O Rio Grande chora a perda do seu pajador

O poeta nativista Jayme Caetano Braun, símbolo do tradicionalismo, morreu ontem aos 75 anos, vítima de uma parada cardíaca

Luciane Recknagel

Uma perda irreparável ao povo gaúcho e ao tradicionalismo ocorreu por volta das 6h de ontem, quando o poeta Jayme Caetano Braun, símbolo da cultura do Rio Grande do Sul, faleceu, vítima de uma parada cardíaca, aos 75 anos.

Foto de Roberto Santos Nascido em 30 de janeiro de 1924, na localidade de Bossoroca, que na época pertencia a São Luiz Gonzaga, Jayme formou-se em jornalismo em 1954 e, na década de 70, trabalhou como radialista na Rádio Guaíba, onde apresentava "Brasil Grande do Sul", programa especial que ia ao ar aos sábados pela manhã. Ele também foi funcionário público estadual. Trabalhou no Instituto de Pensões e Aposentadorias dos Servidores do Estado (Ipase) e dirigiu a Biblioteca Pública de 1959 a 1963. Aposentou-se em 1969.

Considerado um grande pajador, que, de acordo com o Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul, significa "poeta e cantor popular que improvisa versos, geralmente em desafio com o outro, e acompanhando-se ao violão", Jayme foi membro e co-fundador da academia nativista Estância da Poesia Crioula, na Capital. Poeta regionalista, costumava usar os pseudônimos de Piraju, Martín Fierro e Andarengo.

É o único artista gaúcho que tem discos gravados exclusivamente com pajadas. Uma de suas obras antológicas, "Pajador, Pampa e Guitarra", foi gravada em parceria com Noel Guarany, expoente da música missioneira. Também gravou com Cenair Maicá e Luiz Marenco.

Artista comovia ao declamar suas payadas Dotado de um talento extraordinário, escreveu livros como "Galpão de Estância" (1954), "De fogão em fogão" (1958), "Potreiro de Guaxos" (1965) e "Pendão Farrapo" (1978), alusivo à Revolução Farroupilha.

Entre seus poemas mais declamados pelos poetas regionalistas do país inteiro, destacam-se "Tio Anastácio", "Bochincho" e "Galo de Rinha". Carismático, tornou-se popularmente conhecido não só no Brasil, mas também em países como Uruguai e Argentina. Além disso, há vários CTGs que possuem o seu nome, localizados em diversas cidades brasileiras, inclusive Brasília.

De acordo com Hugo Ramirez, fundados da Estância da Poesia Crioula, Jayme foi o expoente máximo do pajadorismo no Rio Grande do Sul. "Ele dominava o assunto de tal forma que era capaz de transformar qualquer obra literária em versos bem rimados, com uma qualidade indescritível", ressaltou o colega Ramirez, que trabalhou ao lado de Jayme durante muitos anos e acompanhou de perto toda a sua trajetória de sucesso.

No dia 26 de novembro do ano passado, o pajador foi homenageado pela Câmara Municipal da capital gaúcha. Na ocasião, recebeu o título honorífico de cidadão de Porto Alegre. Um de seus principais amigos, o cantor e compositor Pedro Ortaça, de São Luiz Gonzaga, lembrou que Jayme era um poeta que fazia versos na hora e que sempre foi uma pessoa muito humana e carinhosa com seus amigos. "Ele era um marco missioneiro, um marco do Rio Grande e um marco da poesia xucra", recordou Ortaça.