Indumentária

A influência do estilo do consumidor contemporâneo na indumentária gauchesca feminina

 

Carolina Quadros Desbessell
e-mail: desbessell@gaz.com.br
Curso de Publicidade e Propaganda - 1999
Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC

Nossa sociedade se autodenomina como sociedade de consumo. Estamos na Era do Consumo, onde o que importa são as notas fiscais que acumulamos - certificados de compra que nos conferem determinada colocação social.

O consumidor contemporâneo não possui um estilo único, é resultado de uma miscegenação de culturas e valores. Veste-se conforme o local para onde está indo, não importando se é de seu gosto ou não.

A contemporaneidade interfere nos valores tradicionalistas. A indumentária gaúcha é uma forte representante dessa influência: existem normas de como deve vestir-se um indivíduo tipicamente trajado, mas, aos poucos, os avanços tecnológicos e as tendências da moda mudaram esse modo de vestir. A cada ano os vestidos aparecem com detalhes presentes nas grandes coleções. São detalhes pequenos, sutis até, mas que possuem claramente inspiração na moda vigente. Ressalta-se isso, pois, na antigüidade, os vestidos eram de chita, simples. Hoje em dia, os tecidos são completamente diferentes, uma das restrições é o uso do preto, somente permitido em caso de luto. Características de grupos aparecem nas roupas, especialmente no vestido das prendas. Valores contemporâneos, ícones de uma geração, são, assim, levados e assimilados por uma cultura dita tradicional.

O vestido de prenda, característica forte da mulher tradicionalista gaúcha, sofreu muitas alterações desde o seu surgimento. A vestimenta é uma criação dos fundadores do movimento que foram buscar referência no modo de vestir colonial para compor a indumentária.

A indumentária gauchesca feminina também tem embasamento nas tendências da moda. Ano a ano, percebe-se a mudança nas pilchas seguindo a tendência da moda vigente. Até os vestidos de prenda podem ser considerados fora de moda. A cultura gaúcha constituiu-se a partir de uma série de outras culturas, dos resquícios dos colonizadores, dos valores trazidos dos que foram estudar na Europa, tudo contribuiu para a criação desta cultura tão peculiar. Mesmo com a forte influência alemã e italiana, o tradicionalismo conseguiu expandir-se e firmar raízes.

Os vestidos de prenda são resultados de muita pesquisa por parte das mulheres acerca das tendências. Para tanto, contam com as inúmeras mídias disponíveis e, nesse fim de século, com o acesso ilimitado a informações pela Internet. A cultura gaúcha já assimilou este meio de comunicação. São inúmeras as páginas na Internet que tratam dos costumes e hábitos gaúchos, assim, possibilita-se a difusão das tendências da moda nos mais diferentes países. Detalhes nas coleções européias, americanas, indianas, chegam ao conhecimento das pessoas com muita facilidade, mesclando-se com as tendências regionais e nacionais, podendo ser adaptadas para a realidade tradicionalista.

No MTG pode-se perceber a influência desse comportamento consumista característico da nossa atualidade. A tentativa de sobressair-se dos demais é facilmente notada dentro dos CTGs. As prendas tentam burlar as normas, abusando de babados e afrescos, a fim de parecerem superiores devido a sua pilcha. Tendo o vestido mais belo, mais rico, adquire-se posição superior, demonstrando o poder de consumo, de bom gosto.

Nota-se prendas com vestidos caríssimos, confeccionados em rendas e broderis, ou mesmo veludos. Sem contar as coleções de vestidos ostentados por algumas mulheres. Como na moda corriqueira, não se pode aparecer sempre com o mesmo vestido. Importante ressaltar que a indumentária gauchesca possui trajes diferenciados para as várias atividades. É evidente a preocupação com a imagem dentro do movimento.

A força da moda e de todo o mercado comercial que envolve a sociedade ocasionou mudanças nas normas de como vestir-se. Desde o surgimento do movimento, onde foi implantado o traje, passando pela transição e normas impostas como oficiais em 1989 até as mudanças dentro do MTG em janeiro de 1999. Passado meio século os indivíduos tentam manter o culto vivo, mas com as características contemporâneas muito bem assimiladas e influentes.

Busca-se, neste trabalho, observar o estilo do consumidor contemporâneo e analisar a influência desse estilo na indumentária gauchesca feminina, identificando as característica desta influência.

No desenvolvimento do trabalho fez-se, inicialmente uma pesquisa bibliográfica sobre o estilo do consumidor contemporâneo, sociedade de consumo e sobre tradicionalismo. De posse dessas informações, coletou-se se fotografias de prendas atuais, participantes do 1o FECANT, realizado nos dias 15 e 16 de maio de 1999, em Venâncio Aires. Passou-se, então, a analisar os vestidos das prendas, cruzando as normas do período de fundação do Movimento, com normas atuais de como vestir uma prenda e com as características do estilo do consumidor contemporâneo. Foram analisados a modelagem utilizada, os tipos de tecidos, a padronagem e as cores de tecidos e a relação com as tendências contemporâneas.

A indumentária gauchesca feminina, alvo desse estudo, reflete a influência do estilo contemporâneo divulgado pelas mídias. Em todos os âmbitos do movimento, incorporaram-se os valores difundidos pelos veículos de comunicação.

O estilo do consumidor contemporâneo interfere sim na indumentária. A preocupação com a moda vigente é muito clara na amostra considerada. O estilo de vida, sem uma característica única, mas como mescla de várias culturas, é a realidade na nossa sociedade e no MTG.

O vestido das prendas foi criado pelos fundadores do movimento. Ele tinha um modelo definido que deveria ser copiado, mas, com os avanços tecnológicos em termos de tecido, com tendências da moda vindas dos mais diferentes pontos do mundo, os modelos foram mudando gradativamente. Percebe-se uma maior liberdade em termos de indumentária, assim como o movimento abdicou de muitos valores para conseguir manter o culto, o vestido da prenda recebeu alterações aceitas e regulamentadas pelo MTG.

É através do uso da pilcha que se adquire a imagem de gaúcho, independente do Estado ou País que se viva, pode-se ser gaúcho, pode-se cultuar os valores. O movimento é uma identidade criada. Serve de exemplo de comunicação: criou-se um ideal que foi amplamente difundido e assimilado, tornando-se estilo de vida. A amostra considerada demonstrou a influência do estilo desse consumidor na indumentária gauchesca feminina, as características mais marcantes da moda atual adaptadas ao tradicionalismo.

A moda atual permite a mistura dos mais variados estilos, na indumentária isso também é sentido, são vários os modelos apresentados pelas prendas. As prendas analisadas demonstraram a preocupação com a discrição em seus vestidos, todos primavam por linhas retas e sobriedade, duas das prendas trouxeram motivos florais incorporados à peça, estilo muito em voga na estação atual. Outro senso comum entre as prendas foi o uso de tecidos sintéticos.

Existe muito a cópia do que é usado por pessoas de destaque dentro do movimento, ou mesmo novidades que aparecem, tornando logo moda um babado diferente no vestido, um corte ou um aplique inédito, como na moda cotidiana. O outro serve de espelho, serve de parâmetro de como vestir.

A moda atual permite a mistura de estilos e não traz imperativos marcantes. O reflexo na indumentária é evidente. As prendas submetidas à análise apresentaram modelos diferenciados, mas com uma característica peculiar compartilhada: o predomínio de linhas retas, cores sóbrias e preocupação com a combinação destas cores.

Estamos a vivenciar uma completa interferência de tendências entre os diversos grupos sociais. Os avanços tecnológicos na área da comunicação possibilitaram a difusão de valores nos mais variados segmentos. As culturas, parafraseando Canclini, tornaram-se híbridas. Não há mais cultura pura.

O movimento tradicionalista gaúcho, fruto da criação de alguns jovens alunos, tomou dimensões consideráveis. Movimento proposto a cultuar valores tradicionais gaúchos, implantou, com a ajuda dos veículos de massa, a cultura como originária do Estado.

Entendo o Movimento como um produto, pois, a sua concepção foi para criar uma entidade que representasse e cultuasse os valores folclóricos. Esses valores eram os vividos pelos fundadores em suas cidades de origem. Os costumes foram adaptados à realidade urbana, como os jovens fundadores eram estudantes na capital, precisavam de uma forma de se fazerem fortes. Lançaram mão da cultura dos pampas e conseguiram fazer com que o Movimento se tornasse tradicional.

Um movimento que apresentava tantas resistências e se propunha como tradicional se viu obrigado a aderir aos valores do mercado, tornando-se forte produto comercial. Hoje em dia percebe-se a abertura dos CTGs a valores diferenciados. Cabe citar a música, que incorporou tendências de outros ritmos para tornar-se mais aprazível e principalmente conseguir um maior número de seguidores do movimento. Estes começaram a freqüentar os fandangos, local em que antes só entrava quem estivesse tipicamente trajado.

O gosto pessoal de cada uma interfere muito na confecção da pilcha, mas, o mais importante, é o ineditismo do vestido, a cor mais usada, o modelo que mais se assemelhe às peças cotidianas. Busca-se ser gaúcho sem, contudo, perder as características da contemporaneidade.

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