Osvaldo Aranha

Figura das mais salientes no cenário político nacional, com grande projeção internacional, Osvaldo Aranha surgiu com destaque especial em momento de agudíssima crise político-social do Brasil, sendo Secretário do Interior e Justiça do Rio Grande do Sul: o da sucessão presidencial no Govêrno da República, de que resultou a Revolução de 1930. Contava, então, 36 anos de idade. E foi, sem dúvida alguma, o verdadeiro idealizador, ao lado de Lindolfo Collor e de Flôres da Cunha, do movimento que colocou no Govêrno do Brasil, o então Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, candidato que fôra à presidência da Nação - Getúlio Vargas.

Nascido em Alegrete a 15 de novembro de 1894, data verdadeiramente predestinada, Osvaldo Aranha era filho de Euclides de Souza Aranha e dona Luíza de Freitas Valle, famílias tradicionais do Rio Grande do Sul, sendo que a paterna de origem paulista, descende do sertanista Gaspar Maciel Aranha, companheiro de Antônio Rapôso Tavares em sua expedição ao Tape, em 1636/1637.

A infância do futuro Presidente da 2.a Assembléia Geral da ONU passou-se tôda ela em ltaqui, onde o pai possuía uma estância. O meio campeiro deu-lhe a ênfase do homem livre e o destemor do gaúcho sempre pronto ao chamado da Pátria nos momentos supremos. Depois, pretendeu seguir a carreira das armas, matriculando-se no Colégio Militar, em 1908, retirando-se, porém, ao concluir o curso, em 1911, para seguir outros rumos. Em 1912 partiu para Paris, matriculando-se na Escola de Altos Estudos Sociais. Dois anos mais tarde voltava à Pátria para bacharelar-se em Direito pela Faculdade do Distrito Federal, em 1916.

Formado, regressou ao solo gaúcho, instalando-se como advogado em Alegrete e outras localidades. Como legalista, borgista, tomou parte na revolução de 1923 e, terminada esta, foi nomeado subchefe de Polícia de Pôrto Alegre. A seguir, Intendente de Alegrete, de 1925 a 1927 quando foi eleito também, catedrático da Faculdade de Direito de Pôrto Alegre. Destacou-se sobremodo como Deputado Federal e quando o Rio Grande do Sul, pela voz de seu Presidente Getúlio Vargas, dêle precisou. chamou-o para a chefia da Secretaria do Interior e Justiça (l929), tramando, após as eleições que deram ganho ao candidato oficial, Dr. Júlio Prestes, a revolução que mudaria por completo os rumos da História do Brasil, a de 3 de outubro de 1930.

Substituindo na presidência do Estado o Sr. Getúlio Vargas que seguira com as fôrças revolucionárias rumo ao Catete, Osvaldo Aranha assumiu o govêrno do Rio Grande do Sul de 9 de outubro a 27 do mesmo mês de 1930. Por ter, também, seguido as fôrças rebeldes chefiadas por Getúlio Vargas, passou a presidência do Estado a Sinval Saldanha (27-X-' a 28-XI-1930). Aliás, empossado Getúlio Vargas como Chefe do Govêrno Provisório Revolucionário, no Rio de Janeiro, a 3 de novembro, Osvaldo Aranha foi de logo chamado para integrar seu primeiro Ministério, como Ministro da Justiça. Foi ainda Ministro da Fazenda e, após a revolução paulista de 1932, reconstitucionalizado o pais, líder na Assembléia Nacional Constituinte, sendo presidente da Comissão de Economia e Finanças. Logo após, foi nomeado Embaixador do Brasil nos Estados Unidos (l934-1938), tendo exercido, ainda, diversas outras missões diplomáticas: Delegado à segunda reunião do Instituto Pan-Americano de Geografia e História, e à Conferência de Paz em Buenos Aires (l936).

Com a instalação do chamado Estado Nôvo, a 10 de novembro de 1937, Osvaldo Aranha, de regresso ao Brasil, foi nomeado Ministro das Relações Exteriores (l938-1944) e logo a seguir representante do Brasil nas Nações Unidas (l946-1947), sendo eleito Presidente da Sessão Especial que criou a nova nação - Israel pela qual muito batalhou, tendo, mesmo, sido a principal figura nos debates em defesa do povo judeu.

Antes, a 8 de setembro de 1947, estêve em Pôrto Alegre, em visita ao Estado natal e seus familiares. Nessa ocasião foram prestadas ao ilustre representante do Brasil na ONU e presidente eleito da 2.a Assembléia Geral das Nações Unidas, que criaria o Estado de Israel, significativas homenagens. No banquete oficial, que teve como orador o Deputado J. P. Coelho de Souza, proferiu Osvaldo Aranha, agradecendo, notável discurso que foi amplamente divulgado não só na plaquete (oficinas gráficas da Livraria do Globo, Pôrto Alegre, 1947) contendo os dois discursos, como pela imprensa e no Boletim do Centro Gaúcho de São Paulo, que o divulgou em separata, como Contribuição do Centro Gaúcho de São Paulo na divulgação do notável discurso proferido em Pôrto Alegre, pelo Embaixador Osvaldo Aranha, Presidente da ONU (s,/ed. s/l. s/d).

Com a queda do govêrno de Getúlio Vargas a 29 de outubro de 1945, deposto pelas Fôrças Armadas, em virtude de suspeita de que não seriam realizadas as eleições (Hélio Vianna: História do Brasil, Edições Melhoramentos, São Paulo, 1961 - 2.' vol. pág. 284), assumiu o govêrno da Nação o chefe do único poder constitucional ainda subsistente, o Judiciário (idem), e em 1946, feita nova Constituição, foi eleito presidente o General Eurico Gaspar Dutra (l946-1951), e Osvaldo Aranha, terminado seu mandato na ONU, ficou mais ou menos no ostracismo, aliás, ingrato, pois que seus relevantes serviços, às Nações Unidas, além dos prestados ao Brasil, especialmente, deveriam tê-lo colocado em situação especial nas novas administrações brasileiras. Com o nôvo govêrlto Getúlio Vargas (l951-'1954), Osvaldo Aranha foi convidado a colaborar no Ministério da Fazenda, estabelecendo, então, nova política cambial que vigora ainda.

Com a morte de Getúlio Vargas, na manhã de 24 de agôsto de 1954, Osvaldo Aranha, desgostoso e um tanto desiludido, não mais aceitou encargos políticos, permanecendo numa semi-obscuridade de onde irradiava as luzes de seu saber, de sua cultura social e politica, fora do burburinho oficial.

Ainda por ocasião da campanha presidencial da República, sendo candidatos Juscelino Kubitschek de Oliveira e o Marechal Teixeira Lott, foi o nome de Osvaldo Aranha lembrado para aeompanhar Teixeira Lott como seu vice-presidente. Não aceitou, apesar de ter sido o candidato seu companheiro dos velhos tempos do Colégio Militar.

Osvaldo Aranha foi um gaúcho completo: irradiante de simpatia, de bondade extrema, era franco acima de tudo. Seu grande orgulho era dizer-se gaúcho. Amigo de seus amigos, dedicadíssimo, jamais abandonou aquêles que o procuravam como amigo e conselheiro.

Gostava imensamente de cavalos e uma de suas distrações prediletas, na falta dos pingos em campo aberto e em carreiras de cancha reta, era o Hipódromo da Gávea. Ali, sempre de cigarro entre os lábios, passava as horas de lazer dos sábados e domingos.

Figura de marcada projeção nacional e internacional, política, social e diplomática, Osvaldo Aranha permanecerá como figura das mais brilhantes e límpidas da História Política Nacional e do Rio Grande do Sul.

Desde os bancos escolares foi um dedicado defensor da paz e sempre acreditou na vitória da paz no mundo pela ampliação dos regimes de liberdade. Orador de fibra, pensador político e social, Osvaldo Aranha é, hoje, não apenas uma glória nacional, mas internacional que o povo de Israel admira e venera com justiça e gratidão.

Gaúcho de alma aberta e coração enorme, tão grande quanto o próprio Rio Grande do Sul, seu nome jamais será consumido pelo tempo.

Origem: Material recolhido do livro Construtores do Rio Grande, autoria de Walter Spalding. Livraria Sulina Editora, 1969.

Publicado em 29/05/2001.

Re-editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.