Onofre Pires

Significação histórica

Combateu com o Regimento de Cavalaria de Milícias de Porto Alegre pela Integridade do Rio Grande do Sul, nas guerras contra Artigas, em 1816 e 1821 e pela do Brasil, na Guerra Cisplatina 1825-28.

Na Revolução Farroupilha foi dos mais ativos e atuantes coronéis. Coube-lhe comandar as forças que deram inicio à Revolução Farroupilha na noite de 19 de setembro de 1835, com o vitorioso encontro da Ponte da Azenha que criou condições para a conquista de Porto Alegre, em 20 de setembro de 1835, com a entrada nela do lider politico-militar da revolução, e seu primo, coronel Bento Gonçalves da Silvá.

Quis o destino que Onofre Pires viesse a morrer, em 3 de março de 1844, há um ano do término da Revolução, vítima de um ferimento no antebraço direito que recebeu de Bento Gonçalves, durante o duelo que travaram no Acampamento do Exército, nas margens do rio Sarandi, em 27 de fevereiro de 1844, em Topador, em Santana do Livramento. De temperamento singular e, em conseqüência dele, Onofre Pires envolveu-se em diversas questões rumorosas como se verá, que se refletiram negativamente na imagem, no curso e na unidade do movimento revolucionário farrapo e no seu próprio fim, trágico e solitário.

Naturalidade, ascendência e perfil militar

Onofre Pires nasceu em Porto Alegre, em 25 de setembro de 1799 e faleceu com 43 anos. Era neto do capitão-mor José Francisco Silveira Casado.

Seu perfil foi traçado por Caldeira que com ele privou em diversas ocasiões:

"Desde que apareceu na revolução, foi comandando forças... Era um homem muito corpulento. Era dado à leitura. Possuía poucos amigos. Tratava a todos de - meu caro! Era muito risonho quando conversava com quem a ele se dirigia. E não fazia boas ausências (fazia críticas às pessoas) depois que se retiravam de sua presença. Possuía idéias claras. Era muito inteligente. Como guerreiro nada deixava a desejar. Ele sabia incutir às massas o seu ânimo. Não cedia o seu posto a qualquer oficial. Na ocasião do perigo era ousado na frente do inimigo. No ataque a Rio Pardo, um soldado de Infantaria fez-lhe pontaria e Onofre foi sobre o infante e disse: Se atiras morres! O infante então baixou a arma e Onofre desfechou-lhe um golpe de espada. Ele comprometia a vida para salvá-la. Era rancoroso e vingativo!"

Noutro depoimento escrito prestado por Caldeira a Alfredo Varela, assim escreveu sobre Onofre Pires com quem fugiu do Rio e privou várias vezes. Transcrevo o que não foi dito no primeiro depoimento:

"Onofre era bem apessoado. Era um dos homens mais altos que havia em nossas fileiras. Ele tinha princípios militares. Era um dos oficiais de mais valor que havia na revolução. Como coronel, comandou a Divisão (do Centro) e sempre foi muito atento com as pessoas que lhe queriam falar. E conta-se o caso de uma senhora que chorava pela liberdade do marido que era um espião e que recebeu esta resposta de Onofre:

- Prefiro ver correr as suas lágrimas do que correr o sangue dos meus patrícios. Se o seu marido justificar-se ele será solto. E arremata: Este bravo coronel tinha contra si o mau hábito de criticar as pessoas que com ele falavam pela primeira vez, depois que lhes davam as costas, fossem elas quem fossem. E tinha bons livros e dava-se à leitura."

Caldeira refere a desabafo de Bento Gonçalves na fazenda do Cristal, em razão de Onofre Pires, comandante da Divisão Centro, encarregado do sitio de Porto Alegre, resistir a acatar suas ordens depois que chegou ao Rio Grande, após evadir-se de prisão na Bahia.

Refere que Onofre Pires ao requisitar artigos de casas comerciais de Rio Pardo, por ordem de Bento Manuel, assinou alguns recibos. Assim, mais tarde, quando livrou-se pela segunda vez de prisão no Rio, teve que saldá-las com os seus recursos.

Principais ações

Onofre Pires, em 19/20 de setembro de 1835 liderou a conquista de Porto Alegre com tropa de Guardas Nacionais que mobilizou em Porto Alegre, Gravataí e Osório atuais.

A seguir, comandando a Divisão do Norte, atuou sobre São José do Norte, concorrendo para que Presidente Braga, deposto, viajasse para o Rio de janeiro e para a libertação de Domingos José de Almeida, preso naquele local, fazia 17 dias.

Mais tarde, quando houve a contrarevolução, Onofre iria ligar-se a um triste episódio em Mostardas, em 22 de abril de 1836 que irá macular a revolução.

Segundo, ainda, Caldeira "Depois que Onofre derrotou a força de Juca Ourives, mandou fuzilar uns prisioneiros. Ele não soube impor sua posição de Chefe. Deu ouvidos aos inimigos daqueles infelizes que estavam em linha, esperando a morte. Antonio Pedro em nome da tropa pedia a cabeça deles. Onofre foi fraco e mandou fuzilar obedecendo à imposição dos cidadãos que ele, com sua voz e a sua espada em mãos, levou-os ao combate. A História o julgará!"

Neste combate pereceu o capitão Francisco Pinto Bandeira, nódoa para a causa farrapa, segundo Domingos José de Almeida.

Segundo Arthur Ferreira Filho "neste combate, em 22 de abril de 1836, Onofre Pires venceu e fuzilou prisioneiros, inclusive, o capitão Francisco Pinto Bandeira", este seguramente sobrinho do brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, "a primeira espada continentina". Era mais um golpe para os Pinto Bandeira, pois três meses antes em sua fazenda, no rio dos Sinos fora assassinado o único neto varão de Rafael Pinto Bandeira, chamado Diogo. Foi assassinado em 26 de janeiro de 1836, junto com seu pai, o baiano coronel Vicente Ferrer da Silva Freire por uma escolta ao comando do capitão Manoel Vieira da Rocha - o célebre Cabo Rocha do combate da Azenda. Segundo interpretações dominantes, os criminosos fugiram ao controle do Cabo Rocha.

Segundo, ainda, Arthur Ferreira Filho, autoridade em revoluções do Rio Grande do Sul e veterano da de 1923, estes crimes e outros praticados pelos imperiais "eram conseqüência do mau costume, repetido em todas as guerras civis, de confiar comandos a indivíduos fascinorosos, ignorantes e irresponsáveis. Lamentavelmente, em todas nossas revoluções têm sido entregues a bandidos, boçais alguns, outros com instrução, comandos que desonram".

Do lado farrapo a maior vítima foi o general João Manoel de Lima e Silva, assassinado em São Borja, em 29 de agosto de 1837.

Fernando Luiz Osório ao contar a história de seu pai, assim narra o fuzilamento do capitão Francisco Pinto Bandeira:

"Quase ao mesmo tempo que se dava a tomada de Pelotas 7/8 de abril de 1836, em 9 de abril o capitão legalista Francisco Pinto Bandeira surpreendeu a noite a guarnição de Torres. Sem disparar um tiro apoderou-se do armamento e munições e capturou os soldados bem como os chefes que os comandavam. Seguiu e fez junção com Juca Ourives. Após seguiram em marcha em defesa da vila de São José do Norte sitiada pelo coronel Onofre Pires. Este avisado saiu-lhes ao encontro. Tomou boa posição e o derrotou completamente em 22 de abril. O combate fora encarniçado. Onofre Pires operou prodígios de valor. Juca Ourives conseguiu escapar com poucos homens. Trinta ficaram mortos. Depois da vitória Onofre Pires mandou fuzilar 12 prisioneiros inermes por vinganças particulares. Este fato mereceu censura do Partido Republicano.

Pinto Bandeira caindo aos pés de Onofre Pires pediu que sua vida fosse poupada pois era casado e pai de 11 filhos. Onofre Pires retorquiu-lhe:

- Não seja covarde, morra ao menos como bom brasileiro. E foi morto."

Negou assim Onofre Pires a tradição de firmeza e doçura. Foi firme mas impiedoso. Não respeitou a vida, a honra, a reputação e a família do vencido que pertencia ao ramo dos legendários Rafael Pinto Bandeira, a primeira espada continentina ao qual muito deve o Rio Grande a definição de seu destino brasileiro, em 1776, por força das armas.

Em outubro de 1836 Onofre Pires foi preso na ilha do Fanfa, junto com Bento Gonçalves e o cabo Rocha morreu na açâo. Bento aí, segundo Caldeira, criticou severamente Onofre pela situação, por ter com sua opinião pesado no Conselho de Guerra do qual resultou o desastre.

Desde então, Bento e Onofre entraram em linha de colisão por esta desinteligência. Onofre esteve preso na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio, de onde fugiu em 4 de março de 1837, depois de cerca de 4 meses de prisão.

Segundo Caldeira, testemunha ocular da fuga, Onofre Pires ao fugir da prisão atirou-se ao mar com auxílio de 4 bexigas de boi para ajudá-lo a flutuar. Delas, 3 foram furadas por peixes, restando uma que ele segurava numa das mãos, enquanto com a outra deslocava água.

Onofre Pires no combate de Rio Pardo, de 30 de abril de 1838, comandou a Divisão que atacou o flanco esquerdo imperial. Ao final foi encarregado de chefiar Comissão de Requisição de mercadorias pertencentes a imperiais (ou dissidentes), segundo lista que lhe foi entregue pelo coronel Bento Manuel.

Segundo ainda Caldeira testemunha, Onofre não querendo passar por saqueador, assinava recibos dizendo que assim agia de ordem de Bento Manuel Ribeiro.

Em 25 de março de 1840, pouco antes do combate de Rio Pardo, ele foi preso junto com o coronel Manoel Lucas de Oliveira, perto da Quinta do Bibiano, margem direita do Jacuí, junto com 60 infantes, 4 carretas de fazendas, 2 peças de Artilharia e munição.

Acredito tenha sido resgatado por troca de prisioneiros. Como fez despesas na prisão, exigiu indenizaçôes das mesmas ao governo.

Em 16 de julho de 1840 tomou parte no mais renhido e sangrento combate - o de São José do Norte. Combate que se constituiu no ponto de inflexão das esperanças de vitória dos republicanos, para o de descrença.

Acenos de paz

Decorrido um mês, em 17 de agosto de 1840, depois de declarada a maioridade de D. Pedro ll, este concitou os revolucionários a deporem armas. A paz não foi obtida. Militarmente as coisas andavam críticas para a Revolução. Mas a oferta de paz pelo Imperador e o vácuo de poder que ele preencheu desde a abdicação do pai, veio constituir-se num grande golpe ao ânimo farrapo.

Um dos obstáculos à paz foi a recusa de libertação dos negros que lutaram pela República, o que segundo Morivalde Calvet Fagundes, provocou a seguinte reação no mineiro Ulhoa Cintral em protesto:

"Homens que ombrearam conosco em defesa da Liberdade, não podem voltar ao cativeiro."

Antes de se encerrarem as negociações de paz, em li de dezembro de 1840, os revolucionários sofreram rude golpe estratégico. Foram obrigados a levantar o sitio de Porto Alegre. Ao penetrar a Divisão da Serra no Rio Grande, a partir de Santa Catarina e ao comando do general Labatut, Canabarro foi enviado a seu encalço com reforços do sitio de Porto Alegre. Percebida a fraqueza do sítio, ele foi forçado a ser levantado em definitivo, em 23 de novembro de 1840, depois de estabelecido em 14 de junho de 1838.

Eram finalidade estratégicas do sitio entre outras de fixar em Porto Alegre numerosos efetivos imperiais e, através da espionagem, descobrir os planos dos imperiais e controlar o litoral, Cima da Serra e manter comunicações com Santa Catarina e São Paulo.

Em dezembro de 1840, Domingos José de Almeida previu a situação crítica com esta estimativa confirmada:

Só o braço de Deus terá poder de sustentar o edifício que pende para o lado."

Onofre Pires na oposição

Dentro de um quadro bastante adverso à República, ela foi instalar-se em Alegrete. Em 9 de novembro de 1842 assumiu a Presidência do Rio Grande e o Comando-des-Armas, o futuro Duque de Caxias. Logo em seguida instala-se, em 1o de dezembro, a Assembléia Constituinte da República Rio-Grandense, em Alegrete. Da minoria opositora, 1/6 dos constituintes, fez parte o deputado Onofre Pires. Foram realizadas reuniões turbulentas, só interrompidas em 10 de fevereiro de 1843, quando Caxias atuou contra Alegrete. Sete dias antes Antonio Paulino da Fontoura, personagem muito controvertida e um dos vice-presidentes da República, foi atacado, vindo a falecer no dia 13 de fevereiro. Antes de morrer declarou saber quem o mandara matar e o perdoava. Seu parente Antonio Vicente da Fontoura e líder da minoria oposicionista atribuiu o crime a um marido ciumento.

Onofre Pires ao que parece passou a tentar mesmo arrasar Bento Gonçalves no seio da tropa, acusando-o, inclusive, de mandar matar Antônio Paulino, como era seu costume arrasar as pessoas em suas ausências.

A oposição foi num crescendo e Bento Gonçalves, alegando doença passou a Presidência a Gomes jardim e o Comando-em-Chefe do Exército a Canabarro, junto aos quais deixou seu amigo, coronel José Mariano de Mattos. A oposição a que Onofre Pires pertencia, em 17 de fevereiro de 1843, firmou humilhantes referências a Bento Conçalves. Este quadro agravou-se ainda mais com a adesão pela segunda vez, ao Império, de Bento Manuel, depois de dois anos de neutralidade. Isto acelerou ainda mais "a queda do edifício" da República.

Duelo Bento Gonçalves x Onofre

Decorrido um ano da morte de Antonio Paulino, o Exército acampou em Topador atual nas pontas do Sarandi, próximo a Santaáa, atual. Onofre Pires falava abertamente tudo o que sentia em relação a Bento Gonçalves e no seio da tropa.

Bento em carta pediu que Onofre confirmasse ou não, por escrito, as acusações ofensivas à sua honra feitas em presença de terceiros. Onofre logo respondeu no outro dia confirmando, abrindo mão de suas imunidades parlamentares e colocando-se à disposição de Bento no local que este saberia encontrá-lo. Isto equivalia a um duelo, hipótese desejada por Onofre Pires que levava grande vantagem no seu porte atlético e com menos 10 anos de idade (44 x 54 anos).

Bento Gonçalves procurou Onofre Pires e o desafiou para o duelo. Juntos afastaram-se meia légua - dia 27 de fevereiro de 1844.

Chegando ao local, entre outras trocas de palavras, Bento falou a Onofre que não tinha mandado matar Paulino da Fontoura. E se tivesse necessidade tería recorrido a um duelo como agora faria com ele.

Mesmo antes do duelo, Bento já dominava com seu carisma, o temperamental primo que ali servia de instrumento de terceiros, talvez até inconscientemente.

Iniciado o combate, Bento atingiu Onofre no antebraço direito o que interrompeu o duelo. O fato sem testemunhas tem provocado diversas versões.

Sobre esta, escreveu mais tarde o brigadeiro imperial José Gomes Portinho que fora destacado líder militar farrapo e insuspeito por amigo e cunhado de Antônio Vicente da Fontoura.

"Onofre foi ferido no braço direito. O mesmo Bento Gonçalves tratou da ferida, atando-a com seu próprio lenço, sendo Onofre conduzido para o campo e dai a sua casa (barraca) onde morreu passados dois dias. E isto por falta de médico. Não havia."

Outro farrapo diz que "ficou um lanceiro cuidando de Onofre Pires e Bento foi buscar recursos".

Ambos o dão como morto em 1o de março, dois dias depois. Antônio Vicente da Fontoura registrou dia 3 de março, ou quatro dias depois e de gangrena e que Bento foi preso por Canabarro.

Bento Gonçalves em carta a Domingos José de Almeida, de 9 de março de 1844 escreveu:

"Já meu compadre saberá do fim desastroso que teve o coronel Onofre que fazia o papel de general Santérre na facção desorganizadora, que o incitou a provocar-me tão atrevidamente. Ela contava com a vitória, porque olha para as coisas como lhe parecem, e não como são de fato. A paixão os domina e, por isso, vendo aquele homem tão corpulento, o julgaram um gigante e eu um pigmeu.

- Enganaram-se e, depois escondendo todos o rabo, se retiraram dele, ao ponto de não achar-se um só desses malvados a seu lado, ao menos na hora da morte. Que malvadeza! Eu lamento sua sorte, mas não tenho o menor remorso, porque obrei como verdadeiro homem de honra. Em tais casos, obrarei sempre assim, nio me importando com o tamanho, e nem a nomeada (fama) da pessoa que se atreva a atacar a minha honra."

E assim teve fim Onofre Pires, cujos restos mortais devem estar em algum lugar nas pontas do Sarandi, atual Topador em Santana.

É uma vida que merece reflexão.

Caxias por ocasião do duelo marchava de Alegrete, para Santana, conforme suas ordens-do-dia.

Onofre falecia quase oito anos depois do rumoroso fuzilamento que ordenou em Mostardas, no qual foi vitima ilustre o capitão Francisco Pinto Bandeira. Seria a confirmação do ditado popular - Quem com ferro fere, com ferro será ferido?

Onofre Pires fez parte da minoria opositora (cerca de um 1/6) a Bento Gonçalves, na Assembléia Constituinte da República Rio-Grandense, em Alegrete. Seu perfil moral parece não ter feito honra a oposição que integrou e o usou como instrumento contra Bento Gonçalves, em momento critico da Revolução.

Origem:

Esta biografia foi extraída do volume I de 'O exército farrapo e os seus chefes', extensa obra em dois volumes confeccionada pelo historiador militar e Coronel Cláudio Moreira Bento. O site do pesquisador pode ser acessado em: pt.wikipedia.org/wiki/Cláudio_Bento

Publicado em 22/01/2002.

Re-editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.