Jayme Caetano Braun se foi

Galpão Crioulo - Antonio Augusto Fagundes

Desde um ano e meio atrás que a saúde do poeta era motivo de preocupação para a família e para os milhares de amigos e admiradores. Nos começos do ano passado, ele quis partir. E se atirou. Hospitalizado, o povo gaúcho inteiro, irmanado no mesmo pedido a Deus, não deixou o poeta morrer. Falei nisso aqui, nessas colunas. Fui o primeiro a chegar ao hospital, e como chovia! Acho que a prece que fiz então chegou muito sonora ao céu, porque nós, o Jayme e eu, estávamos separados por anos de desavenças, questiúnculas, nessas pequenas misérias da vida humana.

Mas não: atrás dos desencontros havia uma biografia a ser preservada. Eu era um guri quando a bonita e talentosa Ecildinha Ramos, filha do deputado Rui Ramos e parente do poeta, apareceu no Alegrete declamando Tapera, de Jayme Caetano Braun. Ela, com graça e inteligência, destacava a adolescência do poeta tão autêntico e tão precoce. Por ela, eu fiquei sabendo que o Jayme preparava em São Luiz Gonzaga um livro, a ser chamado Galpão de Estância (mais tarde publicado e hoje nome de dois ou três CTGs por aí). Guris, nós dois. Eu não o conhecia e já gostava de Jayme Caetano Braun.

No inverno de 1954, o deputado Rui Ramos apareceu com grande brilho no 1o Congresso Tradicionalismo do Rio Grande do Sul, reunido em Santa Maria. Lá estavam todos os grandes nomes da época e lá Rui Ramos lançou para o mundo tradicionalista o nome do jovem poeta que surgia. Nesse ano eu entrei para o pioneiro 35 CTG pela mão do grande poeta Lauro Rodrigues e no fim do ano passei a publicar uma página inteira, em cores, semanal, no jornal A Hora, recém-fundado e no qual ingressei pela mão de Josué Guimarães (posso me gabar de ter publicado o primeiro conto do Josué, O Mió péca do mundo...?).

Fiquei sabendo pelos Ramos que o Jayme morava em Porto Alegre, trabalhava parece que na farmácia do Ipase, entendia de remédios uma coisa por demais. Fui procurá-lo e nos tornamos amigos à primeira vista. Passei a publicar os seus versos na página de A Hora. Fiz-lhe a biografia. Dei-lhe o apelido de Chimango. Ele me mandava cartas em verso, uma das quais ficou famosa e anda por aí declamada por muita gente boa e que começava assim: "Meu Patrão Antonio Augusto, esta vez não é a primeira que nesta folha campeira..." e por aí se ia o poeta profligando o uso de termos estrangeiros em detrimento do linguajar gauchesco.

Graças a Otavio Augusto Vampré, o Paixão Cortês foi chamado para comandar um programa de rádio com duas horas de duração em horário nobre, o Grande Rodeio Coringa. Paixão inventou de convidar para trabalhar a seu lado um velho amigo da adolescência no Colégio União, em Uruguaiana - Darcy Fagundes (que mais tarde vai comandar o programa, quando o Paixão se afastar). Eu tive a honra de levar Jayme Caetano Braun ao Paixão e ao Darcy e este fazia questão de declamar cada poema do Chimango em que conseguia botar as mãos. Em um ano, quando muito, Jayme Caetano Braun era autêntica celebridade em todo o Estado. Seu segredos? Vários.

Em primeiro lugar, a estampa. Alto e enxuto de carnes, o Jayme era espigado, tinha um perfil agressivo, usava bigode e melenas. A voz era clara e alta. Parecia um Chimango, mesmo, coma quele lenço branco e umas esporas chilenas que o deputado Rui Ramos tinha trazido de Santiago para ele. Em segundo lugar, o incrível conhecimento prático da vida campeira. Ninguém conheceu melhor do que ele nosso linguajar, por exemplo. Montava como um ginete e jogava truco como um mestre - o que realmente foi. Curiosamente, num meio onde os mulherengos são maioria, ele não era mulherengo e sim um homem de amor constante. Acho mesmo que só amou duas vezes na vida - as suas duas e sucessivas esposas, mulheres extraordinárias, de grande valor, dona Nilda e dona Bréa, a quem desde aqui rendo as minhas homenagens.

Outro dos segredos do Jayme era a sua incomensurável capacidade de improvisar. Guri galponeiro, já se entreverava na trova de a porfia em mi maior de gavetão com os maiores sabiás do pago. Logo, inquieto e ledor, descobre os castelhanos, começando, é claro, pelo Martin Fierro e repassando Ascasubi, Estanislao del Campo, Rafael Obligado et caterva. E chega a Serafin J. Garcia, Osiris Rodrigues Castillos, El Viejo Pancho, Sandalio santos... Este último vai lhe ensinar o truco de amostra da payada em décimas, ao som de milonga.

Em 1962, eu organizei em Porto Alegre o 2o Congresso Internacional de Tradicionalismo, de que foi presidente o grande Carlos Galvão Kerbs. Ali, na antiga Churrascaria Hércules, o Jayme Caetano Braun se pegou numa "payada de contrapunto" com o uruguaino Sandalio Santos e com o argentino Cayetano Daglio, el Pachequito, que foi uma das coisas mais lindas que eu já ouvi na minha vida. Mundo afora, em inúmeras ocasiões, ele irá repetir a façanha, improvisando em igualdade de condições com os castelhanos, os inventores da payada, inclusive muito recentemente, aqui em Vacaria, graças ao Nilson Hoffmann, que apresentou com o Vilmar Romera uma payada verdadeiramente histórica, entre o Jayme e o Rojas "El Brujo", a qual muita gente tem gravada em vídeo.

Por fim, last but not the least, o grande segredo de Jayme era a arquitetura da estrofe, construindo verso a verso, com métrica perfeita (velho mérito de improvisador) e rima obrigatória (velhor mérito de payador acostumado a improvisar décimas onde todo sos versos têm que rimar).

Sua poesia era vocativa, altissonante, com forte tônus épico. Falava, eloqüênte, com o tema da poesia: "Oh, tu..." e aí era o cordeiro guaxo, o tirador, Sepé Tiarayu, o negro Anastácio. Sempre assim. Nunca mudou e nunca cansou. Todos os segredos de Jayme Caetano Braun podem se resumir num só - talento. Ele tinha talento demais. E por isso não deixa seguidores, nem discípulos. Deixa, quando muito, imitadores.

Foi-se o Chimango de bico adunco e garras de aço. Foi-se o terno cantador dos guaxos sem sorte, dos párias do campo. Foi-se o cantor, não a canção. Angoéra missioneiro, ficará por aí, no bojo das violas, no fole das gaitas, na garganta dos sabiás e das calhandras. E se alguém estranhar um santo novo talhado a facão no cedro missioneiro, de topete erguido e perfil de aguilucho que pode aparecer por aí, me avisem, me mandem mensagens, gritem nas vozes do vento: Jayme Caetano Braun se entronizou para sempre no céu do pago...