A matéria abaixo foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 07 de julho de 2007.

Textos de Renato Mendonça
Algumas fotos de Emílio Pedroso

Causos apaixonantes

O folclorista Paixão Côrtes recorda quatro episódios antológicos de sua trajetória

Bate o sino

Era 1956, e eu tentava de alguma forma registrar o que era o fandango. Eram danças da época da Revolução Farroupilha, que se faziam sob as ramadas, sobre o chão batido, junto às casas, os bailarinos usando esporas. Imagina: dançar de esporas, hoje, é ofensa social. Aí fiquei sabendo que Lamão Joca, que tinha uns 70 anos, lá no Rincão da Mulada, então município de Bom Jesus, tocava violão de 12 cordas e ainda sabia as danças sapateadas do fandango. Fui até lá, mas Ramão se constrangeu de dançar em casa, A localidade era pequena, de construção só tinha a capela de madeira. Seguimos para lá. Na hora de dançar, Lamão deu uma olhadinha para o oratório e disse:

- Seu Paixão, aqui não dá!

Me desesperei: era uma dança inédita. Sugeri que a gente subisse para o campanário, um espacinho de um metro e meio por meio e meio. E foi lá que Lamão me ensinou as danças, que eu repetia, às vezes batendo sem querer no sino. O difícil era lembrar da coreografia e da melodia quando voltava a Porto Alegre. Eu reunia meus músicos, tapava os dois ouvidos e cantarolava de memória o que tinha ouvido. Fazia uma regressão. Engraçado: quando me pedem para cantar a música nesse ou naquele tom, digo que não consigo. Só consigo cantar no tom em que ouvi pela primeira vez. É assim minha memória.

Corrigindo Baden

Fui gravar meu primeiro elepê em 1962, em um estúdio carioca. Comigo, só levei o acordeonista Neneco, que fazia parte dOs Gaudérios. Eu não saía da minha autenticidade, e o Neneco garantia o sustentáculo. Os arranjos tinham ritmo, contrabaixo, violão e rabeca. Lá no Rio, nem se falava de rabeca - era violino. Para ajudar os músicos de lá a encontrarem o andamento certo eu cantava e dançava, e pedia para eles anotarem os tempos fortes do sapateado. E tinha um violonista bem novinho, bem quieto, que tocava seu instrumento colocando um pé sobre o outro, como na música erudita. Ele era bom no violão, mas não acertava o andamento.

Eu falei:

- Companheiro, não é bem isso.

E o Neneco ficava me gesticulando, tentando me chamar a atenção. Quando fomos almoçar, ele me falou:

- Paixão, tu sabes quem era o tocador de violão que tu estavas corrigindo? É o Baden Powell!!!

Quando voltamos, peguei leve com o Baden Powell:

- Estou encantado com o senhor. Pegar tão rápido coisas inéditas.

E o elepê Folclore do Pampa, juntando gaudério e concertista, foi eleito o melhor disco de folclore daquele ano. Interessante que, no Rio Grande do Sul, não houve repercussão maior. Aquilo era folclore, e aqui se queria gauchada mesmo.

O pezinho

A redescoberta da dança do Pezinho foi em 1950. Eu e Barbosa Lessa estávamos desesperados para recuperar a dança, até que um dia um colega meu de faculdade de Agronomia, Nei Azevedo, disse que na cidade dele, Palmares, a família dele costumava tomar vinho enquanto primos e primas dançavam o Pezinho na praia.

Fomos para lá. No meio da festa, o seu Alípio, pai de Nei, interrompeu a festa e misturou os nossos bailarinos com os dele para ensinar os passos.

Mas nem sempre era tão fácil. Quando a gente chegava a um bolicho, era recebido com desconfiança. Quando começava a assuntar, eles pensavam que estávamos atrás de uma herança, não de folclore. Minha técnica era chegar pilchado no bolicho. Enquadrava o corpo e pedia um martelo de cachaça. Oitavava o corpo e pedia outro. Dava uma bicada e engolia tudo. E bota outro. Dali a pouco, a peonada ia chegando. Às vezes, eu colocava a roupa cidadão (não pilchado) e ia nas rádios das cidades declamar uns versos para ficar conhecido e ganhar confiança do pessoal.

Acho que aí é que está a diferença. Sou da cidade e do campo. Sou artista e também pesquisador. Não sou só um registrador, eu também interpreto.

No túnel

Em 1951, eu e o Barbosa Lessa tínhamos uma idéia fixa: visitar um reduto de negros brasileiros que tinham se radicado na Bolívia depois da Guerra do Paraguai. Descemos de hidroavião em Resistência, no Paraguai, atravessamos o Chaco e fomos até o Pico da Chacaltaia, que é a estação de esquiar mais alta do mundo (mais de 5 mil metros acima do nível do mar). Neve, neve, neve, e nós dois caminhando naquele silêncio.

Um dia, vimos um índio boliviano vindo lá de longe, vestindo um poncho curto e usando sandália, puxando uma lhama e tocando flauta. Eu não sabia se estava no céu ou no inferno. Aquele pontinho preto ia desaparecendo na neve, e a gente ouvindo a quena. Até hoje me arrepio ao lembrar.

Bom, o fato é que o Barbosa feriu os olhos com a claridade da neve e teve de usar uns óculos bem escuros, que não o deixavam enxergar quase nada. Na volta, pegamos um trem, e Barbosa decidiu tirar uma soneca. Só que ele acordou bem na hora em que estávamos passando por um túnel. Gritou assustado:

- Paixão! Tô cego!

Mas logo saímos do túnel e a luz voltou, o Barbosa me agarrou e não perdoou:

- Como é que tu me deixas passar fiasco aqui, a mais de 3 mil metros de altura?