A matéria abaixo foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 15 de maio de 2004.

Textos de
Luís Augusto Fischer (Escritor, professor de Letras da UFRGS) e
Eduardo Wolf (Professor de Letras do Colégio Leonardo da Vinci)

Cultura - E o senhor continuava estudando?
Paixão - Comecei a estudar no Julinho, de noite, em 1946. Terminei o curso científico em 1947. Então me oportunizaram um curso sobre técnicas de classificação de lã, e aí me especializei.

Cultura - Em que ano entra na faculdade?
Paixão - Em 1949, Agronomia, na UFRGS.

Cultura - Faz o curso normalmente.
Paixão - Não muito normalmente. (Risos). Porque aí eu começo a verificar essa ausência de preservação dos valores e da cultura gaúcha. Sou produto da II Guerra Mundial.

Cultura - O que o senhor lembra da guerra?
Paixão - Ah, eu acompanhava, mas nessa época já estava trabalhando e me mandam para o Interior, para o maior centro de comercialização de 1ã, Pelotas. Era um porto de alta responsabilidade. Eu tinha 17, 18 anos. Era tuna pegada violenta. Eu tinha que reformular a técnica toda, com 18 anos, para os velhos comerciantes (risos). Imagina, um guri chegando e dizendo: "Pára tudo!" (risos). Foi uma barra. E eu tinha que fazer o Tiro de Guerra, uma ou duas vezes por semana, à noite. Numa dessas noites, tomei o leite quente e me deitei com a galena nos ouvidos - nem bem rádio era - e ouvi: "Terminou a guerra!". Aí me vesti e saí para a rua, tinha toda a comemoração das pessoas nas ruas. E depois da guerra é que se intensificou a mudança no comportamento brasileiro e rio-grandense, porque os americanos descarregaram todo 0 poder econômico. que mudou tudo.

Cultura - No que o senhor via a chegada americana?
Paixão - Na música, que passou a ser a norteamericana: blues, jazz, as grandes orquestras, Tommy Dorsey, Glenn Miller. No cinema. Nos livros de tradução americana, bem comuns nessa época. O Capitão América. A Coca-Cola. Nem Coca-Cola tinha até então. Houve aí um episódio curioso. Como meu pai tinha revistas americanas, em que aparecia a Coca, eu tinha vontade danada de tomar aquilo. A gente só tomava guaraná. Aí fomos o Lessa e eu tomar Coca-Cola, num barzinho qualquer do Centro. Coloquei no copo, vi aquela coisa meio espumosa, provei. E achei aquele troço meio amargo (risos). Aí diziam que o bom era adocicar a Coca-Cola. Bom, coloquei açúcar e pum! (faz o gesto de explosão, com as mãos). Foi uma das imagens mais esquisitas... (risos)

Cultura - Como é que foi a idéia de fundar o "departamento de tradições" no colégio?
Paixão - Departamento de Tradições Gaúchas do Colégio Júlio de Castilhos. Como eu estava ausente da vivência contínua com a vida na campo que me era familiar, eu comecei a conversar com as pessoas e fui vendo que um era de Cruz Alta, outro de Bagé, não sei mais onde. E aí combinávamos: "Aparece lá para tomar um mate". Tomar mate, naquela época, só dentro de casa. Na rua, nem pensar. Nem na porta de casa. Bombacha ninguém ousava vestir em Porto Alegre.

Cultura - O senhor chegou a se sentir discriminado em Porto Alegre?
Paixão - Discriminado, propriamente, não. Porque quando nós entramos nessa história estávamos firmes: "Queremos isso, e ponto. As conseqüências, a gente vê depois. Tem que dá-le pau, dá-le pau" (risos).

Fernando Gomes/ZH

Paixão Côrtes recorda sua primeira Coca-Cola, aos tempos do pós-guerra:
"Achei meio amargo. Coloquei açúcar e pum"

Cultura - Mas antes de formar o departamento, o senhor chegou a se sentir constrangido pelos hábitos da cidade?
Paixão - Não. Eu tinha uma certa intimidade já com a vida de Porto Alegre. Mas acontece que na época estava se vivendo a ditadura Vargas. Tinha-se medo de ter uma bandeira do Rio Grande do Sul. As bandeiras regionais foram queimadas. Aqui nós escondemos, não queimamos, mas não podíamos usar, mostrar. Meus tios, por exemplo, eram muito pela preservação dos valores, além de serem veladamente contra o Vargas, então a gente ouvia essas coisas: "Cuida com o DIP" (Departamento de Imprensa e Propaganda). E aí isso já se misturava com o comunismo, tudo parecia uma coisa meio nebulosa. Por exemplo, além de não se ver a bandeira, não se cantava o hino. Então o pessoal do Interior se reconhecia no Colégio, se identificava. Começamos a nos encontrar para tomar mate, contar histórias. Coisa de galpão, mas como não tinha galpão, a gente inventava um. E nessa época praticamente não havia literatura regional. O único que ainda sobrevivia era o Vargas Neto. E o Antônio Chimango, é claro. Mas era uma literatura mais rebuscada. não a coisa galponeira a que nós estávamos acostumados. Daí surgiu a nossa idéia.

Cultura - Vocês logo perceberam que o Colégio Júlio de Castilhos poderia abrigar essa iniciativa?
Paixão - Ah, não foi tão simples. O negócio é que eu botava bota e bombacha e ia para a aula. E era aquele comentário só. Eu morava na Sarmento Leite, e o Júlio era o antigo, ainda (na João Pessoa, onde fica hoje a Faculdade de Economia da UFRGS). De noite, eu ia pilchado. Quando fazia frio, ia de poncho. Chovia, botava um chapéu. O pessoal falava: "Olha o guasca de fora", "Olha o guapo". E eu não me ofendia, sabia o que eu era, eles não estavam me ofendendo ao dizer aquilo.

Cultura - E as moças?
Paixão - Não tinha esse contato com as mulheres. Por exemplo, o galpão era só homem. Quando fundamos o 35, era só homem. E o galpão é a célula fundamental da nossa gente. Nós nos criamos ali, em volta, tomando mate. As moças não participavam. Elas estavam em outra. "Miss", "Star", tudo nome americano. E eu fui indo, vestido assim. Foi aí que eu comecei a pensar: por que a gente não faz um núcleo de resistência a essas loucuras norte-americanas e tudo o mais que está aí? Fui bolando, pensando, sozinho. E o Grêmio Estudantil tinha de tudo - esperanto, teatro, e não sei mais o quê. Fui nas reuniões, três sábados seguidos, e era sempre a mesma coisa: "Não sobrou tempo para ti, Paixão". Tudo bem, lá ia eu no outro sábado de novo. Um dia expus a coisa: "Acho que a gente deveria preservar as nossas tradições", etc., preparei um arrazoado. Tinha a Chama da Pátria, no 7 de setembro, data magna da pátria. Foi aí que tive a idéia de tirar uma chama da pira da pátria e levar para o Júlio de Castilhos, fazer uma continuidade da chama da pátria, lá num candeeiro, até o 20 de setembro. E o pessoal dizia: "Mas como?". Então fui na Liga de Defesa Nacional, um órgão muito importante na época, eu conhecia o major Vignolli, apresentei minhas intenções, numa carta que nós tínhamos preparado. Ele me perguntou: "Então, qual é a idéia?". E eu, numa insolência que só hoje percebo, respondi: "Vou tirar uma centelha da pira da pátria para levar para o Colégio Júlio de CastiIhos". Imagina, eu com 18, 19 anos. Aí ele chamou um sujeito: "Ô Pimentel, vem aqui". O sujeito chega e diz: "E aí, Paixãozinho, como é que vai?", todo entusiasmado. Era amigo do meu pai, com quem tinha trabalhado lá em Santa Maria, me conhecia desde pequeno. E perguntou: "O que é que tu estás fazendo aqui?". A idéia era prolongar do 7 de setembro até o 20, da Revolução Farroupilha. Aí eles me perguntaram como é que eu queria fazer isso, se era a cavalo, como é que era e tal. Eu tinha pensado em três cavalos - um com a bandeira do Rio Grande, outro a bandeira do Colégio Júlio de Castilhos e outro com a bandeira do Brasil.

Cultura - E quem eram os seus parceiros?
Paixão - Eram o Ciro Dutra Ferreira e o Fernando Machado Viana. Na saída, o doutor Pimentel me disse que estavam trazendo os restos mortais do Davi Canabarro. Quem traria era o Coronel Canabarro. Eu disse: "Mas ele é casado com uma prima minha!". Enfim eu estava em casa! Então ele me diz: "Estamos com um problema: não arrumamos gaúchos para fazer um costado (guarda de honra). Tu não me arrumas uns gaúchos". E eu: "Para quando?"

Cultura - O que ele queria dizer com "gaúchos"? Por que ele os queria?
Paixão - Porque o Davi Canabarro era uma figura da Revolução Farroupilha, da Guerra do Paraguai, e era para ser trazido para o Pantheon do Rio Grande. Um negócio cívico. Disse para ele que ia tentar, fui falando com um e com outro, fazendo uma exaltação do Canabarro. Convencia um, que convencia outro. Mas aí não tinha arreio. E cavalo? Não tinha. Fui falar com o doutor Pimentel: "Olha, consegui um piquete bom. Gente firme. Mas não temos cavalo, nem arreio". O doutor Pimentel disse que conseguia os cavalos, do Regimento Osório. "E os arreios?", perguntei. "Isso vai ser dificil". Falei para ele: "O senhor me arruma uma caminhonete e dois homens que eu dou um jeito". Cinco horas da manhã saímos em direção a Belém Novo. Foi clareando o dia e iam aparecendo aquelas figuras a cavalo; eu mandava parar a caminhonete e começava a dar um discurso sobre o gaúcho, a pátria, o gauchismo, e os caras ficavam atônitos (risos). Assim arranjei 14 arreios. Só na palavra! Devolvi um por um, eu mesmo. Montamos os arreios e conseguimos oito pessoas. Faltou gente para montar, as pessoas ficavam com vergonha. Tu podes imaginar oito loucos vestidos de gaúcho, de faca?

Cultura - E o que as pessoas achavam?
Paixão - Não dava para achar, porque a gente "nem tava"! E as pessoas ficavam atônitas. Viemos lá do Regimento Osório, descemos a antiga Rua da Conceição e apertamos os arreios defronte ao Hotel Umbu. Nós íamos ficar por ali, tomando um trago e tudo o mais, esperando o cortejo que vinha do aeroporto. Chega a polícia: "Estão armados? Não pode. Estão presos". E aí começou a argumentação.

Cultura - O senhor era o embaixador deles?
Paixão - Não, todo mundo falava. Menos o Siqueirinha, que até hoje não fala (risos), o Antônio João Sá de Siqueira, médico veterinário.