três anos depois, já participava da exposição Os Novos de Bagé, em Porto Alegre. No Rio, em 1949, cursou por três meses a Escola Nacional de Belas Artes e estreou no Salão Nacional de Belas Artes, obtendo menção honrosa.

O início da década de 50 marcou também a fundação do Clube de Gravura de Bagé, com Glênio Bianchetti, Danúbio Gonçalves e, posteriormente, Carlos Scliar. À época jovens esquerdistas que acreditavam no poder transformador da arte, o quarteto tinha influências do realismo soviético, com gravuras de inspiração social, retratando trabalhadores braçais. As gravuras eram vendidas num sistema de consórcio a preços baixos, para atingir maior número de pessoas.


Foto(s): Banco de Dados/ZH

Ao mudar-se para a capital gaúcha, Glauco juntou-se ao Clube de Gravura de Porto Alegre, com Vasco Prado, Danúbio e Scliar. Os clubes foram pioneiros e inspiraram vários outros, inclusive o clube de gravura de Montevidéu.

Em 1958, mudou-se para o Rio de Janeiro. A primeira exposição individual do artista ocorreu em 1961. Os três anos em que viveu em Roma, de 1962 a 1965, foram determinantes. Antes de viajar, seus temas eram paisagens, pessoas e costumes do interior do Estado, pintados sempre com tinta a óleo - única disponível no Brasil. Em Roma, passou a usar o acrílico e viveu uma breve fase abstrata. Readotou o figurativo ao retornar ao Rio, em 1965.

Glauco não ficou restrito aos suportes convencionais. Eram dele os dois painéis em preto-e-branco pintados nas paredes laterais do mais tradicional cinema de Porto Alegre na década de 50, o Cacique. Pintadas em 1955, as figuras de dois índios, um a pé e outro a cavalo, perderam-se no incêncio do cinema há oito anos. Glauco também fez capas de discos para João Bosco e Jorge Mautner, criou ilustrações para as extrações da Loteria Federal, pintou aquarelas de paisagens gaúchas para vinhetas da minissérie global O Tempo e o Vento e foi o autor do quadro Primeira Missa no Brasil, oferecido pelo governo brasileiro ao papa João Paulo II em 1980.

Casou-se com Norma, aos 23 anos. Enviuvou e conheceu outra Norma, com quem viveu no Rio até os últimos dias.


extraído do jornal Zero Hora - edição de 22/03/2004

Glauco Rodrigues (1929 - 2004)
Corpo do pintor e gravador gaúcho foi enterrado na tarde
de sábado, no Cemitério São João Batista, no Rio

EDUARDO VERAS

Glauco Rodrigues - morto na última sexta-feira, aos 75 anos - era um artista empenhado em traduzir o Brasil. Estava internado desde quinta no Hospital Samaritano, em Botafogo, no Rio. Sofria de câncer no intestino. Morreu de insuficiência respiratória.

O corpo foi enterrado nos primeiros minutos da tarde de sábado, no Cemitério São João Batista, também em Botafogo. Cerca de 60 pessoas acompanharam a cerimônia. Entre elas, amigos próximos, como o escritor e jornalista Luis Fernando Verissimo, a atriz Tônia Carrero e a artista plástica Anna Letycia.

O poeta e crítico de arte Ferreira Gullar esteve no enterro e, depois, por telefone, procurou sintetizar a importância do artista:

- Glauco era um dos melhores de sua geração. Além de desenhista excepcional, tinha o sentido da cor. Uma cor muito pessoal, até mesmo instigante. A primeira impressão diante de um trabalho dele era sempre de choque, uma harmonia dissonante.

Gaúcho de Bagé, Glauco vivia no Rio há mais de meio século. Era um artista empenhado em traduzir o Brasil - e a essência de ser brasileiro. Tanto na fase inicial, marcadamente expressionista, desenvolvida no âmbito da militância comunista, quanto na pintura de viés tropicalista, tributária da Pop Art, buscava imagens que refletissem a aventura de viver no trópico.

- Pinto o Brasil. Pinto o futuro - ele próprio declarou, em 1999, ao ser agraciado com o prêmio de artista do ano, concedido pelo Ministério da Cultura.

Glauco começou a pintar aos 16 anos, ainda em Bagé. A família queria vê-lo engenheiro ou funcionário do Banco do Brasil. O rapaz teimou, mas não teve formação diferente da maioria dos artistas de seu tempo: foi autodidata, com as desvantagens decorrentes.

- Fiquei num beco sem saída - contaria mais tarde. - Influenciado demasiadamente pela Escola de Paris e, principalmente, por Picasso.

Três gravuras dos anos 50 estão em exibição no Santander Cultural

O salto viria com a fundação dos clubes de gravura de Bagé e Porto Alegre, nos quais ele e outros jovens idealistas de então - Carlos Scliar, Danúbio Gonçalves e Glênio Bianchetti, todos alinhados politicamente à esquerda - fizeram xilogravura de matriz expressionista e temática social (uma amostra dessa produção pode ser conferida na exposição Impressões, em cartaz no Santander Cultural, em Porto Alegre).

Viveu em Roma, fixou-se no Rio. Ao lado de Scliar, foi ilustrador, diagramador e, por fim, diretor de arte da revista Senhor. Fez capas para elepês de João Bosco e Jorge Mautner, integrou o Movimento Nova Objetividade, participou de duas Bienais de São Paulo e da Bienal de Veneza. O Brasil pós-64, ele retratou com refinada ironia, assim descrita pela crítica Angélica de Moraes há exatos 20 anos nas páginas de ZH:

- Poucos, muito poucos artistas plásticos conseguem unir com eficiência a intenção estética com a intenção política. Discurso e obra não precisariam andar juntos para validar uma carreira, mas é terapêutico que exista no Brasil um pintor como Glauco Rodrigues.

Depois disso, ele ainda fez aquarelas para ilustrar O Tempo e o Vento, quando a trilogia de Erico Verissimo virou minissérie na Rede Globo, montou grandes painéis de mosaico e radicalizou no gosto pelas cores acachapantes: com tinta acrílica muito diluída, compunha paisagens de céus vermelhos e montanhas azuis.

No ateliê de Copacabana, ao lado da mulher, Norma, mantinha rígida rotina, conforme descreveu ele mesmo em entrevista a ZH:

- Tenho horário comercial. Trabalho das 9h às 13h. Paro para almoçar. Volto às 14h30min e trabalho até 19h. Sábado e domingo, finalmente, eu dedico ao lazer: continuo pintando.


extraído do jornal do MARGS - edição de Abril / 2004 - nro 98
Publicação do Museu de Arte Moderna do RGS

A exemplar obra de Glauco Rodrigues

Danúbio Gonçalves - Artista-plástico

Glauco Rodrigues, que faleceu em em março do ano passado aos 74 anos, deixou seu nome marcado na história da arte sulina pela sua participação nos clubes de gravura dos anos 50. Radicado no Rio de janeiro, sua carreira ganhou projeção internacional. Participou da Bienal de Paris de 1961, da XXXII Bienal de Veneza (1964) e recebeu o Prêmio Aquisiçáo na IX Bienal Internacional de Sao Paulo em 1967. Entre suas séries estão Cenas de Praia, Terra Brasilis, Carta de Pero Vaz de Caminha, Tradições Gaúchas, Lenda do Coati-Puru e Rio de Janeiro.

Danúbio Gonçalves, seu companheiro de clube de gravura, fala da brasilidade de sua obra e do eterno vínculo do amigo com o pampa.

Mesmo distante geograficamente, Glauco sempre manteve vínculos com a terra natal. Por coincidência, residiu no Rio de janeiro, cujo padroeiro São Sebastião é o mesmo de Bagé. Em órbita do sincretismo político-religioso por meio de sua arte. Doou uma pintura de Cristo crucificado para a catedral de São Sebastião (Bagé). É preciso ressaltar a importância da sua brasilidade praiana carioca, a antropofagia tropicalista, tudo englobada em exuberância histórica simbólica que povoa nosso imenso e eclético país. Em certas situações metafóricas, o convívio entre dernônios e anjos, lado a lado, no elenco de sua iconografia popular, um espaço compartilhado também por ricos e pobres em rítmico comparecimento ótico.

Glauco utilizou amplo recurso da imagem fotográfica, mas inteligentemente manipulada pelo excelente desenhista. Livre da ameaça estereotipada, reintegrando-a no colorido e na imagem. Onde o anedótico convive, sem preconceito, com o fato pictórico. Completa-se em retrato satírico de uma realidade histórica resgatada, tropical, carioca e brasileira.


Quem conviveu com o pintor bageense participou de sua humorada acuidade satírica, sempre espontânea em seu diálogo de apreciação inusitada dos fatos. Qual um David Hockeney, exímio desenhista e pintor inglês, que serve-se da imagem fotográfica em continência a seu talento inventivo. Exemplo que deveria ser assimilado e adotado pelos "apropriadores atuais da imagéticu". Porém, falta-lhes o domínio prático do desenho e, por tal deficiência prática acomodada, resta-lhes catar o objet trouvé e conceituá-los.

Esta disciplina artística do estudo da forma, tão enfatizada por Cézanne e Matisse, foi pertinente ao Grupo de Bagé. Glauco, Glênio Bianchetti, Carlos Scliar e eu nunca desenhávamos modelos gessados... A integração emotiva com a observação direta da natureza permitiu interpretação pessoal ao grupo.

- Não é a partir da natureza que eu rrabalho, mas diante da natureza e com ela, afirmou Pablo Picasso.

Da estância nas Palmas (Bagé), dos irmãos anfitriões e amigos da arte, Ismael e Severino Collares, surgiram gravuras ambientais editadas pelos clubes de gravura do RS. O convívio, em ponto de vista congênere, no ateliê da rua Sete de Setembro e na sede da Sociedade Espanhola Bageense, foi um apoio estimulante aos artistas do Grupo. Ressonância para uma arte regional-universal oponente a uma linguagem metafísica. Os clubes, pioneiros da gravura em Porto Alegre e Bagé, foram seguidos no Brasil de sul a norte e no estrangeiro. Comparecemos com grande exposição gráfica no I Congresso de Intelectuais realizado em Goiânia (1954), onde tivemos histórica e memorável presença de Jorge Amado, Pablo Neruda, Lupicínio Rodrigues, Dr. César Ávila, Lila Ripoll, Carlos Scliar, Laci Ozório, Glauco Rodrigtres, Danúbio, Abelardo da Hora, Heitor Saldanha, Lirna Barreto, Edson Nequette e tantos outros representantes da cultura não alienada.

Na época crescia o interesse pela temática regional, em especial na França e na Itália. Ao contrário do que ingenuamente pensam sobre os nossos clubes de gravura, não existia o radicalismo partidário, havia diferença de opiniões ideológicas, mas uma direção comum de objetivos artísticos. Tal temática social, provinda da má condição econômica de países emergentes da América Latina desagradava ao poderoso Nelson Rockefeller, de Nova lorque, que pretendia impor a esses países latinos a tendência abstrata (por nada dizer...). Foi a palavra de ordem para as primeiras bienais paulistas. Repudiamos a tal prepotência forjada e astuciosa.

Nessa breve consideração sobre a obra de Glauco Rodrigues, é oportuno encerrar com a palavra do artista em 1989:

- Eu fantasiava personagens e situações. Num dos meus trabalhos criei a lenda do Guarapuru. O povo era representado por índios. O poder militar foi simbolizado por reis de cartas de baralho. Esta série, que fiz em 1977, ficou uma história em quadrinhos. Contei a miséria de um povo. Morriam de fome e comiam terra. Surge, então, um encantamento e voltam depois a comer terra. Falei do milagre brasileiro e os militares não perceberam.