Pedro Vieira - Perico, El Bailarin

Difícil é dizer algo de mais ou menos definitivo sôbre o alegre e distorcido gaúcho Pedro José Vieira, apelidado, no Uruguai, de Perico, El Bailarin, pois poucas são as notas e referências sôbre êle e sua atuação social.

Sabe-se que Perico, El Bailarin, ou seja, o brasileiro natural de Viamão, Pedro José Vieira, desempenhou importante e arrojado papel no Uruguai, quando ainda Província Cisplatina, ao lado de Venâncio Benavides.

"EI último dia de febrero (de 1811), Pedro Vieira e Venâncio Benavides, incitados por el comandante militar de la región, D. Ramón Fernández, daban el grito de libertad a orillas del arroyuelo de Ascencio (Dep. de Sorriano) y se levantaban en anuas, contra los españoles. Tal fué el llamado "Grito de Ascencio" (H.D. - Ensayo de história Pátria" - Montevidéo, 1929 - 61 ed. - págs. 289/290).

O Prof. Flávio A. Garcia, historiador uruguaio, em sua obra "Una Historia de los Orientales" (Tomo II - pág. 278) repete o feito sem muito entusiasmo. Aliás, nota-se em grande parte dos historiadores uruguaios a pouca importância dada ao "Grito de Ascencio", para mais salientar a atuação de Artigas, a partir de 1811: "El alma del pueblo uruguayo es la "Orientalidad", es decir la fuerza, el genio colectivo, superior a la misma voluntad de los próceres... " (... ) la aparición de la personalidad colectiva de nuestro pueblo, comienza con el levantamiento de 1811" (José Salgado - "El Federalismo de Artigas - Génesis de Ia Orientalidad" - Montevidéo 1945 - pág. 4 e sgts.). Entretanto, Eduardo Gauna Vélez, em seu "Afio Argentino" (Buenos Aires, s/d. pág. 31) declara: "El cabo de milicias Venancio Benavides y el capataz de estância Pedro José Vieira dan, al frente de cien hombres, el grito de libertad en Mercedes (?), Banda Oriental, iniciando el movimiento revolucionário en ese país".

Pedro José Vieira era natural de Viamão, onde nasceu no último quartel do século XVIII. Mocinho ainda, saíra de casa perambulando, ora como peão, ora como ajudante de tropeiro, ora como capataz de estância, entre Arroio Grande, Piratini, Jaguarão, radicando-se afinal, após a conquista das Missões (l801), no Uruguai que percorreu em todos os sentidos, até a Argentina.

Ativo, inteligente, bom conversador e irrequieto, bom "sapateador" nas festas galponeiras, Pedro José Vieira logo se distinguiu por seu espírito lhano, liberal e atitudes másculas de bondade e justiça. Aurélio Pôrto assim o descreveu: - "um autêntico herói internacional, que jornadeava com Artigas, que deu o grito de Aseêncio, que erguera, com Bolívar a San Martin, a bandeira da unidade sul-americana... (Processo dos Farrapos, vol. XXXIII .pág. 498), que a Revolução Farroupilha atraiu como atraíra a todo o espírito liberal, a ela -.,e incorporando de corpo e alma, com o pôsto de coronel, que já trazia das lutas ao lado de Artigas, Bolívar e San Martin.

Pertenceu às hostes farroupilhas dirigidas pelo General Domingos Crescêncio de Carvalho e de seu irmão, ao que tudo indica, Coronel Félix Vieira que também andou lutando pelo Uruguai. Félix Vieira, diz Alfredo Varela (História da Grande Revolução - Pôrto Alegre, 1933 - Vol. 5.' - págs. 309/310) " não foi um homem mas sim um leão do Atlas que, de serrania mauritana, fôra dar, ameaçativo, nas campinas da Pampa continentista" "Um dos oficiais mais empreendedores da fôrça de Crescêncio e de valor demarcado..". Devia, entretanto, ser pouco mais môço que Perico, El Bailarin.

Fernando Luís Osório (filho) em belo estudo - "Um Gaúcho Brasileiro - Promotor do Prólogo da Independência do Uruguai" ... (RIHGRGS - III,/,lV trim. de 1930 - págs. 557 e sgts.), declarou: "Pedro Vieira, filho de Viamão e domiciliado no vale do Rio Negro (. ..) irradiou o espírito rio-grandense na América, a cujo patrimônio comum pertence." - E continua, mais adiante: "Na terra do pericón e das vidalitas tinha o nosso herói romanesco o apelido de "Perico, el Bailarin" porque, personagem modesto de nossa linha fronteiriça, filho da terra do amor e da hospitalidade, que era o antigo Rio Grande das tiranas e das chimarritas, tomava parte nos bailes "criollos", ao som da guitarra tradicional e romântica, com a sua fôrça de presença, a fascinação da sua irradiante figura, popularizando-se "por su destreza en bailar sobre zancos, lo que le atrajo el mote de "Perico, el Bailarin" (História Política y MWtar de Ias Republicas del Plata - de Antonio Diaz, - cit. por Fernando Osório (Filho), ob. cit.).

Pedro José Vieira, era, como já dissemos, um tipo alegre, conversador, folgazão, enérgico, justiceiro e sempre disposto a tomar iniciativas, o que fêz o historiador uruguaio Santiago Bollo (citado por Fernando Luís Osório (filho) - ob. cit.), dizer: - "Viera con su genial travesura -.e adelantó hasta el pueblo con algunes gauchos e intimo el comandante Fernández (... "" (Manual da Historia de Ia Republiea Oriental del Uruguay), e proclamou a independência uruguaia, apossando-se de Mercedes e Sorriano e entregando depois, sua obra a Artigas.

Corre entre nossos tradicionalistas que Pedro José Vieira teria criado ou levado do Rio Grande do Sul para o Uruguai a hoje "dança nacional uruguaia - "EI Perleón" - e que por isso recebera o apelido de "Perico, el Bailarin".

Ao que pese a êsses tradicionalistas, podemos afirmar que o apelido não lhe proveio, na íntegra, por ser dançador, sapateador e "periconero", mas sim pelo conjunto de seu caráter alegre e conversador, trocista e amigo de bailados.

Os primeiros predicados deram-lhe o cognome de "Perico" que significava, na antiga linguagem de nossas fronteiras e que ainda consta de alguns de nossos dicionários - caturrita, papagaio conversador - e o último, sapateador e periconero, - o de "bailarin". Assim, seu apelido galponeiro - Perico, el Bailarin, - se traduziria por "caturrita" (barulhento ao falar), ou "papagaio (verde e vermelho) dançador". Vieira, aliás, muito se orgulhava dêsse cognome.

O "pericón", com versos improvisados na hora, ou especialmente preparados antes, hoje bailado nacional uruguaio, não é de origem lusa e nem foi criação de Pedro José Vieira, se bem possa ter êle introduzido partes novas, como a dos lenços azuis e brancos, e, mesmo, partes de outras danças populares. Disso, entretanto, não existe constância alguma ao que sabemos, mas apenas suposições.

El Pericón tem seu fundamento nos "Cielitos", "del cual conserva intacto el valseado, el requiebro arrorcso y Ia donosura gaucha", declara o especialista em danças platinas D. Lázaro Flury (Danzas Folklóricas Argentinas - Coleción Ceibo, Buenos Aires, 1947 - pág. 27).

E continua Flury - "Pero el criollo necesitó algo mád, y mezcló en el Pericón figuras de otros bailes que lo hacen algo asi como un "pot pouri" de danzas vernáculas. EI nombre "pericón" viene del apelativo "pericón" con que se designaba al que dirigia el baile, o sea el actual bastonero".

Por sua vez o "Cielito" provém, em parte, da "Jota" espanhola, popular em Aragon, Valencia e outros pontos de Espanha, que, no geral, "parecen mas bien el de un fandango castellano" (Eduardo Lopez Chavarri - "Música Popular Espaflola" Barcelona, 1927 - pág. 112 e outras). Os instrumentos para a "jota" são guitarras de diversos tipos: "guitarrón" (quitarra más pequeila que ya se usa muy poco), tiples (guitarra todavia más pequena)", além da guitarra comum (ob. cit.).

O "Celito", esclarece Martiniano Leguizamón (EI Primer Poeta Criollo del Rio de La Plata - Paraná, Rep. Arg. - 1944), origina-se de "cielo": - "La danza, la música y la palabra aunadas en las reuniones populares, desde los tiempos más remotos, tienem entre nosotros el nombre siinpatico de "eielo". De onde "Cielito" (pág. 8).

Ricardo Escuder, entretanto, em seu estudo "EI Pericón - Baile Nacional del Uruguay" (Montevidéo, 1936 - pág. 7), escreveu: - "Aunque el origen rudimentário del Pericón és imposible de fijar con exactitud cronologica, puede afirmarse retundamente, que és rioplatense genuino. Algunos lo ubican en Ia Argentina y otros en el Uruguay". Quanto à data do aparecimento do "pericón", Ricardo Eseuder não acredita en sua antigüidade, contrariando até documentos, e diz que o poeta Carlos Roxol fantasiou ao aludir "a sua ejecución junto a los fogones de los campamento de Artigas". E declara que "El Pericón" sómente começara a ser citado depois de 1870! Refere-se, naturalmente, a referências de estrangeiros, viajantes... E o que ficou nos relatos da batalha de Chacabuco, em 1817, como a seguir diremos, será fantasia?

É possível que não tivesse ainda o nome e a popularidade que depois o consagrou, definitivamente. Mas que foi, sempre, "baile del pericón", não há dúvida.

O Pericón não é apenas popular na República Oriental do Uruguai, mas também na Argentina de onde foi para o Chile, levada, em 1817, conforme nos conta a história, por D. José de San Martin, cujos soldados ali o dançaram três dias após a batalha de Chacabuco (l2-2-1817) em regozijo da vitória. E lá estêve com San Martin, nosso coprovinciano Coronel Pedro José Vieira que, por certo, foi o dirigente da festa e da dança, que bailava como ninguém, sendo dêle, ao que supõem alguns poucos, a introdução, ali improvisada, da coreografia com "panuelos azueles y blancos, las cores nacionales argentinas", e que hoje faz parte integrante do Pericón.

Esta parte final do bailado fêz com que, num transporte patriótico, cantassem, a seguir, o Hino Argentino, agitando os lenços ali, em pleno território chileno, sob os aplausos de San Martin e seu Estado Maior e autoridades outras .

Vemos, portanto, que nosso herói farroupilha, o viamonense Pedro José Vieira, recebeu o apodo de "Perico, el Bailarin" não apenas por ser grande bailarino, inclusive do Pericón, mas também por ser autêntico "perico" - isto é: periquito barulhento e alegre, conversador e "travesso" como um papagaio amestrado, sem maldade na paz, mas terrível na guerra.

Origem: Material recolhido do livro Construtores do Rio Grande, autoria de Walter Spalding. Livraria Sulina Editora, 1969.

Publicado em 29/05/2001.

Re-editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.