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Organização social e valores



Fonte
Livro "História do Rio Grande do Sul", autoria de Telmo Remião Moure. Editora FTD Ltda. 1994.

Os povos indígenas que habitavam a bacia Platina se dividiam em pequenas comunidades, formando em alguns casos unidades familiares ou clãs. Cada tribo podia abranger mais de um clã, habitando em uma ou mais aldeias.

A divisão desses indígenas em grupos (guaranis, pampeanos e gês) não significa que aglutinavam dezenas de tribos em instituições de tipo federativo ou similares. Na verdade, essa classificação resulta do entendimento que os colonizadores e os pesquisadores tinham (e ainda têm) dos povos indígenas da América. Havia no interior desses grupos rivalidades, disputas e guerras.

Todos esses povos se caracterizavam pelo uso de instrumentos de pedra talhada e de ossos de animais. A sobrevivência era baseada na caça, pesca e nas plantas alimentícias. Essas atividades estavam relacionadas com o caráter de vida social nômade ou, em alguns casos, semi-sedentário. Os guaranis destacaram-se mais como agricultores, ainda que praticassem a caça, pesca e a coleta de plantas silvestres. Os pampeanos e os gês, por sua vez, se dedicavam a uma agricultura muito rudimentar. Seja como for, nos três grupos o trabalho de preparar a terra para o cultivo era realizado pelos homens, utilizando-se a coivara como recurso básico. A semeadura e a colheita eram executadas pelas mulheres. O exercício da caça, da pesca e da guerra era exclusivo dos homens.

A produção de tecidos e utensílios de cerâmica já era praticada pelos indígenas da bacia Platina. Entretanto, os guaranis aprimoraram as técnicas artesanais, e seus produtos eram trocados por outros objetos e serviços entre as tribos do próprio grupo, além de favorecer o contato com os pampeanos, gês e os colonizadores europeus e seus descendentes. Para se protegerem do frio intenso, confeccionavam também vestimentas de peles de animais.

O inverno também estimulou o desenvolvimento de técnicas para a construção de habitações. No planalto, onde viviam os gês, os rigores do inverno exigiram a abertura de covas de tamanhos variados e cobertas. Algumas dessas covas alcançavam até 18 metros de diâmetro por 7 de profundidade. Muitas vezes serviam para os indígenas se esconderem dos colonizadores.

Acreditavam na existência de bons e maus espíritos. Cada tribo possuía um líder religioso cujos conhecimentos sobrenaturais tornavam-o temido e respeitado.

Todos os grupos e tribos indígenas do extremo sul foram influenciados pelos guaranis. Nem os mais arredios, como os charruas, mbohanes, iarós, chanás e guenoas, deixaram de adotar vocábulos, costumes e crenças guaranis.

A poligamia era usual entre os indígenas da bacia Platina. Os chefes tinham direito a um maior número de esposas, para que pudessem dedicar-se mais à tribo. Os casamentos eram feitos entre indivíduos dos clãs, inexistindo praticamente entre membros de tribos diferentes.

A antropofagia também era praticada, mas limitada aos rituais religiosos.

Os indígenas davam grande atenção à limpeza corporal. Os banhos nos rios e riachos faziam parte de seu cotidiano. Tanto os homens como as mulheres enfeitavam-se com penas de pássaros, pequenos ossos de animais, pedras e madeiras, além de usarem os mais diversos tipos de penteados.

Pintavam o corpo com tinturas vegetais e minerais, de acordo com cada momento: nascimentos, casamentos, mortes, guerras e cerimônias religiosas.