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criada em 15/11/2002
por Roberto Cohen

Cancioneiro Gaúcho
O Chico

Recolhido de Meyer, Augusto. (1959). Cancioneiro Gaúcho. Porto Alegre: Editora Globo.



 Texto

1

O Chico caiu no poço,
Não sei como não morreu,
Por ser devoto das almas,
Nossa Senhora o valeu.


2

O Chico caiu no poço,
Do fundo tirou areia;
Ninguém tenha dó do Chico,
Que está preso na cadeia.


3

O Chico foi lá no poço
Com uma pedra no pescoço:
Ninguém tenha dó do Chico,
Que ele morreu por seu gosto.


4

Lá vem Chico, lá vem Chico,
Deixá-lo que venha, sim:
Eu não devo nada ao Chico,
Nem ele me deve a mim.


5

Quem é aquele que lá vem.
Com o lenço feito bandeira?
Pelo jeito que estou vendo,
É o Chico Polvadeira.


6

Quem é aquele que lá vem.
No seu cavalo alazão?
É o nosso amigo Chico
Que vem dançar o sabão;
O cavalo deu um prisco,
O Chico caiu no chão.



Comentários

O motivo do Chico aparece pela primeira vez na "Gazeta de Porto Alegre". A versão mais completa é a Cezimbra Jacques, no "Ensaio sobre os Costumes etc". O verso inicial dá a entender procedência portuguesa. Em 5, nota-se um entrosamento com o tema tão popular de "Garibaldi foi à missa", que anda em nosso cancioneiro geral. Talvez haja algum parentesco remoto do motivo gaúcho com o nhô-chico, dança tida como original da marinha paranaense, segundo Renato Almeida.

Em "Música, doce Música", Mário de Andrade propõe a leitura de chiba para aquele estranho "chioo" (sic) citado por Balbi; creio, porém, que se trata de uma simples troca de tipo (o por c) devendo ler-se em errata o "chico", em vez de o "chioo". (V. o. c., pág. 116).

Transcrevo a seguir a descrição do chico dançado em Cananéia, tal como registra Alceu Maynard Araújo: "No salão forma-se uma grande roda, ficando homens e mulheres alternadamente, um homem atrás de uma mulher. A roda vai-se movendo no sentido dos ponteiros do relógio. A dama que está na frente levanta os dois braços flexionados, pousa as costas das mãos nos seus ombros, as palmas ficam voltadas para cima; o cavalheiro que está atrás, pega nas suas mãos. O violeiro pára de cantar e fica somente tangendo a viola, enquanto isso, os homens rufam os pés, segurando nas mãos das damas. Estas ficam mudando os passos para a direita e para a esquerda. A um dado momento, um sinal de topo que dá a viola, giram o corpo, sem largar das mãos, enfiam a cabeça por baixo dos braços e, passando pela direita, o homem fica à frente de sua dama, e agora é ele quem está com as costas das mãos nos seus próprios ombros, e a dama as segura. Inverteu-se, portanto, a posição inicial porém este tempo é muito curto, pois a um sinal do violeiro, antes de começar a dançar, o homem larga das mãos da parceira que está atrás de si e pega nas mãos daquela que está em frente. O violeiro canta e estão de novo marchando, repetindo o que foi descrito, sempre mudando de par. As diversas fases da dança obedecem ao canto e sinais conhecidos que o violeiro dá. O cavalheiro de fato executa um pateio, pois ele, quando rufa os pés, bate-os em cheio no solo.

Os romeiros paranaenses é que gostam imensamente de dançar o Chico. Quando ele vêm para os festejos do Senhor do Bom Jesus de Iguape, no mês de agosto, essa é a dança que eles mais apreciam, e é por isso que hoje sempre iniciamos o Fandango com o Chico. Todo mundo quer dançar e todos pedem o Chico... o Chico... e ela se prolonga durante uns bons minutos", assim se expressou um fandangueiro. É de fato uma dança voluptuosa. Nos volteados, os homens, barafustando-se, o corpo roça no de sua dama. Parece-nos que esse é um dos motivos que aumenta o interesse pela dança."