Paixão Côrtes

Um peão apaixonado pelo Rio Grande


Paixão Côrtes recebe do presidente Fernando Henrique a medalha da Ordem do Mérito Cultural



RENATO MENDONÇA

Paixão Côrtes diz que vai receber a medalha da Ordem do Mérito Cultural das mãos do presidente Fernando Henrique sem grande frescura. As botas, claro, estarão bem lustradas, mas a guaiaca será a mesma usada em 1954 quando ele serviu de modelo para a Estátua do Laça-dor. Além da bombacha, apenas um luxo:

– Vou trocar o barbicacho de couro pelo de seda. Afinal, é o presidente.

O santanense irá à cerimônia no Palácio do Planalto com uma bagagem de respeito: 72 anos de idade, quatro filhos, quatro netas, mais oito excursões à Europa, mais de 30 livros e sete elepês dedicados à cultura gaúcha e uma vontade irrefreável de recuperar suas raízes. Fundador do CTG 35, líder dos oito rapazes que em 1947 cavalgaram no primeiro piquete nativista e recuperaram a chama crioula para o imaginário rio-grandense, Paixão acha que o principal inimigo das nossas tradições não é a axé music.

— São esses palpiteiros que todo ano definem o que é tradicional ou não é. Isso é fascismo.

Ele exemplifica. Por que a ditadura da milonga e do chamamé se existem outros ritmos como as folias, os ternos de Reis, as cantigas de trabalho, ritmos afro como o candombe, as chimarritas?

— Temos de explorar trilhas para nossa cultura, não limitar com trilhos.

Até os modernismos da tchê music são caminhos admitidos por Paixão.

— Considero modismo, mas se eles tiverem raízes, vão ficar.

Nos anos 50, o povo não queria ser gaúcho, queria ser rio-grandense

Houve tempo que ser gaúcho era marketing negativo. Nos anos 50, quando Barbosa Lessa e Paixão cruzaram Uruguai, Argentina, Paraguai e Peru atrás das tais raízes, o povo queria mesmo ser riograndense.

— E que o gaúcho era o bóia-fria da sua época, vinha atrás do dono da fazenda, do capataz, do peão e do negro. Não havia baile tradicionalista, a sociedade valorizava era o baile caipira.

Paixão festeja a condecoração, já recebida por Paulo Autran, Cacá Diegues e Ariano Suassuna, entre outros, como a celebração de que folclore não é grossura. Há 40 anos, existiam apenas cinco músicas tradicionais catalogadas, só o catarinense Pedro Raimundo reconhecido como cantor gaúcho. Hoje são mais de 1,5 mil entidades ligadas ao Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), piquetes e CTGs na região Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Brasília e Miami.

A maior contribuição de Paixão Côrtes para a cultura gaúcha é o pudor intelectual. Em 1997, depois de 40 anos de procura, ele finalmente conseguiu reconstituir integralmente a dança da jardineira, resistindo à tentação de inventar um ovimento e apressar uma descoberta.

Inventar pra quê? O que ganharia com isso?

Um rebenque em defesa da tradição gaúcha

O tradicionalismo gaúcho tem data de renascimento: foi em 5 de setembro de 1947, quando Paixão Côrtes e mais sete colegas do colégio Júlio de Castilhos percorreram sítios e chácaras da Zona Sul até encontrar cavalos e aviamentos necessários para formar um piquete que escoltasse os restos mortais do herói farroupilha David Canabarro. No final do desfile, que teve seu ponto alto quando os cavaleiros desfilaram pela Rua da Praia, o cordato Paixão perdeu a paciência quando um gaiato, de dentro de um carro, fez uma observação desairosa aos trajes gaúchos. Paixão galopou até alcançar o veículo, lanhando a lataria a golpes de rebenque.

Juntando os cacos da cultura num baile paraguaio

Paixão Côrtes e Barbosa Lessa subiram até o Paraguai, seguindo rastros da cultura gaúcha. Em 1950, eles estavam em uma festa em Assunção quando foram saudados pelo anfitrião coronel Degara e sua linda esposa carioca. Em retribuição, cantaram acompanhados pelo grupo Los Copacabanas, formado de argentinos e uruguaios. Enquanto Paixão balançava uma latinha com milho e arrancava sons de pinstom de uma cuiazinha cortada ao meio, Barbosa marcava o ritmo batendo duas garrafas. No final da noite, Paixão Dançava marchas carnavalescas e sambas com a anfitriã e Barbosa tinha um monte de cacos de garrafa a sua frente.

Acertando o passo com o Patrão lá de cima

Era lá por 1955, numa das expedições de Paixão pelo Interior. Ele ficou sabendo que um tal de Lamão Joca, lá pelos lados de São Francisco de Paula, sabia dançar, sapatear e tocar violão. Paixão marcou encontro com Lamão na única construção do lugar, uma capela, e não se decepcionou. O gaúcho de 70 anos era uma enciclopédia viva, mas disse que não poderia dançar para Paixão:

- Como é que vou sapatear dentro de uma igreja, seu Paixão?

A solução foi os dois subirem para a torre do sino. Lá, com a benção do Patrão velho lá de cima, recuperaram o fandango sapateado.

Origem: Extraído do jornal Zero Hora, Segundo Caderno, de 4 de novembro de 1999.

Reportagem de Renato Mendonça e fotos de Paulo Franken/ZH.

Publicado por Roberto Cohen em 13/04/2007.