A matéria abaixo foi coletada do
Caderno Cultura, Jornal Zero Hora
Sábado, 15 de maio de 2004.

Textos de
Luís Augusto Fischer (Escritor, professor de Letras da UFRGS) e
Eduardo Wolf (Professor de Letras do Colégio Leonardo da Vinci)

"Me chamavam de guasca. Eu não me ofendia"

Genaro Joner, banco de dados/ZH - 18/10/99

Na 16a entrevista da série Passado Presente, que revisa a formação de figuras proeminentes da cultura gaúcha, o folclorista Paixão Côrtes recorda como se deu a criação do movimento tradicionalista: "Eu ia pilchado para o colégio. Me chamavam de guasca de fora. Eu não me ofendia. Sabia o que eu era".

Cultura - O senhor nasceu na zona rural?
Paixão - Não, nasci na cidade. A casa de meu avô ficava numa das principais ruas de Santana. Meu pai alugou a casa ao lado. na esquina e abriu uma parede, fazendo uma ligação entre as casas. Era praticamente uma casa só.

Cultura - Era uma família grande?
Paixão - Não, nós somos dois irmãos e uma irmã de criação. Meu avô materno era de Santana, Rodrigues D'Ávila; meu avô paterno era de Bagé, Paixão Côrtes. Meu avô materno sempre esteve ligado ao campo, tinha duas ou três estâncias no Interior, e eu me criei dentro delas. Desde pequeno, eu ia a essas estâncias, acompanhando meu pai, que era agrônomo.

Cultura - Ele tinha formação universitária?
Paixão - Ele se formou em Porto Alegre e depois estudou nos Estados Unidos por cinco anos.

Cultura - Isso devia ser bem raro na geração dele, não?
Paixão - Sim, era excepcional. Ele se formou em Porto Alegre, depois ficou cinco anos nos Estados Unidos. O bom foi que ele não teve apenas a vivência universitária, ele fez de tudo, foi peão de estância, conheceu bem a vida, como é o comum nos Estados Unidos. Aqui é que tem essa coisa de separação social. Ele trouxe essa bagagem norteamericana. Até na mesa se sentia a diferença, tinha doce e salgado ao mesmo tempo, a carne era quase crua, sucos, essa coisa do breakfast. Ele era funcionário da Secretaria da Agricultura e prestava assistência técnica naquela área de Santana do Livramento. Eu ia junto.

Cultura - Então a sua infância se divide entre cidade e campo sem distinção?
Paixão - Exatamente. Meu pai tinha uma chácara, um sítio, então permanentemente a gente ia para lá e fazia grandes festas. Ficava-se dois dias carneando, festeando, aí quando terminava um assado já carneavam de novo, lá vinha mais gente, e sesteavam debaixo das árvores mesmo, e seguia o baile. Era uma coisa.

Cultura - O seu avô também tocava?
Paixão - Sim, o João Pedro Rodrigues D'Ávilla. Eu tenho a gaita dele, de oito baixos. Sempre ouvi música em casa, era natural, nunca precisei procurar por isso.

Cultura - Nenhum dos ramos estava metido em política?
Paixão - Não. Meu pai tinha um grande poder de coordenação. Ele era muito benquisto na área rural. Então, nas lutas sociais, mais rico, menos rico, mais pobre, menos pobre, ele sempre foi um coordenador, um mediador. Era respeitado.

Cultura - O senhor fica em Santana do Livramento até quando?
Paixão - Até 1939, 1940. Eu tinha uns 12 anos. Fomos morar em Uruguaiana, porque meu pai foi nomeado diretor da Estação Experimental, um posto zootécnico bastante avançado.

Cultura - E a diferença entre as cidades?
Paixão - Em Santana tinha uma intimidade familiar, e em Uruguaiana meu pai ocupava um cargo importante do governo, então tinha uma outra ótica. Também por lá, ele me levava por tudo. Aprendi muito com ele me dizendo: "Olha lá, observa aquilo, tá vendo aquilo outro?".

Cultura - Quando o senhor veio a Porto Alegre pela primeira vez?
Paixão - Em 1935. Teve a exposição do centenário da Revolução Farroupilha, no que hoje é o Parque Farroupilha, e o meu pai era o responsável pela exposição da pecuária. Fez seleção dos grandes animais, etc. E eu andava com ele por tudo.

Cultura - E qual foi o impacto de Porto Alegre para o senhor?
Paixão - Teve um impacto, por exemplo, pelo bonde. Nós, na fronteira, chamávamos bonde o que é ônibus, na verdade.

Cultura - Fez o primário em Santana?
Paixão - Fiz o primário em Santana, com os maristas, e depois fui para Uruguaiana, onde vem o choque, porque fui estudar no Colégio União, que era protestante, metodista. Meu pai queria que eu tivesse uma visão diferente das coisas. Ele via no colégio americano uma nova visão, um outro trato de responsabilidade, de ensino, de exigência.

Cultura - 0 senhor fez primeira comunhão?
Paixão - Sim, sim. Mas no União havia muita liberdade, sempre houve respeito pelos credos religiosos. Depois vim para o IPA, fazer o Ginásio. E foi muito importante, porque o IPA me abriu outras perspectivas, com o lado da prática de esportes, que sempre gostei muito. Meus pais jogavam tênis, e eu jogava também.

Cultura - Jogar tênis era coisa rara pela região, não?
Paixão - Sim, e eu com cinco, seis anos, com uma raquete daquele tamanho, imagina (pisos).

Cultura - O senhor voltava para as fazendas com freqüência enquanto morava na Capital?
Paixão - Sim, nas férias eu ia para as estâncias de Bagé, de Júlio de Castilhos, de Cruz Alta, e lá de senvolvia toda a atividade normal de um peão de estância. E eram fazendas bem grandes, de duas léguas de campo, serviço puxa do. Uma das sedes da fazenda do meu tio, lá em Cruz Alta. ficava num extremo, e o trabalho a ser leito estava a duas léguas. A gente tinha que acordar às quatro da manhã, ir a cavalo para chegar às sete e meia, mudar o cavalo, e aí começar o serviço. Hoje é que me dou conta como era puxado para um guri de 13, 14 anos, como eu. Era uma fazenda tradicional, tudo no laço, sedes grandes, 2 mil animais, fazendo tropa e tudo. De noite, festeava-se, carneava-se, para, na manhã seguinte, bem cedo, tudo de novo. Serviço mesmo. Então, tudo que falo nas minhas atividades, hoje, não foi de palco que aprendi. Foi muito espontâneo e real.

Cultura - Lembra das músicas que tocavam?
Paixão - Sim. Era o bugio, limpa-banco, havanera, chote, rancheira.

Cultura - Se cantava alguma letra, junto?
Paixão - Sim, as letras que se cantavam eram as décimas. A Décima do Cavalo Baio, O Boi Barroso ...0 Boi Barroso é a mais expressiva manifestação da literatura galponera. Fora isso, umas valsinhas campeiras... (segue-se um improviso cantarolado e coreografado, para riso de todos).

Cultura - Voltando à sua trajetória, o senhor disse que veio estudar no IPA. E depois?
Paixão - Logo depois, quando tinha uns 17 anos, perdi meu pai, o que mudou toda a estrutura familiar. Tive que trabalhar e tudo o mais. Até os 17 eu tinha aquela vivência campeira. Ficava no campo do primeiro ao último dia de férias, na lida bruta, com animais, e doma daqui, e monta dali, e ginetea, e derruba, e cai e se quebra todo, e segue. E diariamente! Não era uma prova. Não tinha essas frescuras de hoje, de concurso e tal.

Cultura - O senhor teve que trabalhar e começou com o quê?
Paixão - Na Secretaria da Agricultura. O meu pai se dava muito bem com todo mundo lá, e como eles souberam da situação, disseram: "Vamos chamar o Paixãozinho", que era como eles me chamavam. Ou então era o "Peruzinho", porque o apelido do meu pai era "Peru". Então comecei no serviço de Ovinotecnia com o doutor Geraldo Veloso Nunes Vieira.