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criada em 15/11/2002
por Roberto Cohen

Cancioneiro Gaúcho

Recolhido de Meyer, Augusto. (1959). Cancioneiro Gaúcho. Porto Alegre: Editora Globo.



 Excertos da Introdução

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No cancioneiro gaúcho há deixas e motivos, temas ou movimentos líricos que os portugueses, sobretudo os açorianos, passaram de mão beijada aos continentinos. Freqüente é o caso de versos que puxam fieira tanto lá como cá, de motes que servem de muleta poética, ou imagens gravadas facilmente na memória e que trazem de arrasto outras imagens familiares, é claro que muitas vezes adaptadas ao gosto novo, mas conservando, em essência, o sabor atlântico das suas origens.

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Na produção genuína que deixou, o gaúcho não morre de amores, nem costuma fazer da mulher seu tema predileto, como afirma João Pinto da Silva. Na maioria dos seus cantos amorosos, impera um realismo cru ou uma franca malícia de homem que não se deixa enredar em milongagens.

Seu tema é a exuberância animal do amor, seu meio de expressão é a lealdade do macho que só enfeita um pouco o desejo para lhe dar mais tempero, pelo simples gosto de arrastar a asa em verso. Deixa as denguices para os pisa-flores da cidade e trata de colher a flor do instante, com uma sensualidade equilibrada.

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... a verdade é que os nossos possuem uma violência abarbarada, um narcisismo agressivo, uma arrogância de sangue quente que ficam muito acima de qualquer comparação.

Creio que nestes cantos (e em motivos de dança como o Tatu, em que a ironia é uma alegre irreverência, uma dança da imaginação maliciosa) se revela a verdadeira veia gauchesca em nossa poesia popular. Os cantos de monarquia representam a idealização da vida primitiva do gaúcho, quando os campos eram abertos, o trabalho não entrava em conflito com os seus instintos de nômade e o espaço lhe dava uma ilusão indivualista de à-vontade e aventura. No vazio relativo em que se movia então, projetava de si mesmo um vulto agigantado, via-se da altura dos seus assomos, ancho na roupa e rasgado nos gestos. O super-eu que dorme em todos nós, à espera de uma oportunidade, quando encontra a cancha livre, não hesita em sobrepor-se ao verdadeiro eu. Por isso mesmo, esses cantos da vida primitiva, se algum tempo correspondiam a tendências manifestadas na campanha rio-grandense, não conhecem medida e só se entendem no registro dos extremos. A imagem que nos propõem, ao recuar para o passado, ampliou-se de tal modo, que perdeu em conteúdo humano o que conseguira ganhar na aparência de grandeza.

Faltava por certo um corretivo a essa ênfase do indivíduo. Vamos achar o corretido na graça maliciosa que caracteriza outros motivos correntes em nossa poesia campeira: em primeiro lugar, no texto mais extenso que sobrou dos antigos fandangos - o Tatu.

O Tatu de certo modo é o nosso canto popular mais importante. Admitida a classificação que tentei neste cancioneirinho, logo se descobre nessa produção poética de origem fandangueira uma tendência para articular-se em romance. Se o Tatu não constitui uma história rimada, sugere-a claramente, pois não passa de um rimance do herói pobre-diabo.

Parece a princípio que ele nem chega a largar a casca, para tomar forma de homem. E não obstante, o Tatu, no decorrer do canto, já não tem nada a ver com o desdentdo que provoca na campanha o riso dos entendidos, com alusões inevitáveis à mais pitoresca das caçadas e ao mais cômico dos funs, quando se mete na toca. Apesar da referência ocasional ao bicho que lhe deu nome, o Tatu é o herói desconhecido, que defende como pode a sua vida apertada. O Tatu se agita, faz, acontece; lá pelas tantas, surge como chasque na guerra dos Farrapos. À medida que avança o canto, não obstante, define-se o pobre Tatu como herói capiora, que vive perdendo vaza. O seu caiporismo é pretexto para boas risadas, sem sombra de compaixão.





Textos

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