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criada em 15/11/2002
por Roberto Cohen

Cancioneiro Gaúcho
O Tatu

Recolhido de Meyer, Augusto. (1959). Cancioneiro Gaúcho. Porto Alegre: Editora Globo.



 Texto

1

Eu vim pra contar a história
Dum Tatu que já morreu,
Passando muitos trabalhos
Por este mundo de Deus.


2

O Tatu foi mui ativo
Pra sua vida buscar;
Batia casco na estrada,
Mas nunca pode ajuntar.


3

Ora, pois todos escutem
Do Tatu a narração,
E, se houver quem saiba mais,
Entre também na função.

  Anda a roda,
  O tatu é teu;
  Voltinha no meio,
  O tatu é meu.


4

O Tatu foi homem pobre
Que apenas teve de seu
Um balandrau muito velho
Que o defunto pai lhe deu.


5

O Tatu é bicho manso,
Nunca mordeu a ninguém,
Só deu uma dentadinha
Na perninha do seu bem.


6

O Tatu é bicho manso,
Não pode morder ninguém,
Inda que queira morder,
O Tatu dentes não tem.


7

O Tatu não calça meia
Porque tem o pé rachado,
Tem a cintura de moça
E os olhos de namorado.


8
O Tatu saiu do mato,
Vestidinho, preparado,
Parecia um capitão
De camisa de babado.


9

O Tatu saiu do mato,
Procurando mantimento;
Caiu numa cachorrada
Que o levou cortando vento.


10

O Tatu me foi à roça,
Toda a roça me comeu;
Plante roça quem quiser,
Que o tatu quero ser eu.

  Anda a roda,
  O tatu é teu;
  Voltinha no meio,
  O tatu é meu.


11

O Tatu é bicho chato,
Rasteiro, toca no chão;
Inda mais rasteiro fica
Quando vai roubar feijão.


12

O Tatu de rabo mole
Faz guisado sem gordura,
Ele é feio mas gostoso,
Só lhe falta compostura.


13

Meu Tatu de rabo mole,
Meu guisado sem gordura,
Eu não gasto meu dinheiro
Com moça sem formosura.


14

Depois de muito corrido
Nos pagos em que nasceu,
O Tatu alçou o ponche,
Pra outras bandas se moveu.


15

Eu vi o Tatu montado
No seu cavalo picaço,
De bolas e tirador,
De faca, rebenque e laço.


16

Aonde vai, senhor Tatu,
Em tamanha galopada?
Vou para Cima da Serra,
Dançar a polca-mancada.


17

O Tatu subiu a Serra,
No seu cavalo alazão,
De barbicacho na orelha,
Repassando um redomão.


18

O Tatu subiu a Serra
Pra serrar um tabuado,
Levou mala de farinha,
E um porongo de melado.


19

O Tatu subiu a Serra
à força de mocotó,
Caminhou cinqüenta léguas,
Pra ver se achava ouro em pó.


20

O Tatu subiu a Serra
Com fama de laçador;
Bota laço, tira laço,
Bota pealos de amor.


21

O Tatu subiu a Serra
Com ganas de beber vinho;
Apertaram-lhe a garganta,
Vomitou pelo focinho.

  Anda a roda,
  O tatu é teu;
  Voltinha no meio,
  O tatu é meu.


22

O Tatu foi encontrado
No passo do Jacuí,
Trazendo muitos ofícios
Para o general Davi.


23

O Tatu foi encontrado
Lá nos cerros de Bagé,
De laço e bolas nos tentos,
Atrás de um boi jaguané.


24

O Tatu depois foi visto
No cerro de Viamão,
Com seu lacinho nos tentos,
Repassando um redomão.


25

O Tatu foi encontrado
No cerro de Batovi,
Roendo as unhas de fome,
Ninguém me contou, eu vi.


26

O Tatu foi encontrado
Pras bandas de São Sepé,
Mui aflito e muito pobre,
De freio na mão, a pé.


27

O Tatu foi encontrado
Na serra de Canguçu,
Mais triste do que um socó
E sujo como urubu.


28

Depois de muita folia
Em que o Tatu se meteu,
Deram-lhe muito guascaço
E o Tatu ensandeceu.


29

E logo desceu pra baixo,
Mui triste da sua vida,
Com a casca toda riscada,
De orelha murcha, caída.

  Anda a roda,
  O tatu é teu;
  Voltinha no meio,
  O tatu é meu.


30

Ao chegar à sua casa,
O Tatu vinha contente,
Por ver a sua Tatua
E quem mais era parente.


31

- Minha comadre Tatua,
Adeus, como tem passado?
- Tenho passado mui bem,
Porém com algum cuidado.


32
Tatua, minha Tatua,
Acuda, senão eu morro!
Venho todo lastimado
Das dentadas de um cachorro.


33

Dei graças a Deus achar
Uma toca já deixada,
Pois que vinha um caçador
Com uma grande cachorrada.


34

Até chegar nesta idade,
Remédio nunca tomei;
Tatua, estou mui doente,
Faz remédio, eu tomarei.


35

Se quiser curar, me cure,
Não lhe faltando a vontade,
Que senão eu vou-me embora
Lá pra casa da comadre.


36

Ela deu folhas de umbu
Com raiz de pessegueiro,
Mas, coitado do Tatu,
Morreu ainda mais ligeiro!


37
A Tatua e os tatuzinhos
Puseram a cavoucar,
Pra fazer a funda cova,
Pra o seu Tatu enterrar.


38

A Tatua está viúva,
O seu Tatu já morreu;
Ela agora quer marido
Travesso, como era o seu.


39

A Tatua está mitrada,
Quer marido doutro jeito,
Que não viva longe dela,
Seja um Tatu de respeito.


40

E, se alguns dos meus senhores,
Quer ser Tatu preferido,
A Tatua está viúva:
É só fazer seu pedido...

  Anda a roda,
  O tatu é teu;
  Voltinha no meio,
  O tatu é meu.



Comentários

O Tatu é o mais longo e sem dúvida o mais importante dos nossos cantos populares ligados ao fandango.

Das quarenta quadrinhas reproduzidas no texto, algumas não passam de variantes de certa matriz, ou de verso inicial que puxa fieira, por exemplo, "O Tatu subiu a Serra", de 17 a 21, ou "O Tatu foi encontrado", de 22 a 27, etc. Representam a parte monótona e menos original do canto, as repetições de improviso, quando o cantador parece possuído da mania de esgotar todas as variantes em torno de um mesmo verso.

Mas as três quadras iniciais, a modo de prelúdio, mostram expressamente que se trata de uma história, de um caso, de uma narração cantada, com sentido especial e completo: a história de um tatu que não é mais o bicho conhecido, mas o Tatu, o tal, com nome próprio e sentido humano.

O verso inicial de 1, "Eu vim para contar a história", é lugar-comum de exórdio épico, um modo corriqueiro de anunciar o caso, espécie de "Canta, deusa, a cólera de Aquiles...". Simples ementa posta no alto da narração. Não conheço outro exemplo tão completo de intenção narrativa em nosso cancioneiro, o que basta para dar ao Tatu relevo particular. O verso que abre a "Chimarrita" (Vou cantar a Chimarrita) já não apresenta a mesma pureza de sabor, pois ocorre de preferência como arranque do canto nos motivos de fandango, por exemplo: "Vou cantar a galinha morta", ou "Vou cantar esta Tirana". É verdade que no contexto da "Chimarrita" está contida igualmente uma intenção de história a contar, de um caso completo, inclusive a morte e as lamentações finais; é isso justamente que aproxima os dois cantos fandangueiros, dando-lhes um caráter inconfundível. Em ambos, além disso, a expressão do canto é saborosamente gauchesca, não obstante a conheida procedência açoriana da "Chimarrita".

Se em 5 e 6 o Tatu ainda aparece como simples tatu, como o desdentado tímido que todos perseguem; se em 9, 32 e 33 anda às voltas com a cachorrada e não largou a casca de animal; se em 10 e 11 vai roubar feijão, o que aliás, me parece uma calúnia de caçador, observe-se a humanização do tema em 2, 4, 7 e a contar de 14 até o fim.

Em 14, 16, 19, 21, 23 e 24, o Tatu agauchou-se inteiramente; em 22 aparece como chasque na revolução dos Farrapos, levando ofícios para o General Davi Canabarro.

Mas, o verdadeiro sentido de sua história - o caiporismo - já está preludiado em 2, reponta em 14, quando alça o ponche, ressurge em 21, e de 25 até o fim entra num verdadeiro crescendo.

Em resumo, o Tatu é um delicioso canto popular do tipo das "modas de bichos", é a história do herói caipora ou ridículo, atingindo às vezes a expressão de um grotesco extremo, com grande vigor na concisão do verso, como podemos ver em 25, 26 e 27.

O estribilho do Tatu, reproduzido pela primeira vez no "Anuário" de Graciano de Azambuja, merece um reparo. O terceiro verso parece aludir à "volta-no-meio", dança popular do Brasil citada por Balbi em seu "Essai statistique sur le Royaume de Portugal et d'Algarve" (1822).

A música do Tatu foi publicada em folha desdobrável no "Anuário do Estado do Rio Grande do Sul" para o ano de 1903, de Graciano A. de Azambuja, sem explicação da procedência e a penas com a seguinte nota: "Damos a música com que se dançava e cantava o Tatu. A dança consiste num sapateado." (V. pág. 240).

Segundo Apolinário Porto Alegre: "Ao princípio o tatu, entre nós, ra considerado realmente um ser de talentos extraordinários em conseqüência das lendas tupi-guaraníticas que tinham passado para nosso pecúlio tradicional. O ciclo lendário ou mítico das lendas do Jaboti, que Couto de Magalhães recolheu no Amazonas e no Norte do Brasil, na língua original do aborígnea, também era no Sul do patrimônio popular. Mas, em vez de ser o Jaboti, não sabemos por que motivo, era o tatu a principal figura das narrativas..." ("Popularium Sul-Rio-Grandense", caderno 17, inédito, pág. 78.).

No estudo "A poesia nativa de nosso povo", reproduz Amadeu Amaral os seguintes versos:

Já chegou o Tatu-canastra
Com sua calça de bombacha;
Trazia a sua sanfona
De quarenta e oito baixo...

Nessa moda de bichos, colhida em Piracicaba, a indumentária do Tatu parece indicar a influência gaúcha.

Ao estudar a poesia popular desse gênero, com a segurança de sempre, dizia Amadeu Amaral: "às vezes a sátira social toma os trajes da alegoria e da fábula. O poeta roceiro tem certa predileção pelas histórias de animais, e essas histórias como acontece com todos os povos, não são mais do que uma transposição de coisas e casos da alma e da vida humana. Os animais não interessam à imaginação popular senão como caricaturas do homem, ou senão pela soma de humanidade que ela julga desocbrir neles." ("Tradições populares", ed. Ipê, pág. 115).

A observação de Amadeu Amaral tem mais perfeito cabimento no caso do "Zorrilho" e do "Gavião Mouro", exemplos crioulos da fábula clássica, infelizmente fragmentários.

Revela-se a tendência para a observação da vida animal na famosa quadrinha da mulita:

O tatu mais a mulita,
É lei da sua criação:
Se é macho, não tem irmã,
Se é fêmea, não tem irmão.

Em Azara podemos ver o seguinte passo, a propósito do "tatuejo-mulita", o qual serve de comentário: "Hacia el mes de octubre da a luz de siete a once pequeñuelos, com la singularidad de que en cada parto son todos o machos o hembras". (V. "Viajes por la América Meridional", ed. Espasa-Calpe, Io vol, págs. 292-93).