Página do Gaúcho
Intérprete Noel Guarany
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Zero Hora Digital

MÚSICA

Morre o payador missioneiro

MARCELO MACHADO
Especial/ZH
Colaborou Gilmar Penteado

    Noel Guarany
    (foto Banco de Dados/ZH, 22/3/76)

            Na canção Na Baixada do Manduca, ele afirmava que era “o cantor da Bossoroca que cantava com galhardia”. O cantor e compositor Noel Guarany, considerado um dos expoentes da cultura missioneira e guaranítica do Rio Grande do Sul, um artista que abriu as porteiras rio-grandenses para uma música essencialmente nativa, morreu às 9h40min de ontem, na Casa de Saúde, em Santa Maria. O músico era portador de ataxia cerebelar degenerativa – doença rara que provoca a degeneração do cérebro – e, à noite, havia enfrentado crise respiratória. O corpo está sendo velado no Clube 3 de Julho, e o enterro será realizado ao meio-dia de hoje no Cemitério Municipal de Bossoroca, município em que nasceu.

            Desde o começo da década de 80, Noel Guarany morava em Santa Maria com a mulher, Neide Fabrício da Silva, e três das quatro filhas, numa casa na Vila Santos. A doença se manifestou há sete anos e debilitou lentamente o organismo do músico. Nos últimos cinco anos, Noel Guarany teve raros momentos de lucidez. Não falava e nem andava.

            No início da década de 70, enquanto a cultura nativa era representada por nomes como Teixeirinha e Gildo de Freitas, um filho de índios fazia composições destacando as características da região em que tinha nascido. Potro Sem Dono, Romance do Pala Velho, Filosofia de Gaudério e Payador, Pampa e Guitarra são alguns dos clássicos da carreira de Noel Guarany. Com influências de latino-americanos como Athaualpa Yupanqui e Antonio Tarragô Ros, Noel Guarany foi um dos primeiros a percorrer a América levando com sua música a cultura gaúcha.

            As palavras de Jayme Caetano Braun, um dos principais companheiros de Noel Guarany, resumem as qualidades do payador:

            – É o maior cantor do Rio Grande do Sul, uma exceção de cantor missioneiro.

            Apesar de polêmico e acostumado a se desentender com gravadoras e entidades como a Ordem dos Músicos, Noel Guarany nunca deixou de ser admirado pela qualidade de suas interpretações e composições. Para Jorge Guedes, compositor de São Luiz Gonzaga, o missioneiro gostava de dizer o que pensava:

            – Todos os que tinham uma formação para a cultura encaravam o trabalho dele acima da pessoa – disse. – Não tinha meio termo: ou era ou não era teu amigo.

            Ele chegou a ser chamado de “payador maldito” por suas idéias revolucionárias. Criticou certos cantores tradicionalistas por estarem vestindo “longas e espalhafatosas indumentárias de souvenires para iludir turistas trouxas”.

            O ex-prefeito de Porto Alegre Olívio Dutra viveu a infância ao lado do compositor missioneiro. Para Dutra, Guarany era um “guri rebelde”. Ambos nasceram em Bossoroca, e o ex-prefeito de Porto Alegre lembra que o cantor costumava se “bandear para o outro lado”. Na época, São Luiz Gonzaga ainda fazia fronteira com a Argentina.

            O acordeonista Gilberto Monteiro, natural de Santiago, considera que o artista tornou-se uma referência:

            – Ele foi uma bandeira que se ergueu para realçar a música missioneira. Fazia música com uma pureza, com uma cultura profunda.

            Na canção Filosofia de Gaudério, Noel Guarany fez um resumo da vida em versos: “Se eu nasci pra cantar, eu hei de morrer cantando”. A música das Missões perdeu um mito. Perdeu um artista que gostava do pago.

            

      NOEL GUARANY EM 14 DATAS  
    1941 – Nasce em Bossoroca
    1960 – Começa a percorrer países da América Latina
    1968 – Apresenta um programa na Rádio São Luiz, em São Luiz Gonzaga
    1970 – Lança, com Cenair Maicá, um compacto com as músicas Filosofia de Andejo e Romance do Pala Velho
    1971 – Disco Legendas Missioneiras
    1973 – Disco Destino Missioneiro
    1975 – Participa do disco Música Popular do Sul e lança o álbum LP sem Fronteiras
    1976 – Lança, na Argentina, o disco independente Payador, Pampa e Guitarra
    1977 – Disco Noel Guarany Canta Aureliano Figueiredo Pinto
    1979 – Disco De Pulperia
    1980 – Disco Alma, Garra e Melodia
    1982 – Disco Para o que Olha sem Ver
    1988 – Disco A Volta do Missioneiro
    1998 – Morre aos 56 anos, em Santa Maria