Chamamé, por que não?

Autoria de Ricardo Pereira Duarte, baseado em trecho do seu livro ainda no prelo: "Perico - A sociedade rural do Prata e o mundo desenvolvido"

"A música, que tanto agradava aos índios e que foi um fator relevante para a catequese, constituiu uma presença constante no culto missioneiro. Cada Redução tinha uma pequena orquestra e, conseqüentemente, um grupo de músicos oficiais. Igualmente havia um coral que era cuidadosamente ensaiado para abrilhantar as cerimônias religiosas".

O padre Antônio Sepp, como vários outros jesuítas das Missões, era tirolês. Numa de suas cartas de solicitação de recursos para as Reduções Guaranis, pedia "que lhe mandassem partituras musicais pois já havia ensinado aos índios todas as que conhecia: 'Não peço só em meu nome" - escreveu - "mas no nome de todos os pobres músicos indígenas, os quais, se se reunir aos de todas as Reduções, somam uns 3.000 homens'. Sendo ele originário do Tirol, entre as 'canções que conhecia' estavam, com certeza, as do folclore tirolês e foram ensinadas aos mais de três mil músicos da região que, posteriormente, ingressando no patrimônio português, passou a integrar o Rio Grande do Sul, influindo, portanto, na gênese da música rio-grandense. Assim, Walter Schultz Portoalegre percebeu na música do Rio Grande peculiar semelhança com as músicas tirolesas, especialmente o "Jodler", na dita polca paraguaia, e o "Laendler" na rancheira. Conta que visitando as ruínas das Missões, encontrou um turista europeu que não deixou de perceber nas filigranas das esculturas missioneiras influência da arte do Tirol. Perseguindo a idéia dessa influência, descobriu que, no tempo dos jesuítas, existiam, em Tupanciretã, grandes plantações de pêssegos, cuja flor os cobre de rosa e branco, idênticas às flores das macieiras dos vales do Tirol. As cores rosa e branco são tidas como as cores de Maria e, em vista disso, no Tirol, as flores são chamadas de "Mariengaertle", traduzidas por "jardinzinho de Maria". Tupanciretã é Terra-da-mãe-de-deus em guarani, o que seria uma plausível tradução de Mariengartle para a língua dos índios missioneiros." (1)

Walter Schultz Portoalegre foi específico ao colocar a "dita polca paraguaia" como integrante da música do Rio Grande do Sul. E a "polca paraguaia", é a raiz do chamamé que, segundo o testemunho da Enciclopédia Rio-grandese teria nascido por influência da música folclórica tirolesa; não no Paraguai, mas nas terras missioneiras.

De qualquer lado do rio Uruguai, tanto faz: A Banda Oriental do rio Uruguai, que abrange o Rio Grande do Sul e a atual República Oriental do Uruguai, sofreu três processos migratórios. O primeiro, com o deslocamento dos padres jesuítas por ocasião do Tratado de Madri, quando os catecúmenos sobreviventes da Guerra Guaranítica de 1756 liberaram as terras portuguesas; a segunda quando José Artigas, inconformado com a política de Buenos Aires em Montevidéu, provocou, entre 11 de outubro de 1811 e 21 de setembro de 1812, o êxodo do "povo oriental" no seu "Camino de la Redota", seguido pelos "caciquillos" seus aliados com suas tribos charruas; por último, Fructuoso Rivera, invadindo as Missões brasileiras em 1828, depois da Batalha do Passo do Rosário (Ituzaingó, para os castelhanos), acertou a paz definitiva para a instalação da República Oriental do Uruguai retirando-se para o território conquistado pelas armas, levando o remanescente guarani para que não viesse a incorporar-se no exército brasileiro.

Poderá pensar-se que indo a população indígena para o outro lado teria levado o chamamé dentro dos alforges. Sabemos que não é possível varrer uma cultura assim. Se José Artigas levou também no êxodo definitivo de 1820 ao seu exílio no Paraguai os seus "Artigas Cué", liderados pelo negro Ansina, abandonando as terras orientais, não matou as raízes da milonga, nascida na segunda metade do século XIX no aproveitamento popular da Habanera por influência do Candombe dos pretos montevideanos. Retirados os cantores, ficara a semente do canto.

E aqui se apresenta a milonga oriental como exemplo de um "estrangeirismo" para os brasileiros, para o qual não existe nenhum pudor. Porque não existe na verdade estrangeirismo para a Nação Gaúcha que nasceu, cresceu e ficou velha à margem do estuário do Rio da Prata e seus afluentes.

O gaúcho é comum às três pátrias. Suas origens estão na Península Ibérica conquistada por mouros e berberes, num tempo em que não havia distinção entre Espanha e Portugal; sofreu influência de sefarditas e, na América, somou cultura de Minuanos, Charruas e Guaranis. O que o gaúcho canta revela a vida comum de homens que vivem sob influência do mesmo clima, da mesma geografia, enfrentada na realização do trabalho numa atividade exatamente igual; atividade que se estabeleceu por determinação dos conceitos europeus de sobrevivência econômica, tanto dos colonizadores como dos religiosos.

Mais misturados do que isso, é impossível. Por quê, então, tanta discórdia a respeito da aculturação dos gêneros musicais? Deixou o gaúcho alguma vez de fazer o que lhe apetecia por qualquer tipo de proibição? Louvamos o "canto livre" e cantamos a ausência de fronteiras para depois exercitarmos o despotismo intelectual, cobrando pedágio de indivíduos da mesma nacionalidade gaúcha.

Desde que me lembro, nos anos 1960, os ensaios de militância na música regional gaúcha ao dedilhar mal-e-mal um violão à beira do fogo no galpão da estância Retiro, sofriam a interferência dos velhos peões com pedidos: "Toque a Merceditas!". Jamais deixei de atender o pedido. Tocava, também, "Ah, mi Corrientes Porá", música que é entendida como o "hino nacional de Corrientes".

Para mim nunca foi estrangeirismo executar essas músicas que, hoje, algumas pessoas teimam em identificar como essencialmente correntinas. Elas faziam parte do acervo regional em nossa bagagem.

Chamamé, sim. Por quê não? É uma aberração exigir aculturação de um gênero que surgiu nas Missões guaranis. O chamamé não "está aculturado": Nasceu aqui!


Uruguaiana, 20 de janeiro de 2006.
Ricardo P. Duarte.

(1) "Retrato sem Retoque das Missões Guaranis", Alfeu Nilson Mallmann (Martins Livreiro Editor, 1986) "Enciclopédia Rio-grandense", Livraria Sulina, 1968 (tomo 2, Rio Grande antigo)


----- Original Message -----
From: Ricardo P. Duarte
To: Roberto Cohen
Sent: Monday, August 21, 2006 10:30 AM
Subject: Re: Na chuleada de acertar seu email...

Caro Roberto,
Pensei que estivesses morto, pois a partir de um tempo que já não me posso lembrar cansei de procurar acesso à Página do Gaúcho sem sucesso. Tu vais dizer que isso é um mistério, e eu talvez até acredite.

Pois é!... Tenho vários assuntos pensados durante esse tempo perdido. Acho até que posso te mandar um deles hoje, encostado neste.

Quanto à tua viagem, em primeiro lugar podemos providenciar para te receber em casa (na Cabanha Touro Passo) quando bateres em Uruguaiana no dia 15 de setembro. Daí pra frente a gente vê.

Um abraço,

Ricardo P. Duarte.

Publicado por Roberto Cohen em 11/10/2006.