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Fonte
Livro "História do Rio Grande do Sul em suas origens missioneiras", autoria de Teresa Neumann de Souza Christensen. Editora Unijuí. 2001.

No decorrer do século XVII verificaram-se as primeiras tentativas de ocupação do Rio Grande do Sul, contemporâneas à união das coroas lusitana e espanhola. A ocupação conduzida pelos jesuítas, primeiro (1605) os portugueses e depois (1626) os espanhóis, foi dentro do espírito do uti possidetis, que presidia a legislação consagrada também pela Igreja Católica, instância de decisão internacional, respeitada pelos países católicos em competição na expansão ultramarina. Para os portugueses tratava-se de dilatar a linha de Tordesilhas num momento em que ambos os impérios estavam dinasticamente unidos. Nesse tempo, o Rio Grande de São Pedro se conservava incólume perante as correntes conquistadoras; as suas terras férteis e praticamente inexploradas permaneciam em mãos dos primitivos habitantes, sendo conhecidas apenas como a província do Tape.

UTI POSSIDETIS - Fórmula diplomática que estabelece o direito de um país a um Território. Direito esse fundado na ocupação efetiva e prolongada, independente de qualquer título.

TAPE quer dizer povoação grande, por que corria a fama de existir quantidade incontável de gente. O Padre Roque Gonzalez define o território do Tape em torno de uma superfície de 300 por 100 léguas, o que corresponde aos atuais estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. (Melià, 1981, p.49)

Essa província localizava-se entre a província do Uruguai, conhecida desde os primórdios da penetração europeia e localizada à margem esquerda do grande rio do mesmo nome, e a província de Ibiaçá, que vinha desde Santa Catarina, acompanhando em larga extensão a faixa litorânea (cf. Jaeger, 1958, p.171).

Assim, na imensidão territorial que as três províncias abrangiam, eram realmente os índios guaianás os únicos habitantes e senhores absolutos de todos os domínios, conforme os diferentes grupos em que se distribuíam. Os guaianás habitavam a área dos campos altos, onde apareciam as matas de pinheiros e as matas tropicais. As suas atividades concentravam-se em torno da coleta de frutos silvestres, da caça e da pesca e de uma agricultura rudimentar. As características evidentes desse grupo são as casas subterrâneas, geralmente agrupadas. Essas casas, escavadas no chão e cobertas provavelmente com troncos e terra, mantinham uma temperatura tolerável e constante nas estações frias do ano. O nome guaianá designa várias tribos de índios com relações entre si, com costumes e língua diferentes dos guaranis. O seu habitat era as florestas do Alto Uruguai, tendo como limites aproximados o rio Piratini a oeste, as nascentes do rio Uruguai (rio Pelotas) a leste e a bacia do rio Caí ao Sul.

Os Guaianás ao tempo da conquista eram diferenciados pelos nomes que os cronistas lhes atribuíam. As missões quase não os atingiram, provavelmente porque o seu sistema de abastecimento e assentamento não era suficientemente desenvolvido para embasarem uma missão do tipo reducional. Conforme os documentos missionários, parece que alguns grupos tinham um tipo de vida semelhante ao dos guaranis, mas a maior parte deve ter sido caçador-coletor com algum cultivo. O que aconteceu com os guaianás durante os séculos XVII e XVIII não está muito claro. Poderiam ter se retirado para zonas pouco devassadas ao longo do rio Uruguai ou talvez até mais para o norte (cf. Schmitz, 1977, p.5556). Na região do Planalto Sul-Brasileiro, em terras do Rio Grande do Sul, as tentativas missionárias com os índios caingangues, antigos guaianás (gualachos, para Montoya), estavam ligadas diretamente ao processo de colonização portuguesa. Porém, sofreram enfrentamentos com a colonização alemã a partir de 1824. Conforme nos informa Basile Beclcer, a atuação missionária em área caingangue se processou com o retorno dos jesuítas ao Brasil em 1824, retomando-se as atividades apostólicas no Rio Grande do Sul e Santa Catarina durante os anos de 1848 a 1855 (cf. Beclcer, 1983, p.107).

CAINGANGUES: A etno-história dos caingangues explicita que este foi um povo numeroso, pertencente cultural e linguisticamente ao tronco Jê. Vários historiadores mencionavam a presença dos caingangues com nome de Cuaianá, no período da colonização. Por volta de 1628, Montoya mencionava os Gualachos (que não falavam guarani e que viviam na bacia do rio Tibagi, hoje reconhecida como a região dos caingangues). BECKER: Ítala Basile, 1983.

Na Campanha, grupos denominados minuanos e outros, habitantes do interior mais recôndito, chamados de charruas, abasteciam-se basicamente de caça e pesca. Com a instalação do homem branco nos territórios, esses grupos sofreram modificações importantes na sua cultura: tornaram-se cavaleiros, caçando rezes introduzidas por portugueses e espanhóis. Os charruas e os minuanos foram muitas vezes confundidos pelo colonizador e tratados como um só grupo. No entanto, eram duas populações com diferenças bem marcantes do ponto de vista físico, social e cultural. Seguiam líderes independentes e ocupavam espaços separados.

Os povos nativos da América passaram a ser considerados sem distinção de etnia, de língua e de tradição cultural de ÍNDIOS, o que significa "categoria colonial que deve ser explorada". SCHALENBERGER. Erneldo, In: Anais do VIII Simpósio. Santa Rosa, 1988, p.l l.

Os dados para uma análise demográfica desses povos são muito vagos, porém calcula-se que no início da colonização, esses caçadores seriam em torno de dois mil indivíduos (cf. Becker, 1983, p.113). Os charruas ocupavam ambas as margens do rio Uruguai, enquanto que os minuanos ocupavam o litoral atlântico desde a lagoa Mirim até as proximidades de Montevidéu. Os charruas e os minuanos nunca se deixaram submeter a nenhuma forma de economia colonial. Assim, continuaram caçadores enquanto o colonizador não conseguiu por si só ocupar e incorporar o seu território. A coleta de vegetais era rara entre os charruas. Os minuanos, ao contrário, exploraram largamente os recursos naturais e aprenderam, com os guaranis, o cultivo da mandioca. Nisso reside a principal diferença entre os dois grupos (cf. Beclcer, 1983, p.153).

Nos séculos XVII e XVIII, o colonizador penetrou de forma muito lenta, porém cada vez mais para o interior do território indígena, através das três modalidades mais ativas de pene tração: a introdução do gado, primeiro nas vacarias e depois nas estâncias; a catequese, que procurou juntar os índios em aldeias, porém de maneira infrutífera, uma vez que os charruas e os minuanos nunca se deixaram catequizar como os guaranis e outros grupos; e pelo estabelecimento de centros povoadores que, em última análise, são decorrentes das formas anteriores. A competição entre espanhóis e portugueses permitiu aos indígenas benefícios na colocação de suas mercadorias. Alguns se dedicavam a criar o gado que se reproduzia em seu território. Provavelmente extraíam couros somente das vacas roubadas aos espanhóis, pois não se encontram referências sobre o abate expressamente para extraí-los (cf. Azara apud Becker, 1983). Os charruas e os minuanos eram cada vez mais solicitados pelos colonizadores, tanto espanhóis quanto portugueses, para as mais diferentes formas de trabalho, particularmente para as lides com o gado. Ainda assim, esses índios mantiveram uma relativa independência que era assegurada e negociada por seus líderes, os caciques, que acumulavam cada vez maior representatividade.

A colonização espanhola afirmou-se no confronto militar com os portugueses. Esses, em 1680, fundaram a colônia do Santíssimo Sacramento. A resposta militar espanhola concretizou-se na fundação da cidade-forte de San Felipe de Montevidéu, em 1726, enquanto João de Magalhães instaurava o caminho Laguna-Sacramento, por terra. Os portugueses reforçaram-se diante de Montevidéu: construíram a colônia de Rio Grande de São Pedro, em 1737, e fortificaram a área com o presídio de Jesus-Maria-José, estabelecendo-se sobre os rios Cacequi, Vacacaí e Ibicuiguassu e deixando o seu território original em poder dos espanhóis.

Com o agravamento da ocupação do território pelos colonizadores, nada mais restava a esses indígenas senão, como única alternativa possível, empregar-se com os brancos, ou seja, engajar-se nos conflitos de fronteiras ou nas lutas de independência, ou ainda, como peão de estância, somando-se aos que eram, na época, conhecidos pelo nome pejorativo de gaúchos. Aurélio Porto propõe que o primeiro gaúcho foi dom Miguel de Caraí, também conhecido como dom Miguel Ayala Garay. Ele seria:

"Ponto de transição entre a barbárie e a civilização nascente do branco, em terras do Rio Grande do Sul. Quando os primeiros portugueses palmilharam o litoral, para da Laguna alcançar a Colônia do Sacramento, recém fundada no Prata (1680), em um dos afluentes do Cebollaty, encontraram estabelecido um paraguaio de origem espanhola desse nome e apelido, dom Miguel de Ayala, mais conhecido por Velho Zapata. Era filho desse Velho Zapata e de uma índia minuano, dom Miguel Ayala ou dom Miguel de Caray, último rei dos minuanos, referido também por Saldanha, Alvear, Azara e outros demarcadores [ ...]. E sob a sua dominação que se processa, entre os minuanos o acolhimento hospitaleiro que dispensavam aos brancos e pretos, quer espanhóis, quer portugueses, seus companheiros de guerrilhas com os outros índios." (Porto apud Beclcer, 1983, p.183)

GAÚCHOS: A formação do tipo gaúcho sul-rio-grandense remonta às lutas de fronteiras entre Portugal e Espanha. Os bandeirantes, os tropeiros e contrabandistas paulistas e lagunenses, os aventureiros espanhóis, Santafesinos, os indígenas Tape, Minuano, Charrua e Guarani, os escravos africanos, os soldados e aventureiros portugueses, foram os tipos humanos que cultural e racial compuseram por dois séculos, até o primeiro quartel do séc. XIX, um tipo humano distinto: o gaúcho sulino.

Porém, essa alternativa é passageira, uma vez que, ocorrida a independência política e não sendo mais necessário o seu trabalho, esses índios passaram a ser perseguidos insistentemente pelas forças governamentais para as quais trabalharam, lutaram e sacrificaram grande número de vidas. As perseguições só terminaram com os combates de extermínio em 1831 e 1832, realizados à traição. Nesses combates, charruas e minuanos foram destroçados em campo. Os homens maiores de doze anos foram levados a Montevidéu e colocados à disposição da Companhia de Navegação e as mulheres, os velhos e as crianças, distribuídos entre os moradores da cidade (cf. Beclcer, 1983, p.183). De todo esse contingente de índios, a história registra um saldo de apenas trinta pessoas que escaparam dos últimos combates, porém completamente incapacitadas para reproduzir o modo de vida indígena.

Na análise do relato sobre os charruas e os minuanos, conclui-se que essas comunidades indígenas, irredutíveis em suas práticas e sistemas de representação, em contato com a colonização, construíram uma imagem de si mesmas como um "outro", não colonial, não só para os missionários como para os colonos em geral. Constrangidos à obediência e a tributos materiais e de sangue em troca de um lugar na ordem estabelecida, constituíram uma alternativa de resistência: defenderam os espaços comunitários contra a tentativa de apropriação, fugiram da escravidão, colocando limites à violência escravista, e firmaram domínio em seu território, enquanto foi possível.

Outro grupo era formado por agricultores que se utilizavam da técnica de coivara, conhecido pelo nome de guarani ou tape. Pretendemos especificar mais detalhadamente o seu modo de ser, uma vez que foi com eles estabelecida a experiência reducional, objeto de estudo dos simpósios missioneiros. Esses índios viviam em aldeias grandes e bastante estáveis, compostas de casa de palha, ao redor das quais faziam as suas roças de milho, mandioca, feijão, abóbora, fumo e algodão. Essas aldeias tornaram-se fáceis de serem distinguidas das outras pelo tipo de cerâmica e outros elementos da cultura. A sua história pode ser acompanhada dentro do Rio Grande do Sul, até 475 d.C., por trabalhos arqueológicos. Esse grupo amazônico, migrado para o sul, se adaptou muito bem e passou a colonizar todas as áreas de mata latifoliada da bacia do Prata e da costa brasileira (cf. Schmitz, 1977, p.50, 51).

A colonização inicial se processou ao longo dos rios, ocupando as terras de várzeas. Os rios também serviam como vias de transporte para o abastecimento de água e a sobrevivência alimentar através da pesca. Com o crescimento da população, também as encostas íngremes tiveram de ser cultivadas até onde era possível. Dessa maneira, foram ocupando sistematicamente toda a área compreendida entre os confins do Equador, o rio da Prata e quase todo território brasileiro, além do Uruguai e das províncias de Corrientes e Entre-Ríos, na Argentina. Grupos compactos de guaranis ocupavam platôs até a Cordilheira dos Andes. Não há dúvidas de que essa tenha sido a mais numerosa família da América do Sul.

Costuma-se dizer, simplesmente, que ela ocupava o Paraguai, porque a palavra Paraguai designava, no século XVI, toda a bacia dos três rios que convergem para o Prata, até os Andes, do Chile ao Peru, incluindo o interior da Bolívia, do Brasil e do Uruguai e os pampas ao sul de Buenos Aires até os confins da Terra de Magalhães. Formavam os guaranis uma raça de muitos milhões de almas, distribuídas de maneira mais ou menos densa sobre o continente (cf. Lugon, 1980, p.23).

No início do século XVII as terras de mato do centro do Rio Grande do Sul estavam tão povoadas e gastas que quando os primeiros jesuítas espanhóis penetraram nas suas aldeias constataram que não tinham quase terra para plantar, pelas grandes derrubadas feitas nos matos para o cultivo de lavouras. O padre Roque Gonzales, logo após a sua primeira viagem à região, observou e escreveu que "em todo Tape, como antigamente a gente era muita, acabaram os matos e, assim, lavraram entre serros, montes e vales". Conforme nos informa (Porto 1937, p.24),

"A Província do Tape estava encaixada entre a de Ibiaçá ao norte e a do Uruguai ao sul e oeste e o Atlântico a leste. A norte e oeste era dividida por todo o curso do Jacuí, desde as suas nascentes setentrionais até a Lagoa dos Patos, confinando aí, com a de Ibiaçá. Ao sul, extremava-se da província do Uruguai pela Serra Geral, desce a seção ainda hoje conhecida por Serra dos Tapes até as origens do Jacuí, indo morrer esta vasta região na Coxilha Geral cujos últimos contrafortes penetravam entre os rios Ibicuí e Itu, isto é, na Coxilha do Boqueirão, ponto inicial da penetração do padre Roque Gonzales na Província do Tape."

Nos simpósios missioneiros, a preocupação com essa fase inicial da história da província do Tape tem por base de pesquisa a arqueologia. Nessa linha de investigação situam-se os trabalhos do padre Ignácio Schmitz, de Arno Kern, ítala Basile Beclcer, Pedro Augusto Mentz Ribeiro, José Proenza Brochado e Ferrando La Salvia. Assim, o conhecimento elaborado a partir das investigações arqueológicas comporta as várias tendências apresentadas pelos pesquisadores, no sentido de dar uma nova perspectiva para a produção do conhecimento histórico acerca das missões jesuíticas com os guaranis.