LITERATURA

As raízes da payada

A despedida do payador
Chega às lojas "Êxitos 1", o último CD de Jayme Caetano Braun

MARCELO MACHADO
Especial/ZH

Foto Banco de Dados/ZH

        Há mais de um ano, Jayme Caetano Braun gravou dois discos, com a reedição de poemas históricos e a apresentação de algumas composições inéditas. Mas o payador queria adiar o lançamento dos CDs para estar em melhores condições de saúde e tirar boas fotografias para a capa dos álbuns. Ele não teve este tempo. Morreu um dia antes de receber a notícia de que Êxitos 1, o primeiro disco da série, estava chegando ao mercado. Êxitos 2 ainda não tem data de lançamento.

        Nos últimos tempos, o payador tinha entregado as rédeas. Abatido por problemas cardíacos, tentou o suicídio em janeiro de 1997. A mão errou o alvo e o coração missioneiro seguiu batendo. Mas, aos amigos, confessava que tinha cansado da vida. A Telmo Lima de Freitas, o payador descreveu em linguagem campeira o seu pessimismo:

        – Eu já enrodilhei meu laço.

        Embora uma mórbida tradição dite que artistas só podem ser reconhecidos depois de mortos, Jayme sempre foi em vida uma das referências do gauchismo. Ao lado de Noel Guarany e Cenair Maicá, segue sendo declamado "aos quatro-ventos", como se diz na Fronteira. E isso não é nenhuma casualidade – ele sabia do que estava falando. Quando dizia, por exemplo, em Galpão Nativo, "Meu velho galpão de estância / Da Pampa Verde-Amarela / Que ficou de sentinela / Da história da nossa infância", recordava os tempos em que conduzia tropas de gado e alambrava cercas.

        Se os missioneiros são "malditos" por terem afirmado algumas verdades que muitos não queriam escutar, só a história vai confirmar. Mas os malditos também são bons poetas. Êxitos 1 comprova isso, por exemplo, no clássico Tio Anastácio, na declamação "anunciando aos amanhãs que o gaúcho não morreu" em Galpão Nativo, e ainda em Petiço Baio, quando o payador pede que, ao morrer, sua cabeça seja ajeitada na direção da querência.

        O disco é mais um capítulo na luta de Jayme Caetano Braun para registrar seu trabalho. Certo dia, ao chegar ao estúdio, percebeu que havia perdido as letras das poesias e já não tinha de memória todos os versos. A solução foi sair à procura de livros para encontrar os versos perdidos. Os técnicos da gravadora ficaram apreensivos. Temiam pela saúde do poeta.

        Em uma fita gravada durante as sessões de estúdio ficaram reproduzidos os comentários de Jayme após a gravação de cada uma das composições. Depois da última payada, ao retirar o fone dos ouvidos, o payador disse apenas:

        – Cansei.

        O estúdio parou. Era como se tivesse sido colocado um ponto final da carreira. A morte é um dos temas recorrentes na obra de Jayme Caetano Braun. Nas letras das 10 faixas de Êxitos 1, surgem versos como "só vai ao céu quem merece", "morreste no corredor como matungo sem dono", "e agora quem está vivendo na Estância Grande do Céu", "que no céu me guarde um santo" e "o triste é quando morremos abandonados assim".

        O poeta se despediu em versos. Na última estrofe do álbum, Peão de Tropa, Jayme Caetano Braun afirma "Não tenho rancho – nem acho falta / O meu destino – é andar ao leú / Talvez um dia – erga meu rancho / Na estrada larga – que vai pro céu".

        

SAIBA MAIS
O QUE: Êxitos 1, de Jayme Caetano Braun, com participação de Lúcio Yanel. Lançamento da Usa Discos
QUANTO: R$ 9,90


A despedida do payador

As raízes da payada

ROGER LERINA

        A payada é uma forma poética nascida na campanha argentina e uruguaia em meados do século passado, em geral um repente em décima (estrofe de 10 versos), de redondilha maior (verso de sete sílabas) e rima entrelaçada (todos os versos rimam entre si, alternadamente).

        As raízes da payada remontam aos romances e quadras medievais e renascentistas, de temática popular, trazidos pelos povoadores espanhóis do território platino. O contato com o linguajar e com o dia-a-dia da vida campeira, porém, adaptou essas expressões à realidade da campanha.

        O payador surge então como um artista errante que leva aos mais distantes rincões informação e entretenimento, por meio do relato de improviso dos acontecimentos da Capital (Buenos Aires ou Montevidéu). Acompanhando-se ao violão no embalar de uma milonga ou solito, sem instrumento, o payador era uma figura respeitadíssima – há relatos de que mesmo em campos de batalha o primeiro mate era dele, atropelando a hierarquia militar.

        A mais célebre payada literária é o poema épico em sextilhas Martín Fierro (1872), escrito pelo argentino José Hernández. Ainda hoje a payada é uma expressão cultural forte na Argentina e no Uruguai, com nomes como o uruguaio Gustavo Villón e os argentinos José Larraude e Argentino Luna.

        A payada, no entanto, não vingou no Rio Grande do Sul. Poucos poetas e cantadores daqui seguiram a tradição, e muitos pesquisadores apontam Jayme Caetano Braun como sendo o único payador autêntico brasileiro, capaz de payar em espanhol e enfrentar em payadas de desafio os mestres platinos, como o legendário uruguaio Sandálio Santos – que dizem ter sido o "professor" de paya de Jayme.