Júlio Prates de Castilhos

Matriculando-se no Colégio Fernando Gomes, dirigido pelo Prof. Fernando Ferreira Gomes, após os estudos iniciados em casa, sob os auspícios da Professôra dona Francisca Carolina Miller Wellington, em 1865, contando, pois, apenas cinco anos incompletos de idade, terminou, naquele Colégio, seus preparatórios, conforme no-lo afirma João Daudt Filho, que fôra seu colega e amigo:

'Ali (no Colégio Fernando Gomes) encontrei o meu amigo Júlio de Castilhos, já veterano Tinha êle o apelido de Pato, segundouns, porque, quando banhava o rosto, espalhava água por todos os lados, como os patos ao bater as asas saindo da lagoa; segundooutros, porque era baixo, esparramado e caminhava gingando. Nos colégios, qualquer gesto ou qualquer palavra mal empregada serve às vêzes de apelido para o resto da vida. Júlio era considerado um dos melhores alunos. Continuava, porém, gago do mesmo modo a ponto de não poder responder às perguntas por ,ocasião dos exames de preparatórios na Instrução Pública. Causava pena ver o esfôrço que fazia para articular qualquer palavra. Não conseguia responder coisa alguma do ponto oral. Suas provas escritas e a boa fama de ótimo estudante lhe valeram as melhores notas, podendo assim ser aprovado, e sempre plenamente'. (Memórias de João Daudt Filho, Rio de Janeiro, 1949).

Esse defeito, a gaguice, que o acompanhou, fê-lo ficar um tanto arredio e preparou nêle, como um desrecalque, como hoje diríamos, as atitudes ditatoriais que assumiria, nas questões públicas, dos bancos acadêmicos ao final de sua vida.

Júlio de Castilhos, na intimidade do lar e entre amigos, era de uma bondade extraordinária, mas sumamente reservado em público, e imensamente autoritário, mau e vingativo em matéria política. Mas foi, sempre, um destemido. Mesmo cercado de inimigos saía à rua, sozinho, em visita a amigos e correligionários, na rua General Câmara ou na Rua dos Andradas, para palestrar e tomar chimarrão. Se saia só do palácio, ao voltar, estava sempre acompanhado de dezenas de pessoas, pois quantos, correligionários e membros da pública administração, o viam, dêle se acercavam e só o largavam nas portas do palácio. Isso, muitas vêzes, o irritava também. Aquêle aulicismo, aliás por êle mesmo impôsto, não o agradava muito, entretanto, afora o de amigos reais, como Aurélio Veríssimo de Bittencourt, seu secretário e confidente. Carlos Reverbel, numa série de artigos pelo Correio do Povo, folhetins de sumo interesse, transcreveu grande parte da correspondência particular entre Júlio de Castilhos e seu amigo e secretário Aurélio Veríssimo de Bittencourt. E ainda prova de sua índole aliciadora, procurando entendimentos que politicamente lhe dessem vantagens, foram as entrevistas quase secretas que manteve com chefes oposicionistas, em particular a que se realizou entre êle e Silveira Martins, conforme no-lo conta Antônio Lourenço (Correio do Povo, de l3/XII/1967): 'Homem cauteloso e avêsso a zumbaias e popularidades, (. ..) procurou cercar do máximo sigilo a quase ignorada conferência que manteve com o famoso orador, no escritório do jornal A Federação. (... ) Antes de encerrar-se, dirigiu-se êste (Castilhos) a meu pai (Agostinho José Uurenço, alto funcionário da redação de A Federação, que era, então, simples auxiliar da gerência, recomendando-lhe: - Não deixe ninguém se aproximar. E após duas horas de conversa, ao retirar-se Silveira Martins, Castilhos lhe dissera ao despedir-se, e foi só o que se soube da secreta entrevista, - Com efeito! Há mais de duas horas que estamos conversando, e parece-me há meia hora! Entretanto, segundo depoimento oral que nos forneceu o Prof. Dr. Leonardo Macedônia, as entrevistas com chefes políticos eram feitas, no geral, em sua residência particular, à noite, ficando, sempre, êle, Júlio de Castilhos na sombra, com a luz incidindo sôbre a fisionomia do visitante, de modo que pudesse ver, sem serem vistas as suas, tôdas as expressões fisionômicas do consulente, ou do chefe político que mandara chamar, e estudar-lhe, através dessas mudanças, os sentimentos, psicologicamente, para o que tinha uma tendência tôda privilegiada. Não consta caso de se ter enganado com seus partidários nas chefias municipais do partido e nas administrações municipais.

Inteligente, muito culto, mas cultura tôda baseada nos princípios filosóficos, sociais e políticos de Augusto Comte, cuja doutrina praticava com ardor, Júlio de Castilhos foi, na realidade, o grande dominador, o condutor de tôda a jovem guarda republicana do Rio Grande do Sul, durante alguns anos, e desde os bancos acadêmicos, embora sua atuação no Clube Acadêmico Republicano, não tivesse sido, aparentemente, através das atas, das brilhantes. Mais do que êle, lá se destacaram, dentre os gaúchos, Assis Brasil, João Jacinto de Mendonça, Joaquim Pereira da Costa, Homero Batista, Gonçalves Chagas e poucos mais, quer nos trabalhos, quer nas discussões, quer nas teses apresentadas e defendidas. Era seu espírito calado, subtil, maneiroso, e sua palavra persuasiva, embora difícil pela dicção falha devido à gagueira, que o dominava, que encantava os companheiros e colegas que jamais lhe regatearam a primasia no comando da propaganda.

Alguns, é bem verdade, alheios ao positivismo, mais tarde com êle romperam, mais por discordâncias ideológicas em matéria filosófica e que haviam infundido em Castilhos aquêles ímpetos ditatoriais que, aliás, lhe eram inatos e já se haviam manifestado mais amiúde nos Congressos Republicanos, após sua formatura, em 1881 (outubro), conforme a Lista Geral dos Bacharéis e Doutores Formados pela Faculdade de Direito de São Paulo até 1900, organizada pelo Bacharel Júlio Joaquim Maia (s,/imp., s/l.,em data, possivelmente separata da revista ou dos Anais da mesma Faculdade).

O que sobremodo destacou a atuação de Júlio de Castilhos foi a imprensa, ensaiada timidamente em São Paulo, e com vigor e entusiasmo em Pôrto Alegre, em A Federação, criada após a Convenção Republicana de 23 de fevereiro de 1882, publicada em folheto, e efetivada no Congresso Republicano de 1883, com regulamento, e fundada a 1 de janeiro de 1884.

Foi aí que exerceu sua máxima pregação doutrinária, empregando todo o seu prestígio pessoal de cidadão honesto e sério, na propaganda da República, e na difusão e defesa do Partido Republicano Rio-Grandense, o PRR, também conhecido por Partido Republicano Castilhista, após a sua morte.

Júlio de Castilhos jamais se abateu. Proclamada a República, cujo ponto culminante, anterior, foi a famosa Questão Militar, por êle habilmente explorada e difundida (l886) e que, na realidade, foi o golpe fatal no império, Castilhos não poupou esforços no sentido da solidificação da República, no Rio Grande do Sul, desde o primeiro instante. Por isso, nada quis e tudo fêz para que a presidência do Estado recaísse sôbre um nome de alto prestígio. O Visconde de Pelotas foi nomeado pelo Govêrno Provisório, dizem que por indicação de Castilhos, Assis Brasil, Cassal e outros, mas na realidade em virtude do próprio prestígio do Visconde que defendera os militares no Senado, na famosa Questão Militar, violentamente, desafiando o próprio Ministro da Guerra. A êle telegrafara Rui Barbosa na tarde do dia 15 de novembro de 1889, concitando-o a tomar conta do govêrno porque, dizia, se o Rio Grande não aderir, a República está perdida (conforme original no Arquivo da Família do Visconde de Pelotas).

Mas, desde logo discordaram: Pelotas era federalista-parlamentarista e Castilhos presidencialista. O pretexto foi a nomeação desejada por Pelotas de um amigo e companheiro de idéias - Achylles Pôrto Alegre, que o grupo de Júlio de Castilhos (e êle próprio) não toleravam, conforme se verifica do Manifesto publicado logo após o afastamento, por renúncia, do Visconde de Pelotas (Veja: Walter Spalding - Pelotas, Achylles e Castilhos, in: Correio do Povo, de 1 de janeiro, de 1966).

Organizada a administração política federal, foi Castilhos eleito deputado à Constituinte Nacional, onde procurou influir sobremodo na confecção da Carta Magna, mas sem maiores êxitos. Os próprios companheiros se lhe opuseram, em parte. De regresso ao Rio Grande do Sul, eleito para a constituinte gaúcha, assumiu a chefia integral e única do movimento, escrevendo integralmente o projeto, que defendeu com unhas e dentes, cooperado pelos companheiros irrestritos, cuja maioria assinava sem discutir o que Castilhos apresentava. Foi a Constituição aprovada e promulgada a 14 de julho de 1891. Durante os trabalhos da constituinte, romperam com Castilhos alguns dos velhos companheiros desde os bancos acadêmicos, como Barros Cassal e Assis Brasil, por discordarem dêle e não terem sido ouvidos por influência de Castilhos.

O golpe de estado vibrado por Deodoro da Fonseca a 3 de novembro do mesmo ano, já Castilhos, na conformidade da Constituição de 14 de julho, empossado por decisão da Assembléia na Presidência do Estado, revolucionou por completo a política sul-rio-grandense. Castilhos, que a princípio parecia opor-se ao golpe, de logo apoiou-o, resultando, daí, a manifestação que o depôs do govêrno, ou melhor: o obrigou a demitir-se do cargo, entregando o govêrno a uma junta composta de Assis Brasil, Barros Cassal e General Domingos Alves Barreto Leite. Aliás, o descontentamento da ala não positivista e federalista parlamentarista, desde os desentendimentos de Castilhos com Pelotas e que obrigaram a êste demitir-se, se vinha manifestando com certo vigor, principalmente na imprensa. A atitude, real ou aparente, de Castilhos na defesa do golpe de estado de Deodoro, nada mais foi do que o extravasamento dos sentimentos políticos contrários, vivos, mas mais ou menos contidos.

Deposto, Castilhos não se entregou: fêz de A Federação a sua tribuna, conspirando por todos os modos, até preparando uma revolução, conforme se verifica de documentos no Arquivo Histórico do Estado, alguns dos quais publicados no Almanaque do Globo (Pôrto Alegre). E dessa forma conseguiu, a 17 de junho de 1892, ser reposto no govêrno que, entretanto, inteligente e esperto, de logo renunciou entregando-o ao Vice-Presidente que, na conformidade da Constituição, acabava de nomear, o Dr. Vitorino Ribeiro Carneiro Monteiro. É, porém, eleito pelo voto universal e empossado solenemente a 25 de janeiro de 1893.

Contra tôdas essas tramas do Partido Republicano Castilhista, insurgem-se os federalistas chefiados por Gaspar da Silveira Martins. E rebenta a Revolução de 1893, que somente terminaria em 1895, pela paz de Pelotas, conseguida pelo General Galvão de Queirós, contra a vontade do castilhismo que queria que os revolucionários fôssem totalmente destruidos a ferro e fogo. O que foi essa violenta, sangrenta e vingativa revolução, no-lo dizem os cronistas e historiadores: General Bernardino Bormann (Dias Fratricidas, Curitiba, 1901), Antônio Augusto de Carvalho (Apontamentos Sôbre a Revolução do Rio Grande do Sul, Montevidéu, 1895), Albino José Ferreira Coutinho (A Marcha da Divisão do Norte, Pôrto Alegre, 1896), Angelo Dourado (Os Voluntários do Martírio, Pelotas, 1895), Wenceslau Escobar (principalmente Apontamentos Para a História da Revolução Rio-Grandense de 1893, Pôrto Alegre, 1920), Epaminondas Vilalba (A Revolta Federalista no Rio Grande do Sul - Documentos e comentários, Rio de Janeiro, 1897), e alguns mais, que seria longo enumerar.

Castilhos, durante todo o movimento, agiu sempre com altivez, firmeza e dureza. Não admitiu trégua ao inimigo. Nem trégua, nem perdão.

Mas, feita a paz, em 1895, Castilhos, terminado seu mandato em 1897, na presidência do Estado, entregou-o ao Dr. Antônio Augusto Borges de Medeiros, e voltou para sua tribuna A Federação, assumindo, ao mesmo tempo, a chefia absoluta do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR), que somente terminou com a implantação do Estado Nôvo, em 1937, embora já desde 1930 depois da revolução, deixasse, praticamente, de existir.

Júlio de Castilhos foi, sobretudo, um forte.

Nasceu na Fazenda (ou Estância) da Reserva, em Vila Rica (hoje município de Júlio de Castilhos), a 29 de junho de 1860, conforme consta do Registro de nascimento, filho legítimo de Francisco Ferreira de Castilho, natural de Santo Antônio da Patrulha, e dona Carolina Prates de Castilho, natural de Caçapava. Ao nome foi acrescentado um s, talvez pelo próprio Francisco Ferreira, de vez que já nos atestados de 1865 figura seu nome Castilhos, com o s e todos os filhos o usaram.

Faleceu môço ainda, 43 anos incompletos, vitimado por um mal da garganta (sempre a garganta: a gagueira e, por firn, a morte), durante a operação a que se submeteu, sendo médico Dr. Protásio Alves, com vários assistentes, às seis horas da tarde do dia 24 de outubro de 1903.

Conta-nos o Dr. Poty Medeiros, ex-deputado estadual, Ministro do Tríbunal de Contas do Estado, em seu discurso por ocasião do centenário do nascimento do Dr. Júlio de Castilhos que êste, antes de dirigir-se para a mesa operatória, beijara a espôsa e os filhos e a uma das filhas dissera: - Filha, sê como a tua mãe... E dirigindo-se ao local, ouvira do médico a palavra - coragem! - ao que respondeu de imediato: Não preciso de coragem, é de ar que eu preciso, perguntando a seguir - Quem me cloroformiza? - Recebido o nome, disse, deitando-se: Bem, estou tranqüilo. E tranqüilamente morria, instantes depois de operado, antes mesmo de voltar a si do sono em que fôra imerso pela ação do anestésico.

Seu sepultamento, no dia seguinte, foi assistido pela população em pêso da capital. Até mesmo seus antigos adversários, em grande parte, compareceram.

Seu túmulo é uma das obras de arte, em bronze, pleno de simbolismo positivista, como o monumento que lhe foi erguido, inaugurado em Pôrto Alegre, na Praça Marechal Deodoro, em 1914, obra do escultor Décio Vilares.

Além dêste grande monumento, existe ainda, no Museu Júlio de Castilhos, entregue pela Prefeitura Municipal onde antes estava, a Máscara Mortuária, tirada antes do sepultamento, conforme se verifica da seguinte notícia do Correio do Povo, de 27 de outubro de 1903: No palacete de residência do Dr. Júlio de Castilhos, antes do saimento fúnebre, o pintor Romualdo Pratti lembrou ao Dr. Borges de Medeiros a conveniência de ser tirada a máscara em gesso do ilustre morto. Obtida a necessária licença da família, foi executada a tarefa pelo Sr. Romualdo Pratti e pelos escultores Pellini e J. Aloys Friederich. Essa máscara, que é de uma perfeição admirável, foi ontem oferecida ao Presidente do Estado para figurar no Museu Estadual. Entretanto, embora já existisse o Museu desde 1901, a máscara, que tinha um brilhante na orelha direita, ficou até 1940, sob redoma, na Prefeitura Municipal, e somente nesse ano foi entregue ao Museu.

Origem: Material recolhido do livro Construtores do Rio Grande, autoria de Walter Spalding. Livraria Sulina Editora, 1969.

Publicado por Roberto Cohen em 29/05/2001.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.