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Folclore infanto-juvenil

Vamos aos "primeiramentes":

1. O tio Cohen não é historiador. É um sujeito interessado e abnegado. Tem lá suas limitações, mas a gente até agüenta se puder melhorar as coisas que ele inventa.

2. Sabedor de que não é o tal, até se considera um sujeito normal e recebe as críticas construtivas de bom grado. As destrutivas, são raladas no arado.

3. Ainda tá aqui? Passei um trabalhão dos horrendos pra tu ficares lendo essas abobrinhas? Anda chê... vai lembrar tua infância!

4. Vai rolando esta página tela abaixo e até chama a mulhé pra finalmente explicar o que é funda.


Bueno Cohen.

Pode começá o colorido e aprepará a choradeira...

Aí vem as lágrimas que verterão quando leres esse poema de Lauro Rodrigues que fala da SAUDADE...
Dos tempos que eras piá? Guri de estância? Prendinha da classe?

SAUDADE
Lauro Rodrigues

Quando o sol galopeia no horizonte
e se vai reclinar por trás do monte
como um boi colorado
repontado
pelo mango da noite
que tropeia
eu sofro a mágoa da tristeza,
a quietude sem fim da natureza
na saudade cruel que me maneia.
Xomico!
Por que será
que Nosso Senhor nos dá
sem pena, nem julgamento,
a pua do pensamento
pra esporear o coração?
Há nisso tanta maldade
que eu até nem acredito
que fosse o "tal" Jesus Cristo
o inventor da saudade...

Saudade!!
Ela vem chegando,
tropereando... tropereando
tudo de bom que vivi.
Depois que a saudade apeia
amarra o pingo e sesteia,
nunca mais a gente ri.
Isto é: sempre há sorriso
mas para isso é preciso
enganar como a perdiz
que piando numa moita
noutra se esconde afoita
fingindo que não piou.

A gente não é feliz! -
Só ri dos dentes pra fora,
um gargalhar disfarçado,
uma risada amarela,
como potro atropelado
como boiada que estoura
na saída da cancela.

Saudade cheira a alecrim
mas é ruim que nem cupim
que dá em várzea de campo;
fere a gente de tal jeito
que o coração cá no peito
se banha nágua do pranto.
Saudade é grama cidreira,
é güecha passarinheira
que a gente nunca domina;
é dor aguda e danada,
dói mais do que uma chifrada
de vaca mansa brasina.

Saudade, coisa esquisita,
que Deus te faça bendita
como a hóstia no altar!...
Pois, de tudo que já tive,
somente a saudade vive!
Vive a me acompanhar!!!


Fonte
Mostra de Folclore Infanto-Juvenil, Catálogo em Prosa e Verso. Porto Alegre, RS. Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore. Saraiva, Glaucus (1979).

Gado de Osso

Esta é a mais autêntica manifestação do folclore infantil gauchesco e acha-se circunscrita à área rural do Rio Grande do Sul.

O menino gaúcho, criado nas estâncias, desde que adquire percepção do seu mundo exterior, procura imitar os adultos nas suas tarefas, principalmente às ligadas à pecuária.

Põe se a trabalhar a imaginação, criatividade e fantasia. Assume a personalidade de um estancieiro, sempre "abastado".

Com varetas de taquara, madeira ou galhos, pedras e outros materiais encontrados pelo terreiro, constrói em sua "estância" as "benfeitorias" correspondentes: invernadas, potreiros, piquete, mangueira, bretes, banheiros de gado, etc.

Junta ossos de animais para a alimentação das casas, ou mortos a campo, - ovelhas, bois, cavalos - depois que o tempo os limpou e purificou através de sol e chuvas. Acrescenta sabugos de miho, sementes de alguns vegetais, guampas e todo o material achado nos montouros que possa servir-lhe à imaginação.

Cada ossinho, semente ou objeto, representa um tipo de animal, por isso o guri recolhe a maior quantidade possível. Assim, torna-se proprietário de grande número de bois, touros, vacas, terneiros, cavalos, petiços, ovelhas, capões, carneiros, cordeiros, ... Os peães estão representados por ossos, sabugos de milho ou qualquer outro objeto. Têm carretas, carroças, charretes ou "aranhas". Toda a ergologia campeira será executada com os ossinhos e acessórios.

O menino gaúcho, com outros "estancieiros", guris seus vizinhos, comercia, vende ou compra tropas. Pára rodeio, banha o gado, vacina, descorna. Executa grandes marcações e castrações. Doma seus cavalos, esquila (tosquia) suas ovelhas, carreteia e tropeia. Nada escapa à sua fantasia e, desta maneira, se prepara para assumir o seu lugar de adulto na futura vida campesina.

A simbolização desses ossinhos é imensamente variada. Na mesma região difere de zona para zona. Desta maneira não podemos emprestar a cada ossinho um símbolo generalizado. Ele muda, sempre, de acordo com o grupo de meninos vizinhos e "proprietários de estâncias". Arame, barbante, tentos, etc. servem para fazer os aramados (cercas) e outras "benfeitorias".

Elementos rurais

elementos rurais


  1. Aripuca, Arapuca ou Urupuca. Pequena armadilha para caçar passarinhos. A maneira de armá-la está bem clara na foto. A ave, ao se empoleirar no galho ou apenas beliscando a isca, solta a pequena trava e a armação cai, prendendo-a.
  2. Mundéu (armadilha para apanhar caça. Do Tupi Mundé: alçapão) para passarinhos - Armado. O mesmo processo da Aripuca, só que o pássaro é preso e suspenso por uma laçada.
  3. Mundéu para passarinhos - disparado.
  4. Mundéu para periá ou preá. A periá, passando sempre pelos mesmos lugares por entre as cercas vivas das fazendas, ou nos matos, forma pequenos carreiros. A gurizada arma uma lançada como se vê na foto, atiça os cachorros e o pequeno animal, ao fugir atropeladamente, enfia a cabeça na armada, caindo logo. Existem inúmeras outras armadilhas para vários tipos de caça.
  5. elementos rurais

  6. Cascudo atrelado.
  7. Cascudos cangados.
  8. Gaiolas para insetos feitos de caixas de fósforos:
    "A minha toca-viola
    fugiu da caixa de fosf'ro
    Caixa-de-fosf'ro-gaiola
    ficou tão vazia assim...
    Meu grilo, afina a viola,
    toca viola p'ra mim?

Ovo guacho de avestruz

Por "avestruz", "abestruz" ou "nhandú" trata o gaúcho a Ema (Rhea Americana) que vive em bandos de várias fêmeas, geralmente oito, guardadas por um só macho. A postura se verifica em agosto e todas as fêmeas botam no mesmo ninho, alcançando, às vezes, 40 ou mais ovos.

A expressão "ovo guacho" vem do costume do avestruz fêmea, antes de fazer o ninho, botar isoladamente, em lugares diversos, alguns ovos. A ninhada quem choca é o macho, durante 42 dias que é o período de incubação. Ao findar este tempo, os ovos se decompõem e o nhandú macho - assim que descascam os filhotes - os quebra a patadas. Os vermes gerados e o grande número de moscas atraídas pelo mau cheiro servirão de primeiro alimento aos nhanduzinhos. Acredita o gaúcho que o ovo guacho do avestruz atrai sorte e felicidade. Por isso, sempre que o encontra, leva-o para casa como talismã.

GUACHO:
Animal criado sem o leite materno. Qualquer animal - mamífero ou não - criado sem os cuidados maternos. Este adjetivo se emprega também ao homem.
Etim. O vocábulo origina-se de huaccha ou huagcha, da língua quíchua, em que significa órfão pobre. Em araucano, guachu significa filho ilegítimo.

Caroços de pêssego

Servem de munição para jogar o "Bambá" e outras finalidades.

BAMBÁ:
Jogo próprio da campanha, executado com quatro metades de caroço de pessêgo (alguns usam rodelas de casca de laranja). Sabugos inteiros ou cortados servem de parelheiros. Traçam na terra riscos em forma de escada. COm os primeiros elementos jogados sobre os riscos, jogam os pontos. Conforme estes, avançam os parelheiros. O parelheiro que fizer mais pontos é o ganhador.

Etim. Bambá vem da língua Bunda, mbama, significando jogo, divertimento, etc. Daí supormos que este jogo foi trazido da África ou criado pelos negros no RS.

Carrapichos

Estes frutos espinhosos, quando secos, têm grande facilidade em apegar-se a roupas e cabelos, daí as "guerras de carrapichos"
(bot. Cenchrus Tribuloides).

"Lá detrás daquele cerro
tem um pé de carrapicho:
já te botei as cangalhas,
só falta, agora, o rabicho". (folclore)

Caramujos

Depois de vazio, serve de cavalo, pois o som que emite ao bater ou raspar na terra sua "boca", lembra o andar dos eqüinos.

Queixada de Ovelha

Inteira, faz-se carretas. Das metades faz-se arados.

Sementes de cinamomo

Usadas, principalmente, para "munição".

Cascudos

Além de "animais de traição", servem para "carreiras".

Cascudos

Além de "animais de traição", servem para "carreiras".

Pandorga

Pandorga é o nome genérico que as crianças gaúchas dão a estes elementos, embora cada feitio tenha uma denominação diferente.

elementos rurais

Fui guapo quando menino
pois lacei o céu com pandorga.
Mas, hoje, a vida me outorga
o direito que declino
de ser "grande", pois se empino
qualquer sonho colorido,
outros, como "vidro moído"
na "cola" de um "papagaio",
cortam meu barbante e eu caio,
"vou a Bahia", perdido".

PANDORGA
Nome genérico que no Rio Grande do Sul se dá a este brinquedo que consiste numa armação de varetas de taquara cobertas de papel. A pandorga, presa a um cordão, se eleva ao alto por força do vento e é equilibrada por um rabo, simples ou duplo, feito de tiras de pano e preso na parte inferior.

Existem vários feitios de pandorgas com denominaçõe spróprias que as identificam. Assim, o mais comum, de forma quadrangular, é, propriamente, a "pandorga"; "papagaio" é o losangular; a "estrela" tem o feitio do nome, e seguem o "caixão", a "bandeja", a "marimba", o "barril", o "navio", a "pipa" e muitos outros.

A prática do divertimento é chamada de "soltar pandorga". Os guris se empenham na "briga de pandorgas": atam no rabo uma gilete ou colam frações de vidro moído. Em pleno ar, aproximam as pandorgas uma da outra; com descaídas e recolhidas, procuram friccionar o rabo "envenenado" da sua pandorga no cordão da outra, até que o cordão de uma das cordas se corta e a pandorga "Vai-a-bahia", expressão que significa perder-se a pandorga no horizonte distante.

Também usam o costume de "mandar telegramas": enfiam pequenos círculos de papel no barbante e estes, impulsionados pelo vento, sobem até as "guias" da pandorga.

E quase nunca dispensam o "roncador", franjas de papel coladas em barbantes, por fora do corpo da pandorga e que, realmente, roncam ao passar do vento.

Pião, Piorra, Cinco Marias, ...


  • 17 - Jogo do "Paraguaio" - cara ou coroa provocados com batidas de uma ficha de pedra ou metal. Virou, ganhou.

  • 18 - Cinco Marias

  • 23 - Piões e Fieiras:
    O que é, o que é:
    Para andar se bota a corda,
    porque com corda não anda,
    sem corda não pode andar.
  • 24 - Piorras
  • 26 - Rapa-tira-bota-deixa - Piorra de mandeira com quatro faces. Em cada face uma das letras: R - T - B - D. "Casam-se" os "valores" das apostas. Cada um gira a piorra com os dedos. Após parar e cair, verifica-se a letra exporta: R = Rapa todos os valores casados. T = Tira só um valor. B - Bota mais um valor. D - Deixa tudo, não tira nada.

PIORRA
Da mesma linha que os piões, só que de tamanho bem menor, com impulso rotatório (giro) produzido com os dedos, ao invés da feiria. As mais comuns são feitas de carretel cortado ao meio. Cada metade dá uma piorra.

Bruxas de pano


Tanto as mobílias e outros brinquedos domésticos, assim como os bruxos e bruxas, são usados para os brinquedos de "comadre", "comidinha" e afins.

"Menina pequena
não dorme na cama,
dorme no regaço
da Senhora Santana".

As bruxas e bruxos são feitos de duas maneiras: pelas mães para dar as filhas (como a que está na rede) ou pelas próprias crianças. Com exceção de dois, todos os elementos expostos são criados por meninas.

Atiradeira

Funda, bodoque ou estilingue são as denominações comuns às crianças gaúchas. Para tiro ao alvo, caça de passarinhos, periás, etc.

Na forquilha dos teus braços
como borrachas me atei,
"caçando" beijos e abraços,
nos teus braços rebentei!"

ATIRADEIRA
Pequena arma para caçar passarinhos. No RS é conhecida como funda, bodoque ou estilingue. Trata-se de uma forquilha de mandeira ou outro material, munida de duas tiras de borracha com a largura de um centímetro ou mais, proporcional ao tamanho da forquilha. Nas duas pontas dos galhos desta, atam-se duas das pontas das borrachas, cujo comprimento também é proporcional. As outras duas, num pedaço retangular de couro (o mais usado), que serve de paoio às pedras que serão projetadas.Usada, também, esportivamente, para o tiro ao alvo.

Obs.: Um dos costumes dos nossos guris é fazer um entalhe ou mossa no cabo da forquilha para assinalar quantas peças abateu.

Comentários

É claro que sei que deixei muita coisa de fora.

Minha intenção não era copiar o excelente livro do Glaucus mas sim apresentar um panorama geral de termos que são usados no Rio Grande e que, muitas vezes, aparecem em músicas ou são comentados e a gente nem sabe o que é. Mas "mundéu" agora tu já o sabes!

Deixei de fora jogo de bolitas, telefone de plástico, catavento, carrinho de lata, apito de taquara, caniços, armas brancas e espingardas de brinqueto, carrinho de lomba, perna de pau, trabuco, arco e flecha, zarabatana, foguetinho, sapata e mais uma enorme pencas de outras coisas.

Mas o que tem, tem, non?