A matéria abaixo foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 07 de julho de 2007.

Textos de Renato Mendonça
Algumas fotos de Emílio Pedroso

Em Mostardas, seu passado o espera

ZH acompanhou Paixão Côrtes na Festa do Divino Espírito Santo, cerimônia que, há quase 40 anos, ele registrou em suas pesquisas - RENATO MENDONÇA

Emílio Pedroso/ZH

Festa do Divino Espírito em Mostardas e Tavares evoca rituais da colonização açoriana

Em 26 de maio, o caderno Cultura esteve por 12 horas ao lado de Paixão Côrtes. No dia anterior, o folclorista de 80 anos estava excitado como uma criança. Passaria o final de semana em Mostardas, como convidado especial da Festa do Divino Espírito Santo. Paixão tinha seus motivos: a viagem representaria uma volta de quase 40 anos em sua vida. Em 1970, de máquina fotográfica e filmadora em punho, foi em Mostardas que ele registrou as chamadas Promessas de Ensaio à Nossa Senhora do Rosário. Uma volta traz sempre junto a pergunta: o que mudou?

Paixão Côrtes certamente não muda. Quando a reportagem alcançou o Galpão Sol Nascente, em Mostardas, no início da tarde, ele era o centro das atenções de todos os interessados. De repente, foguetório: era a fanfarra da Escola Dr. Dinarte Silveira Martins que chegava para escoltar a Bandeira do Divino até o local onde ocorreria a Corrida de Cavalhadas, uma tradição que remonta à Europa do século 8, a título de celebração da vitória dos cristãos sobre os mouros.

Enquanto o cortejo seguia sob o sol e pela rua, rumo a um campo junto à Lagoa de Mostardas, era perceptível como a tradição corre perigo, mas também se afirma. O repertório da fanfarra incluía Over the Rainbow e Twist and Shout, mas mantinha como carro-chefe a canção Bandeira do Divino (composta por Ivan Lins e Vitor Martins em 1978).

Emílio Pedroso/ZH

Os palhaços Espias usam humor para conter o público

Quando o cortejo chegou ao local da batalha, centenas de pessoas estavam ansiosas para ver o desenrolar de uma luta que religiosamente termina com a vitória dos cristãos. Nos extremos de uma área gramada semelhante a um campo de futebol, duas equipes de 12 cavaleiros, uma de azul, cristã, tendo por símbolo a estrela, outra vermelha, moura, com a meia-lua de insígnia. Nos 40 minutos seguintes, as duas tropas se bateriam em lutas a cavalo coreografadas, usando espadas e pistolas, disputando a atenção com os espias, três palhaços a cavalo que servem tanto para demarcar a posição do público quanto para distraí-lo enquanto os cavaleiros se preparam para novas arremetidas. No microfone, soa uma voz conhecida, agora em tom professoral. É o doutor Paixão, que narra as novidades no front mouro-cristão usando sua experiência como radialista entre os anos 50 e 80:

- Essa é uma cerimônia que acontecia bem antes da descoberta do continente de São Pedro do Rio Grande do Sul. Reparem que a disputa é entre o castelo, que fica no Norte, e a cruz, que fica no Sul. É a guerra pela catequese, a salvação pela cruz.

Paixão Côrtes usa o combate para atacar algumas visões de tradicionalismo.

- Nossas tradições não são só laçar e ginetear. Isso também é nossa tradição. Felizes de quem têm uma tradição como a dos senhores da região açoriana.

Emílio Pedroso/ZH

´A ´retirada da argolinha` é uma atividade das Cavalhadas

No final da cerimônia, mouros, cristãos e espias competiram para ver quem conseguia espetar com a lança uma argola de 10 centímetros de diâmetro. O primeiro que conseguiu foi Elizauro Costa Gonçalves, "mouro", agricultor que segue a tradição de seu pai, Elizaldo, que correu por 48 anos a cavalhada. Elizauro estreou este ano, arrematou a argola e a ofertou para - quem? - Paixão.

Depois de a batalha encerrada, Paixão e Elizaldo conversam. Aos 65 anos, o pai de Elizauro argumenta:

- Tradição gaúcha se faz em qualquer lugar, campo ou cidade. Acho que a tradição não vai morrer, vai resistir. Não vamos nos converter à modernidade como os mouros se converteram aos cristãos.

O sol já se punha quando Paixão bateu à casa do agricultor Carlos Alberto Cardoso da Silva. A razão era presenciar a chegada da Folia do Divino, mas também conversar, aprender e conviver. Os cavaleiros, liderados pelo Imperador Festeiro Télcio Cardoso da Porciúncula, chegaram com pouca luz, mas muita fé, ao som compassivo do tambor de Paulo Tadeu Teixeira de Souza, 50 anos. Paixão está atento à religiosidade, mas observa em voz baixa:

- Quando o festeiro chegava numa casa em que sabia que o morador não doaria nada, o tamborileiro fazia um ritmo que sugeria os versos "esse barba de farelo não tem nada para nos dar".

Na casa de Carlos Alberto, ou melhor, no grande aposento que reúne cozinha e sala, na melhor tradição açoriana, tendo à frente leite quente servido com concha, pão, mel, morcilha e queijo (para quem quisesse, havia ainda o conforto da cachacinha de butiá), os assuntos são postos em dia entre um fogão a lenha e um forno de microondas. Se Marina, mulher de Paixão, está doente, receita-se a erva de baleeira, colhida, claro, ali atrás. Luiz Agnelo, folclorista de Tavares, apelidado Gordo, comenta a arquitetura da colonização açoriana, normalmente de casas baixas:

- Era o medo ancestral dos açorianos pelas tormentas. Por isso, construíam casas perto de taquareiras. Para se protegerem, eles também colocavam uma cruz de sal no canto da mesa.

Carlos Alberto, 55 anos, lembra de sua juventude, ocupada por viagens até Viamão e Porto Alegre, cinco dias conduzindo uma carreta com charque e camarão seco:

- E voltávamos com açúcar mascavo e farinha.

Nessas horas, Paixão é quase invisível. Interfere pouco, observa muito, exibindo a técnica que pratica há 60 anos: ouvir, valorizar, registrar.

Antes de ir para o compromisso da noite, Paixão acompanharia ainda a Bandeira do Divino pelas ruas de Mostardas até a Igreja Central da cidade. Tinha ainda um encontro marcado com o passado, no município de Tavares, na localidade de Olhos dÁgua. Desta vez, a reportagem de ZH encontrou Paixão em outro local tradicionalmente valioso para a coleta de informações: o bolicho. Em um bar, que faz as vezes também de salão de sinuca e minimercado, o folclorista estava degustando uma cachacinha de butiá - como não se render às tradições do lugar? - e discutindo com os viventes o que se vendia por ali, o que se plantava por ali.

Emílio Pedroso/ZH

Paixão Côrtes junto aos dançantes da Promessa de Ensaio realizada no Recanto do Gaiteiro, localidade de Olhos D´Água, em Tavares

Aí foi chegar ao Recanto do Gaiteiro, onde se faria o pagamento da Promessa de Ensaio. O local - chão de cimento, paredes de madeira, sem forro - é de um singeleza tocante. Paixão estava absolutamente à vontade. A primeira coisa que fez foi invadir a cozinha e trocar uma palavra com cozinheiras e cozinheiros. Depois seguiu para o pátio, onde uma fogueira aquecia uma grande panela de ferro com sopa. Está muito escuro, mas Paixão aborda o grupo de dançantes que dali a pouco vai assumir a festa.

- E tu? Tá aí? E a goela? Está boa? - é o pesquisador saudando novatos e veteranos - no mínimo dois dos participantes do ensaio eram conhecidos de Paixão desde 1970.

Quando os 18 integrantes da comitiva entraram no salão, divididos em duas filas, cantando e dançando com os braços colados ao corpo, Paixão sentou no pequeno palco do Recanto do Gaiteiro e se transformou em espectador. Mas o tipo do espectador que fala enquanto o espetáculo acontece.

- Ouve só, eles estão cantando em quicumbi (idioma africano). Primeiro cantam os da frente, os de trás respondem depois. Repara, a batida do pandeiro e da caninha (reco-reco) ficou diferente.

Vê que tem gente de bota, tênis, bombacha. Não importa se não é fatiota. Não é fantasia, é a melhor roupa deles. Pode não haver dinheiro, mas há crença.

A cantoria, repetitiva e monótona, de repente é abalada por um homem (com uma camiseta do grupo punk Ramones) que fica provocando aquele que seria o embaixador da comitiva.

- Olha ali. Ele se faz de sonso para tentar atacar o embaixador - diz Paixão. - Igualzinho ao que eu vi aqui há 30 anos.

No final, agressor e comitiva se abraçam e se cumprimentam, e o folclorista comenta:

- O que a Igreja estimula agora, esta tradição já faz há centenas de anos.

Emílio Pedroso/ZH

O chamado Feijão de Galinha é o prato principal da festa

Nesse momento, pela segunda vez no dia, Paixão Côrtes é cumprimentado espontaneamente por alguém: um dos membros da comitiva sai da fila e o abraça. A última demonstração de carinho aparece quando a sopa é servida, primeiro para a comitiva, depois para todos os participantes da festa. Como de costume, quem se achava habilitado fazia o que se chama de "botar saúde", ou seja, entoar uma quadra improvisada de saudação. Paixão Côrtes explica:

- Isso é claramente português.

Mas as homenagens o interrompem. Um dos membros da comitiva canta alto:

- Eu botei a mão no copo / E também no coração / Viva o amigo Gordo / E também o amigo Paixão.

Outro se habilita, safando-se na métrica mas pecando na rima:

- Eu botei a mão no copo / E vou falar devagarinho / Viva o Paixão Côrtes / E todos os convidados.

Paulo Tadeu Teixeira de Souza integra a comitiva agora e já a integrava há 30 anos. Seu pai, Domingos, que era o guia do grupo, morreu em janeiro.

- Não estou no espírito, mas a comitiva não pode parar. Lembro do Paixão indo lá em casa há uns 40 anos para conversar com o pai. Ele sentava com a gente para comer arroz e galinha e conversar. Ele tem muita facilidade de chamar as pessoas.

O dia 26 de maio de Paixão Côrtes termina quase no dia 27. Conduzido pela insistência da mulher, Marina, finalmente decide ir embora, mas percorre todo o Recanto do Gaiteiro para se despedir. Esta noite, ele voltou ao passado, viveu o presente, e certamente garantiu que um pedacinho da tradição vai sobreviver ao futuro. Um gaúcho, com modéstia proporcional aos seus 1m82cm de altura e quase cem quilos, que se define assim:

- Eu sou um escrevinhador, a arte é deles.