esta página foi
criada em 15/11/2002
por Roberto Cohen

Cancioneiro Gaúcho
O Anu

Recolhido de Meyer, Augusto. (1959). Cancioneiro Gaúcho. Porto Alegre: Editora Globo.



 Texto

1

O anu é pássaro preto,
Passarinho de verão;
Quando canta à meia-noite,
Ó que dor no coração.


2

E se tu, anu, soubesses
Quanto custa um bem-querer
Ó pássaro, não cantarias
Às horas do amanhecer.


3

O anu é pássaro preto,
Pássaro do bico rombudo;
Foi praga que Deus deixou
Todo negro ser beiçudo.



Comentários

Nome de uma dança do fandango, cantada e sapateada. A referência mais antiga é a de Coruja, em "Coleção de Vocábulos e Frases usadas na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul", Rev. Inst. Hist. Geogr. Bras., 1852, pág. 223. No "Ensaios sobre os costumes do Rio Grande do Sul", João Cezimbra Jacques descreve o anu como dança de marcação: "Depois da roda feita... dizia o marcante: roda grande; e a esta voz todos se davam as mãos e ao dito do mesmo marcante; tudo cerra, a um tempo cerravam a sapateada de mãos dadas; à voz de cadena, faziam os dançantes mão direita de dama como na quadrilha. Acabado isto, cantava o tocador da viola:

O anu é pássaro preto,
Passarinho de verão,
Quando canta à meia-noite,
Dá uma dor no coração."


Em "História da Música Brasileira", Renato Almeida refere-se ao anu como dança do fandango paranaense, batida e valseada, e reproduz um exemplo recolhido por Antônio Melilo e Odilon Negrão; mas a letra não apresentava semelhança algumacom os versos do cancioneiro gaúcho.

Registrou Alceu Maynard Araújo, nos fandangos da Cananéia, duas versões da mesma dança: o anu-velho e o anu-corrido. Observam Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, o. c., p 75, que o anu se divide em duas partes totalmente distintas, uma para ser cantada e a outra para ser sapateada. Acrescentam: "Aproxima-se bastante da Quero-mana, principalmente pelo passeio cerimonioso que os pares realizam." E mais adiante: "O Anu é legítima dança de pares soltos, mas não independentes. É dança grave, na parte cantada e nos passos cerimoniosos, mas ao mesmo tempo viva e algo pantomímica na parte sapateada e nas evoluções que os homens apresentam. Há um marcante que ordena as figuras e sapateados."