Personagens Dante de Laytano
 


Caderno de Cultura
jornal Zero Hora - 19/02/2000

Dante de Laytano (1908-2000)

Larissa Roso/Especial-ZH

O Rio Grande do Sul perdeu ontem um dos seus maiores folcloristas do século XX. Morreu às 8h, em Porto Alegre, vítima de insuficiência cardíaca, o historiador gaúcho Dante de Laytano. O presidente Fernando Henrique Cardoso lamentou a morte do pesquisador, lembrando que ele exerceu forte influência em seus estudos sobre a escravidão no Rio Grande (leia noutro quadro).

Laytano estava internado no Hospital da Ulbra havia 15 dias, com edema pulmonar. Foi velado no Salão Glênio Peres da Câmara Municipal de Vereadores e sepultado no Cemitério São Miguel e Almas no final da tarde de ontem.

O descendente de imigrantes italianos de Morano Cálabro nasceu em Porto Alegre em 23 de março de 1908. Notabilizou-se como cronista, historiador, folclorista e ensaísta, publicando inúmeros títulos sobre aspectos da história, cultura, literatua e culinária. Aos 17 anos, já era crítico de cinema.

Depois, estudou e formou-se em Direito. Na vida acadêmica, prosseguiu como professor de História, Literatura e Filosofia. Na Universidade do RIo Grande do Sul (UFRGS), Laytano teve marcante atuação junto a Associação de Ex-Alunos.

Foi presidente da Comissão de História e recebeu o título de Professor Emérito da universidade, em 1991, empenhando-se no resgate de documentos históricos.

A mesma nomeação foi concedida pela Pontifícia Universidade Católica, onde destacou-se pela criação da disciplina de História da América.

Laytano foi o primeiro diretor-presidente de Zero-Hora e durante muitos anos colaborou como articulista no jornal.

Seu primeiro casamento foi com Ilha de Almeida, de uma ilustre família de Rio Pardo, em 1936, mesmo ano em que ingresou como membro do Instituto Histórigo e Geográfico do Rio Grande do Sul. A carreira do historiador junto a entidades ligadas à cultura gaúcha foi notável, projetando-se para atuações de âmbito nacional - passou pelos cargos de diretor do Museu Júlio de Castilhos, presidente da Academia Rio-grandense de Letras, da Academia Brasileira de História e da Comissão Nacional do Folclore. Laytano brincava com os amigos que exercia apenas atividades não-remuneradas, faltando-lhe o convite para assumir a gerência de um banco.

O historiador lecionava no Colégio Júio de Castilhos à época do surgimento do movimento tradicionalista na escola, nos anos 40. O folclorista Paixão Côrtes relembra o professor Laytano como um grande incentivador do espírito regionalista entre os jovens. Em 1949, Laytano traria para o Estado a 3a Semana de Folclore, onde estudiosos do país teriam a chance de conhecer as tradições gaúchas.

Laytano presidia atualmente a Comissão das Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco-Ibec) no Rio Grande do Sul, instituída em 1958. Nos últimos anos, mencionou várias vezes a vontade de deixar a instituição, mas foi demovida da idéia pelos companheiros. A comissão gaúcha, afirmavam os colegas, não seria mesma sem ele.

Dante conheceu a portuguesa Teresa de Jesus em viagem à Europa. Algum tempo depois, ela viria para o Brasil para servir de governanta ao casal, um palacete rosa no início da Avenida Carlos Gomes. Lembrada pelos amigos da família como habilidosa cozinheira, Teresa viria a ser a segunda esposa de Laytano depois da morte de Ilha. O historiador vinha sofrendo de problemas respiratórios havia mais de um ano e realizava viagens terapeuticas ao Litoral, à Serra e às Missões.


Laytano consagrou-se como um dos mais
destacados intelectuais gaúchos de sua geração
banco de dados/ZH

Repercussão

"Eu tinha uma imensa admiração pelo Dante. Ele foi um intelectual de grande expressão e valia para o Brasil, e sua obra exerceu forte influência em meus estudos no Rio Grande do Sul".
Fernando Henrique Cardoso,
presidente da República


"É uma perda fundamental principalmente para o Rio Grande do Sul. Destaca-se o seu quase pioneirismo no estudo do foclore. O Dante proporcionou o enriquecimento indiscutível da nossa sociedade."
Luiz Pilla Vares,
secretário estadual de Cultura


"Recebo com pesar a notícia dessa grande perda. O professor Dante de Laytano foi um dos ícones do folclore gaúcho, um grande pesquisador. Deixou um grande referencial como profissional e como pessoa. Suas obras foram de muito valor para o ocnhecimento da identidade do povo do Rio Grande do Sul".
Alex Della Mea,
diretor do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore

"Se alguém usar a palavra folclore para traduzir hábitos e costumes do gaúcho deve citar Dante de Laytano. Ele trouxe uma nova conotação ao estudo, dando caráter científico aos aspectos que eram apenas orais. Seus livros são fonte obrigatória de consulta sobre literatura e a cultura gaúchas."
Paixão Côrtes,
folclorista

"Dante de Laytano foi um pioneiro. As primeiras pesquisas sobre o foclore negro no Rio Grande do Sul foram realizadas por ele, revelando ao mundo tda a pujança das congadas de Osório. ele pesquisou também a cozinha do Rio Grande, forte influência açoriana e, como titular da Comissão Gaúcha de Folclore, publicou trabalhos inestimáveis. Laytano foi folclorista e historiador, deopis de abandonar os poemas de sua juventude. O Estado perde o último dos grandes nomes da sua cultura no século 20."
Antonio Augusto Fagundes
antropólogo



Bibiografia

Confira os principais títulos publicads por Dante de Laytano:

  • 1931 - Uma Mulher e Outras Fatalidades
  • 1936 - História da República Rio-grandense
  • 1937 - Notas de Linguagem Sul-Rio-Grandense, a Fala do Gaúcho (tese apresentada no 1o Congresso de Língua Nacional Cantada)
  • 1940 - Os Portugueses dos Açores - A Consolidação Moral do Domínio Lusitano no Extremo Sul do Brasil (tema exposto no 3o Congresso de História e Geografia Sul-Rio-Grandense)
  • 1945 - Bibliografia do Rio Grande do Sul - Obras de Literatura, Poesia
  • 1961 - Pequeno Esboço de um Estudo do Linguajar Gaúcho-Brasileiro
  • 1979 - Manual de Fontes Bibliográficas para Estudo da História do Rio Grande do Sul
  • 1981 - A Cozinha Gaúcha na História do Rio Grande
  • 1981 - O Linguajar do Gaúcho Brasileiro
  • 1983 - Origem da Propriedade Privada no Rio Grande do Sul - séculos 18 e 19
  • 1984 - Foclore do Rio Grande do Sul
  • 1986 - Mar Absoluto das Memórias
  • 1987 - Arquipélago dos Açores
  • 1988 - Presença Calabresa - Projeção Histórica de Morano Cálabro



Entre inúmeros cargos, o foclorista, historiador e professor
porto-alegrense foi presidente de honra da Academia Rio-Grandense de Letras
banco de dados/ZH



Um mestre generoso

Dante de Laytano mostrava-se invariavelmente simpático
e disponível na ajuda a pesquisadores

Antonio Hohfeldt
Coordenador do programa de
Pós-Graduação da Famecos/PUCRS

Natural de Porto Alegre, formado em Direito, tendo desempenhado inúmeras funções administrativas no âmbito estadual e federal, Dante de Laytano foi, antes e acima de tudo, professor e pesquisador.

Dificilmente aqueles que passaram pelo Instituto de Filosofia da UFRGS, aqueles que se dedicaram à História, em especial do Rio Grande do Sul, os que desenvolvem pesquisas em campos tão variados quanto o folclore, a historiografia, a literatura ou a confecção de dicionários deixam de ter uma dívida com o grande mestre. Acima de tudo, Dante de Laytano soube esbanjar e repartir simpatia e disponibilidade, sobretudo para os jovens que se iniciavam naqueles campos em que atuava.

Presidente de Honra da Academia Rio-Grandense de Letras, membro honorário do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, cronista, historiador, sociólogo, crítico literário, dramaturgo e genealogista, Laytano se desdobrava por um número quase infinito de áreas.

Não há como se pensar os estudos sul-rio-grandenses sem referir sua contribuição fundamental e às vezes genial. Basta lembrar obras como Os Africanismos do Dialeto Gaúcho, O Negro e o Espirito Guerreiro nas Origens do Rio Grande do Sul, A Fala do Gaúcho, Os Portugueses de Açores na Consolidação do Domínio Lusitano no Extremo Sul do Brasil, para citar alguns de seus trabalhos pioneiros, abrindo campos de pesquisa que, se hoje em dia são comuns, nas décadas em que foram desenvolvidos por ele eram absolutamente inéditos.

Especificamente no campo da história, seus livros como História da República Rio-Grandense, História da Propriedade das Primeiras Fazendas do Rio Grande do Sul, O Folclore no RIo Grande do Sul, dentre outros, são atuais ainda hoje.

Dante de Laytano atuou, além do mais, como tradutor, por exemplo, da Viagem ao Rio Grande do Sul, de Arsène Isabelle, ou Antes do Almoço, monólogo de Eugene O'Neill, tendo descoberto ainda textos originais inéditos de escritores do século 19, como a novela Patuá, de Carlos Jansen, sobre a qual, na ocasião, desenvolveu extenso estudo.

Não deixou ele de experimentar a produção literária, com um livro de contos, em 1931, além de uma comédia estreada pelo Grêmio de Amadores Teatrais do Colégio São Luís, de Porto Alegre, no distante ano de 1926, ecrevendo ainda para o teatro, naquela época, Por Causa do Retrato, Nos Jardins da Vida e Crisântemus.

Responsável pelo Gabinete Português de Leitura ao longo de muitos anos, publicando a Revista do Museu e Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul, respondendo pelo Boletim Bibliogr´fico da Biblioteca Central da UFRGS, Laytano era um estupendo causeur, sempre pronto a uma história e a uma piada, com espírito extremamente crítico mas, ao mesmo tempo, uma imensa empatia para com as coisas da cultura e os seres em geral.

Por tudo isso, sobem a centenas os textos ainda não reunidos - porque dispersos em revistas, páginas de jornais e anotações de seus arquivos pessoais - que aguardam publicação. A morte física de Dante de Laytano, enorme perda para o Rio Grande, compensa-se, de certo modo, pela certeza de que tudo o que produziu não estará perdido.

Sua família, aliás, tem plena consciência disso, e é de se esperar que, em breve, possa-se dar conhecimento de todo esse conjunto magnifíco de dedicação à causa do Rio Grande, que esse descendente de italianos, tão identificado com o universo açoriano e gauchesco, nos deixou como herança.


Feito de uma cepa cordial

Paulo Hecker Filho
Escritor

Simpatizei de cara com ele, e quem não?
Tinha o sorriso aceitador e o papo aproximativo dos gordos, embora não exagerasse no peso.

Um dia lhe citei Simões Lopes Neto e ele confundiu que o punha acima do grande contista. Pois não é que lhe escrevi que se enganara feio... E quando dizem que sou imperdoável, ainda me queixo... A vaidade é universal, e na exposição do eu pela literatura, facilmente se torna obsessiva.

E afastamentos na província tendem a durar toda a vida. Mas, monstrando a cepa cordial com que Dante estava feito, depois de uns 15 a 20 anos, é verdade, soube receber a minha constante simpatia e conversa.

A simpatia crescia quando Guilhermino César e outros professores da faculdade, seus colegas, por razões lá deles, passaram a gozar do seu lado aproximativo. Ele não ficava assistindo não. Lembro de uma defesa sua numa festa:

- E a rainha da Holanda, o que é que acha?

Generoso, mas já se vê que sabendo ser dureza como qualquer outro.

Literariamente, foi levado em consideração no início nada menos que pela cabeça das letras nacionais da época, Mário de Andrade. E bem que eu gostaria de conhecer Uma Mulher e Outras Fatalidades, de 1931, em que já o título é um acerto, ou a crítica de Colecionador de Emoções, de 1934, comentada por Mário. Tirei disso até a idéia de Dante ser provavelmente um exemplo do que ocorre na província: começar bem e a falta de ressonância e diálogo ir reduzindo as ambições e o talento. Quando há público, esse instiga o escritor, que escreve cada vez melhor, como ao menos excepcionalmente é possível em Porto Alegre, e é o caso dos dois Verissimos e do Moacyr Scliar.

Dante de Laytano continou publicando bastante, mas o pouco que tive oportunidade de ler não me levou a prosseguir. Se bem que há de ter páginas boas em tantas editadas, inclusive pela lei das probabilidades. Por ora, fico com o falso gordo que conheci e apreciava as mulheres e instituia prêmios literários com o nome da esposa e ria, embora verde, diante das restrições, e se abria a quem se aproximasse e conversava comigo além da literatura e mesmo da vaidade.

(Nota do Cohen: Oigalê, texto xucro este último... contudo, não me cabe censurar ou despedaçar matérias, de tal forma que permanece).

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