A matéria abaixo foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 15 de maio de 2004.

Textos de
Luís Augusto Fischer (Escritor, professor de Letras da UFRGS) e
Eduardo Wolf (Professor de Letras do Colégio Leonardo da Vinci)

"Para nós, não era folclore. A palavra era tradição"

Nesse trecho da entrevista, Paixão Côrtes revê a consolidação e a expansão do movimento tradicionalista, a partir do final dos anos 40

Arquivo pessoal/ZH

O menino João Carlos Paixão Côrtes, ainda no interior, aos cinco anos

Cultura - A polícia queria levar você?
Paixão - Queria. Um deles perguntou: "De onde o senhor é?". Eu respondi. E ele: "Mas é lá dos meus pagos!". E nos encontramos. Aí um dos policiais disse para gente cobrir a faca com o pala para não ficar mal para eles. Nisso passou o jipe com os restos mortais do Canabarro, montamos e fomos atrás. Seguimos em direção ao Centro, até a Praça da Alfândega. Ali, numa solenidade, com escolas, políticos e tal, não hastearam a bandeira do Rio Grande, nem tocaram o nosso hino. Só o hino nacional. Houve uma saudação do dr. Dante de Laytano, não lembro de quem mais. Ficamos por ali, ao lado da Brigada. Nesse momento, um guri pequeno e magrinho veio nos procurar. Falou com o Ciro Dutra Ferreira: "De onde é que vocês vieram?". E o Ciro: "Daqui mesmo, estudamos ali no Júlio de Castilhos". E o magrinho: "Mas como? No Júlio? E como é que eu não sei disso?". Ele estudava de tarde, e nós de noite. Aí o Ciro mandou ele falar comigo: "Fala com aquele bigodudo lá da ponta". Combinamos que ele iria aparecer de noite lá no Júlio. Era o Barbosa Lessa.

Cultura - O que lhe chamou atenção nele?
Paixão - As coisas que ele falava sempre estavam relacionadas à História. Ele sempre costurava com uma referência da História. Não era um homem campeiro, com a linguagem campeira, apesar de ter uma experiência parecida com a nossa. E ele tocava violão, já arranhava umas quadrinhas. Depois disso é que veio a Ronda Crioula, a Semana Farroupilha, o Candeeiro Crioulo, apareceram outros que não eram gaúchos nem nada, eram simplesmente urbanos. como o Ivo Sanguineti, que era um cara dedicadíssimo, dormia lá para que o fogo não apagasse, E foi até o dia 20 de setembro, com palestra com o Manoelito de Ornelas.

Cultura - Como é que o Manoelito de Ornetas, que era um grande intelectual, foi até o colégio, para falar com uns guris gaúchos?
Paixão - Eu é que o convenci. Peguei o Ciro e fomos até a casa do Manoelito. Ele tinha a Prosa da Terças, seção do Correio do Povo; então nós ligamos e nos apresentamos: "Olha, nós somos estudantes, o senhor poderia nos receber?". Apresentamos para ele o que estávamos fazendo e pedimos para ele falar. Na época ele estava lançando o livro Gaúchos e Beduínos. Quem acabou ficando na conferência foi o Lessa, porque foi de tarde, e eu tinha que trabalhar. Mas o melhor é o seguinte: convidamos o Manoelito para ser jurado do baile! Não sei até hoje como tivemos a petulância de fazer uma coisa dessas... O baile foi lá em Teresópolis.

Cultura - A idéia era fazer uma representação da vida campeira?
Paixão - Não! Para reviver! Não tinha nada de patacoada! Era reviver os nossos hábitos, puramente. Café de chaleira, pastel de carreira, fogo no chão, fumaça. E a música foi uma coisa! Falei com um. maestro e pedi uma banda para o baile e ele me disse: "Eu tenho bandinha". Era dessas de alemão. Aí não dava! (risos). Mas ele me disse: "Eu te arrumo gaiteiro, tocador de violão e tal".

Cultura - Qual era o repertório?
Paixão - Rancheira, xote, polca, de vez em quando tocavam um dobrado, desses da zona alemã, umas marchinhas meio cívicas...

Cultura - E o Manoelito de jurado?
Paixão - No meio daquela bagualada... (risos). O Ciro e eu fomos buscá-lo de auto, pilchados, e ele todo formal, de gravata. Ele ficou encantado. Escreveu uma crônica, depois, contando do baile e dizendo aquilo que nós tínhamos explicado para ele - para nós, não se tratava só das roupas, das danças, era também a dignidade, a moral do nosso povo.

Cultura - Vocês falavam abertamente sobre esse desconforto com o americanismo?
Paixão - Sim! Era só uma questão de analisar, de observar: o que é que tinha de música nossa? O Boi Barroso, Prenda Minha, Gauchinha e Minuano.

Cultura - E como foi a expansão do movimento, da idéia de tradicionalismo?
Paixão - Fundamos o Departamento, com aquela loucurada toda de trazer a chama e o ato cívico que se seguiu, o baile com mais de 200 pessoas, e depois nós perguntamos: "E agora?". Porque aí mais gente apareceu, gente que nem nos conhecia, e foi então que o Lessa disse: "Temos que nos reunir para formar um clube de tradições". Ele saiu por aí com um caderninho pegando nome e endereço de tudo que era gente interessada em participar e começamos a nos reunir na minha casa, o nosso primeiro quartel-general, e foi enchendo de gente. Aquilo começou a crescer, começou a chegar mais gente, gente de cabeça branca, gente séria...

Cultura - O senhor conheceu o Aureliano de Figueiredo Pinto?
Paixão - Não. Os literatos não existiam na forma da popularidade. Quem é que ia dizer verso do Aureliano? Tinha que ser declamador ou o próprio poeta. Declamador não tinha, ninguém queria se expor ao ridículo de dizer versos. Nós vínhamos de baixo, e a literatura era para os nobres. os sábios, os intelectuais, os dominadores da lingüística...

Cultura - E o senhor se lembrava do seu pai, por essa época?
Paixão - Sim, porque o meu pai, quando eu estava em Uruguaiana, comprava uns livrinhos. Queroquero, do Roque Callage, e me fazia ler. E lá em Uruguaiana tinha o Grêmio Literário Castro Alves. E nós éramos da campanha, então fundamos um grêmio literário Catulo da Paixão Cearense.

Cultura - Por que o Catulo?
Paixão - Porque era um poeta popular. falava das coisas da terra, com termos regionais. Eu era muito - guri, não cheguei a fundar, mas estava lá. Só declamava noemas do Paulo Setúbal, João, o Tropeiro. E foi ai que eu comecei a aprender a declamar.

Cultura - Vocês se sentiam fora disso?
Paixão - Não, é que nós vivíamos e os outros cultuavam (risos). Até aproximar uma coisa da outra, levou tempo. Eu fui um dos primeiros a sair por aí á declamar versos e tudo mais.

Cultura - Como é que o senhor e o Lessa começam a fazer pesquisas de cultura popular?
Paixão - Quase não havia elementos para se consultar. A gente ouvia coisas de citação. Queríamos sedimentar nossa cultura, formar a sociedade tradicionalista. Quando a gente foi registrar o 35 no cartório, não permitiram! Tivemos que mudar "patrão" para presidente, "capataz" para, sei lá, "vice-presi dente". Para sedimentar a simbologia do universo da estância, a idéia do patrão, do capataz, do posteiro, da invernada, não foi fácil. E também tinha muito gaudério meio grosseirão, que ia mais pela patacoada, e nós tínhamos que controlar.

Cultura - E suas pesquisas com o Lessa? Ele era o seu maior interlocutor?
Paixão - Sim, havia uma identificação muito forte. Então veio um convite do governo uruguaio para uma representação brasileira de gaúchos no Dia de la tradición, em Montevidéu, em 1949. Mas aí vieram os gaúchos das guerras de 93 e 23 com as papagaiadas. "Porque eu sou maragato!", dizia um, aqui, e outro vinha com "Eu sou pica-pau", e nós tivemos que afastar isso "Aqui não se discute isso!". Os ânimos estavam assim, ainda mais que tinha acabado o Estado Novo, tinha um clima de revanche, de acerto de contas.

Cultura - Como se dá a fundação do 35?
Paixão - O nome nós decidimos numa reunião em 5 de janeiro de 1948, mas a fundação foi em 24 de abril. E quando veio o convite uruguaio, o governo de Walter Jobim viu que o CTG 35 era uma gurizada e achou melhor, por precaução, mandar junto uns oficiais da Brigada, uns tipos excelentes. Em Montevidéu, desiflamos e declamamos, foi uma beleza! Aí chegou a hora da dança. E os castelhanos nos perguntavam: "Que danças vocês têm?!

Cultura - Que danças vocês tinham?
Paixão - Nós não tínhamos nada. E o que eu me perguntava era como os argentinos e os uruguaios tinham aquele monte de dança e nós não tínhamos nada. E o Lessa dizia "O Cezimbra Jacques diz isso, O Walter Spalding aquilo." Ele já tinha lido tudo.

Cultura - E já existia a noção de folclore?
Paixão - Não! Não tinha nada. Em 1947 foi a Unesco que definiu um apoio ao folclore, da Unesco se chegou à Comissão Nacional, e a Regional só se fundou aqui em 1948, depois da fundação do 35.

Cultura - E vocês se identificavam com a palavra "folclore"?
Paixão - Não, para nós a palavra era "tradição". Hábitos e costumes dos nossos antepassados. Foi daí que começou a nossa pesquisa. Não tinha descrição nenhuma, partitura nenhuma, então o Lessa e eu começamos a procurar. Eu viajava muito, pelo serviço, então íamos cada um para um lado. Começou em Palmares. Eu estava falando com um rapaz sobre danças tradicionais e ele me falou da tal "dança do pezinho". Eu não sabia: "Que dança do pezinho? Vocês dançam isso?" E o cara: "Claro, lá na praia, nas festas". E aí formou-se um grupo e nós fomos a Palmares para pesquisar. Bem, se a cem quilômetros de Porto Alegre tem uma dança dessas, como é que não vai ter por esse Estado inteiro?

Cultura - E o senhor viajava mas era funcionário da Secretaria de Agricultura, ainda?
Paixão - Sim, era só nos finais de semana que dava para fazer a viagem. Um dia o Ênio Freitas e Castro, que era da Secretaria de Educação, emprestou um gravador primitivo. Eu pagava duas passagens e levava o gravador.

Cultura - E quem é que custeava?
Paixão - Ora, quem é que custeava, eu! (risos). Já era loucura falar no assunto, imagina que alguém ia dar dinheiro para essas bobagens (risos).

Cultura - Quando é que se dá a fundação do grupo de dança?
Paixão - Em 1953, com Os Tropeiros da Tradição. De 1949 a 1952, o Lessa e eu juntamos 20 e poucas danças.

Cultura - E fazendo a faculdade junto?
Paixão - Faculdade e trabalho!

Cultura - Demorou para se formar?
Paixão - Sim, porque aí surgiu a oportunidade de divulgar as tradiç8es pela Europa, em Paris, em 1958. Aí eu cancelei a minha matrícula, tirei licença-prêmio na Secretaria e fiquei cinco meses bebendo e comendo naqueles cabarés franceses... Eram dois pares de dança e quatro músicos. Eu não conhecia nada de Paris, fora uma coisa ou outra de leitura. E não tinha salário, lá, porque os meus vencimentos estavam aqui. E mesmo assim fiquei cinco meses lá comendo e bebendo e indo pra lá e pra cá. só dançando, só sapateando.

Cultura - O senhor se apresentava em bares...
Paixão - Não, em teatros, em televisão, eu e o grupo todo. Era uma coisa completamente diferente, eles nunca tinham visto uma coisa daquelas. E o conjunto Os Gaudérios era um fenômeno.

Cultura - E como é que foi chegar a uma cidade com centenas de anos, com cultura letrada antiga, levando daqui uma coisa que poucos anos antes ninguém conhecia?
Paixão - É que o europeu tem essa cultura, sabe o que é o primitivo, ele conhece o autêntico. E como Paris era a capital do mundo cultural, todas essas manifestações passavam por lá. Então, os seletos representantes vão a grandes programas. O Olympia de Paris, Hôtel-de-Ville, grandes lugares. De Paris eu fui a Roma. Quando voltava de Roma, de trem, um siciliano fica me encarando até que ele me pergunta o que eu faço, e eu digo: "Eu danço, vivo da dança". Aí ele disse que tinha me visto, pela televisão, da Sicília, dançando em Paris.