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REPORTAGEM ESPECIAL

O mais se perdeu nas noites de galpão
Confira a poesia de Jayme Caetano Braun

Senhor da linguagem e do vento
Jayme Caetano Braun morreu ontem aos 75 anos

ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES

(foto Banco de Dados/ZH, 17/3/83)

        Cuerpo presente, alma ausente. Yo quiero aqui los hombres de a caballo, como Lorca diante do corpo inanimado de Ignacio Sanchez Mejía, buscando la salida para este capitán atado por la muerte.

        Jayme Caetano Braun chegou deitado como dormido em seu esquife de dura madeira campeira. Pilchado, como convém aos que se vão de tropa estrada afora, tinha um lenço maragato atado no pescoço. Ele, o Chimango, que herdara o seu lenço branco do ídolo, o coronel Laurindo Ramos, na Bossoroca. Falei com dona Bréa, a companheira terna, a indiazinha que lhe devolvera o gosto das Missões.

        – Na hora não achei o lenço branco, nem a boina branca de que ele tanto gostava.

        Tirei o lenço branco dos Fagundes do meu pescoço e ofereci o velho gonfalão para que acompanhasse o poeta na última tropeada. Com a ajuda dos companheiros, trocamos o lenço colorado (que ele usou, por companheirismo, algumas vezes nos últimos tempos) pelo lenço branco, que sempre foi dele, que lhe deu o apelido carinhoso entre os amigos: Chimango. Mas aí chegou o governador Olívio Dutra, seu amigo e seu conterrâneo dos tempos em que a Bossoroca pertencia a São Luiz Gonzaga, e alguém achou que o poeta podia levar os dois lenços, que ele cantou em Branco e Colorado: “Até Deus Nosso Senhor, que usou bota, espora e mango, lhes garanto que é Chimango – se Maragato não for!”.

        Jayme Caetano Braun, o mais gauchesco dos nossos poetas, o missioneiro de espinha dura, mestre da payada arrocinada, senhor da linguagem e do vento, o último grande de uma progênie de grandes, partiu. O Rio Grande do Sul ficou menos grande.

        Os nomes mais famosos do gauchismo, da cultura em geral, estavam lá, hieráticos. A gente tem a impressão de que algum Deus campeiro esculpe em cedro das Missões cada um dos que vão caindo, para compor uma galeria sagrada para o altar do pago. Aqueles homens e mulheres que choravam em silêncio no Salão Negrinho do Pastoreio (o espaço mais nobre do palácio do governo gaúcho homenageia um negrinho humilde, escravo dos nossos campos, que coisa, hein, Chimango?) pareciam ter essa consciência. Eram, mais que admiradores do poeta, devotos de uma crença xucra, meio santa, meio pagã. Davidson Labrea, a meu pedido, comandou um Pai Nosso, ocasião em que todos se deram as mãos. A emoção era tão espessa que podia ser cortada a faca! Ary Fernandes Gonçalves (por quem ele perguntou na última entrevista que me concedeu) declamou Tio Anastácio, e tinha gente que chorava de fazer barro. Declamadores e declamadoras iam deixando sua derradeira homenagem ao poeta querido. Os mestres de truco do Pitoco guardaram uma flor de espadas no caixão do mestre-companheiro que partia.

        Quando o caixão foi retirado do palácio, para a última viagem, a temperatura baixara perigosamente e um minuano uivava em volta, como um cachorro louco. Fazia frio, de repente, e o céu estava chumbado. Deus Nosso Senhor tinha decretado luto para o Rio Grande inteiro.

        Na viatura da funerária que transportava o grande morto, havia um decalco dizendo: “Ah, eu sou gaúcho, tchê!”. Na hora, parecia mais um lamento.

        

A LEMBRANÇA DO PAYADOR
“Nós todos nos sentimos órfãos. Jayme Caetno Braun foi um manancial, cacimba da mais pura manifestação de nossa cultura.” Olívio Dutra, governador do Estado
“O mestre dos payadores. Jayme é o símbolo máximo do gauchismo. Perdemos o convívio, mas o Jayme se eterniza.” Eraci Rocha, presidente do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF)
“Jayme Caetano Braun sempre guardava para arremate um desfecho inusitado. Ele participava do milagre da criação.” João Sampaio, compositor
“ Só posso dizer do enorme vazio que ele deixa. O grande divulgador da payada parte sem ter tido um continuador.” Barbosa Lessa, escritor
“O Jayme se constitui no panorama da literatura gaúcha como um dos mais expressivos da temática nativa. Ele englobava os grandes problemas universais e não se restringia a assuntos galponeiros. O Jayme, embora se dissesse um nativista, era um grande versejador. É um dom divino colocar o tema da terra nos questionamentos universais.” Paixão Côrtes, folclorista
“Quem partiu agora não foi apenas um homem, mas uma bandeira de cultura. Jayme foi um homem ímpar. Me sinto honrado de ter sido contemporâneo dele. Estou sozinho. Como se tivesse perdido uma das coisas mais importantes da minha vida.” Lúcio Yanel, músico
“Era o grande timoneiro do movimento gaúcho. O que tinha que dizer, ele dizia.” Telmo Tartarotti, diretor da Rádio Liberdade FM
“Eu choro o homem. O que me deixa mais triste é que o meio artístico não produz mais homens como ele. Era um poeta destemido, corajoso. Ele reivindicava com a poesia. O Jayme Caetano Braun é como o Chico Buarque: me diz uma música ruim do Chico Buarque. O trabalho dele é pautado pela linguagem poética, ele nunca apelou. Até nas brigas de baile tem riqueza. É uma lenda. Não vai ter outro. Era um poeta cidadão, agia através da arte. Era um homem isento, independente.” João de Almeida Neto, músico
“O Jayme Caetano Braun não está na Academia Brasileira de Letras porque o regionalismo gaúcho não é aceito em todo o Brasil, como é o regionalismo do centro do país. Ele foi muito grande. Sabia dizer as coisas como todo gaúcho que conhece as lidas do campo.” Alex Hohemberger, diretor da Gravadora USA Discos
“Quando comecei no tradicionalismo, na invernada artística do CTG 35, nas apresentações eu declamava o Bochincho. Desde cedo aprendi a ler os livros do Jayme. Todo gaúcho o tem como o maior poeta do Estado.” Renato Borghetti, acordeonista
“O maior poeta que esse Estado teve, ao lado de Aureliano de Figueiredo Pinto. Ele nos deixa uma obra extensa.” Rui Biriva, músico
“O Jayme é referência para todo aquele que milita no Rio Grande do Sul. Foi o grande poeta que tivemos. Payador é o Jayme Caetano Braun e mais ninguém. Era uma pessoa radical na forma de pensar, sem abrir mão do que pensava.” Leo Almeida, músico
“Jayme foi um dos maiores poetas da nossa terra. Sua morte representa uma perda irreparável para o Rio Grande do Sul. A preocupação com os pobres e a indignação com a exploração das elites foram a sua maior fonte inspiradora. Particularmente, perdi um amigo, um parceiro e o padrinho de batismo.” Pedro Ortaça, músico


Senhor da linguagem e do vento
Confira a poesia de Jayme Caetano Braun

O mais se perdeu nas noites de galpão

MARCELO MACHADO
Especial/ZH

        Ele foi alambrador, tropeiro e curandeiro. Um artista missioneiro que fez da sua região o seu mundo. Da sua aldeia, uma pátria. Aos amigos, Jayme Caetano Braun costumava dizer que não era um poeta, apenas um payador. Nascido em 1924 em Timbaúva, distrito de São Luiz Gonzaga (hoje Bossoroca), o autor dos clássicos Bochincho, Galpão de Estância, Tio Anastácio e Galo de Rinha morreu às 5h30min de ontem, na Clínica São José, em Porto Alegre, vítima de complicações cardiovasculares. Morreu depois de receber quatro pontes de safena, enfrentar problemas de depressão e tentar o suicídio. Seu corpo foi velado no Palácio Piratini.

        Há tempos Jayme Caetano Braun não recebia os amigos. Perdera o gosto pela vida. Padrinho de muitos artistas, chamava-os de filhos, contava causos, fumava um charuto, fazia um mate, abria um sorriso. Adorava reculutar lembranças. Dizia o que tinha vontade de dizer, gostassem ou não. Lia jornais de diferentes lugares do mundo. Era um especialista em remédios caseiros – afirmava que todo missioneiro tem a obrigação de ser um curador.

        Sonhava fazer Medicina. Sem completar o Ensino Médio, acabou se tornando um autodidata. Sua imensa cultura foi apurada no período em que ocupou o cargo de diretor da Biblioteca Pública do Estado, entre 1959 e 1963. Especializou-se em décimas (poemas com estrofes de 10 versos). Os poemas, que começou a escrever piazito, por influência da família, foram publicados em vários livros. O primeiro, Galpão de Estância (1954), trazia versos de temática campeira, quase sempre dedicados a objetos do universo do homem da Campanha: relhos, chilenas, laços, carretas. Jayme foi um dos fundadores da Estância da Poesia Crioula, grupo de poetas tradicionalistas que se reuniu no final dos anos 50. Sua memória era uma arca sem fundo, que ele jamais se importou em trazer para a cidade.

        – Seus livros nada mais são do que instantâneos de algumas notas que o autor conservou – disse a seu respeito o poeta Balbino Marques da Rocha. – O mais se perdeu e se perderá nas noites de galpão.

        Jayme Caetano Braun era um artista polêmico, radical ao defender seus pontos de vista. Chegava a criticar quem ousasse tratar de um tema por ele já abordado. A tudo, porém, respondia com versos. Comparado a um corvo, numa referência a seu gosto por roupas escuras, respondeu certa vez: “O corvo é uma ave higiênica, que limpa todos os campos”.

        Escrevia sobre a cena campeira. Descrevia o Rio Uruguai, o domador de cavalos, o fogão da campanha, a religiosidade do gaúcho. Apaixonado pela cultura platina, costumava dizer:

        – Isso aqui é um pampa só.

        Para ele, brasileiros, uruguaios e argentinos são “piedras del mismo camino / aguas del mismo caudal”, como escreveu, em espanhol, em sua Milonga de Tres Banderas. Em seu panteão, Osório reunia-se a Artigas e San Martín. O gaudério anônimo de Bochincho era irmão de Martín Fierro, do Viejo Pancho, de Santos Vega e de Blau Nunes.

        Radialista, sua obra se espalhou pelo Brasil afora. Minas Gerais, Ceará, Pernambuco e Goiás são alguns dos lugares que têm CTGs com seu nome. Lançou discos e foi gravado por diferentes intérpretes nativistas. Uma coisa é certa: Jayme Caetano Braun foi inimitável. Sua arte era única, ninguém como ele fazia uma declamação improvisada com uma milongueada de violão.

        O destino fez com que morresse um dia antes de seu novo CD ser lançado. Hoje, como previsto, Êxitos 1, gravado há um ano e meio, chega à gravadora Usa Discos e segunda-feira, às lojas. O lançamento havia sido adiado porque Jayme queria estar em melhores condições de saúde.

        A voz do payador está aprisionada para sempre nos registros de estúdio. Para que sua emoção vibre, porém, basta que um declamador, em noite de lua e violão, quebre o silêncio com versos como “A um bochincho – certa feita, / fui chegando – de curioso, / que o vício – é que nem sarnoso, / nunca pára – nem se ajeita”. A partir desse momento, o poema correrá como um olho d’água. Afinal – como ele garantia –, para escutar payadores, até o silêncio se cala.

        

O PAYADOR EM 14 DATAS
Jayme Caetano Braun deixa uma extensa obra em livros e discos:
1924 – Jayme Caetano Braun nasce em Timbaúva, antigo 3º Distrito de São Luiz Gonzaga, hoje município de Bossoroca. O pai era filho de imigrantes alemães e a mãe, uma chirua bugra.
1943 – Começa a publicar poemas no jornal A Notícia, de São Luiz Gonzaga.
1945 – Começa a atuar na política, participando em palanques de comício como payador. O poema O Petiço de São Borja, publicado em revistas e jornais do país, fala de Getúlio Vargas. Participa da campanha de Ruy Ramos, com o poema O Mouro do Alegrete, como era conhecido. Nos anos seguintes, participa das campanhas de Leonel Brizola, João Goulart e Egidio Michaelsen.
1948 – Dirige o programa radiofônico Galpão de Estância, em São Luiz Gonzaga.
1954 – Publica Galpão da Estância, o primeiro livro.
1958 – Sai a primeira edição da coletânea De Fogão em Fogão.
1965 – Lança o livro Potreiro de Guaxos.
1966 – Publica três livros: Bota de Garrão, Brasil Grande do Sul e Passagens Perdidas.
1973 – Participa do programa semanal Brasil Grande do Sul, na Rádio Guaíba, com produção de Flávio Alcaraz Gomes. O programa ficou no ar por 15 anos.
1990 – Lança o livro Payador e Troveiro.
1993 – Lança o disco Paisagens Perdidas, com sucessos como Mangueira de Pedra, Tio Anastácio, Cordeiro Guacho e Payada da Primavera.
1993 – Sai o disco Poemas Gaúchos, com sucessos como Payada da Saudade, Piazedo, Remorsos de Castrador, Cemitério de Campanha e Galo de Rinha.
1996 – Publica a antologia poética 50 Anos de Poesia.
1999 – Jayme Caetano Braun morre em Porto Alegre.


Senhor da linguagem e do vento
O mais se perdeu nas noites de galpão

Confira a poesia de Jayme Caetano Braun

        Mas que importa a diferença

        Entre uma cruz falquejada

        E a tumba marmorizada

        De quem viveu na opulência?

        Que importa a cruz da indigência

        A quem não vive mais,

        Se todos somos iguais

        Depois que finda a existência?

        Que importa a coroa fina

        E a vela de esparmacete?

        Se entre os varais do teu brete

        Nada mais tem importância?

        Um patrão, um peão de estância

        Um doutor, uma donzela?

        Tudo, tudo se nivela

        Pela insignificância

        (trecho do poema Cemitério de Campanha)

        Quando piá, foi o prazer

        Que nunca troquei por outro

        Saltar no lombo dum potro

        Quando a manada saía

        Artes que a gente fazia,

        Se acaso estava solito

        E depois pregava o grito

        Quando o bagual se perdia!

        (trecho de Gineteando)

        Bendita china gaúcha

        Que és a rainha do pampa

        E tens na divina estampa

        Um quê de nobre e altivo.

        És perfume, és lenitivo

        Que nos encanta e suaviza

        E num minuto escraviza

        O índio mais primitivo

        (trecho de China)

        Meu patrício, aí foi o mate

        Vá chupando, despacito

        Que é triste matear solito

        Quando a velhice nos bate.

        Por isso, neste arremate,

        Que chegou num arrepio,

        Meu velho peito vazio

        Que já teve tanta dona

        Ressonga que nem cordeona

        Nos bailes do rancherio

        (trecho de Mateando)

        Trago na genealogia

        índios, negros, lusitanos

        mestiços e castelhanos

        brotados da geografia

        que a hora em que me paria,

        livre de mal e quebranto,

        parou pra ouvir meu canto

        mesclado com ventania

        (trecho de Gaúchos)

        Rincão da flor colorada

        No topete das morenas

        Do tilintar das chilenas

        E do umbu, triste e sozinho

        De onde o bem-te-vi, do ninho

        Nas alvoradas serenas

        Desfia um sem-fim de penas

        Na evocação de um carinho

        (trecho de Querência)

        No galpão tudo é silêncio

        A cachorrada cochila

        E a peonada se perfila

        Estirada nos arreios

        Só se escutam os floreios

        Da mamangava lubuna

        Fazendo zoada, importuna,

        Nos buracos dos esteios

        (trecho de Hora da Sesta)

        Mãe do pobre peão de estância,

        Miserável dos galpões

        O pária das solidões

        Maltrapilho, analfabeto

        Mãe que sob humilde teto

        Pressente o trote do pingo

        Do filho que vem, domingo,

        Trazer-lhe um pouco de afeto

        (trecho de Mãe Crioula)