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Chinoca



Fonte
artigo de Arno Alvarez Kern, publicado no livro "Nós, os gaúchos", da Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenação de Sergius Gonzaga e Luís Augusto Fischer e publicado em 1992.

Lentamente, para não fazer barulho, a índia levantou-se da rede onde dormia, num gesto repetido milhões de vezes durante séculos pelos seus ancestrais guaranis. Aproximou-se da porta da habitação r olhou para o horizonte. Os primeiros raios do sol iluminavam as névoas do amanhecer. A neblina subia lentamente, emergindo das partes ainda escuras dos vales profundos, deslizando pelo flanco das colinas. Tons róseos c vermelhos iam sendo pintados de maneira impressionista por Quaraí, o sol que nascia para um novo dia luminoso c quente. Ela lembrou que neste momento mágico, nas aldeias dos guaranis, os pajés e os caciques fariam seus mais belos discursos. Com as palavras sagradas, dentre as mais belas da língua tupi-guarani, saudava-se o dia que nascia. Louvava-se também Quaraí, agente e testemunha de mais uma vitória da vida contra as trevas da noite e da morte.

A índia estreitou ainda mais os seus olhos rasgados, tentando ver através das brumas as sombras do vale. Pressentiu de maneira imprecisa o mistério. Sabia que os fantasmas dos antigos guaranis muitas vezes abandonavam suas igaçabas, as urnas funerárias onde estavam enterrados na mesma posição fetal em que haviam sido concebidos por milhares de índias iguais a ela. Vagavam pela noite, buscando a vingança contra os seus inimigos de sempre. Muitos deles tinham sido guerreiros guaranis mortos, ao longo de muitos séculos, nas lutas contra os nômades charruas e minuanos. E muitos destes irredutíveis caçadores, por sua vez, também tinham sido mortos por seu povo. Aqueles bravos guerreiros estavam sempre circulando por todos os vastos espaços do pampa, agora montados nos cavalos obtidos ou roubados dos brancos. E chegavam mesmo até as fímbrias das florestas, onde atacavam as aldeias dos guaranis ou as Missões dos jesuítas.

Desde que as inúmeras levas de migrantes guaranis haviam invadido e colonizado os vales quentes e úmidos dos rios da região, cobertos pelas verdes florestas subtropicais, as guerras contra os antigos habitantes da região haviam sido constantes. Isso ocorrera no interior dessas densas matas onde muitos bandos de um obscuro povo de caçadores c coletores terminaram se submetendo aos guaranis, ao final de dois milênios de contatos e combates. Muitos destes caçadores das florestas, entretanto, haviam subido para o alto do planalto. E ainda lá estavam, instalados em suas aldeias de casas subterrâneas. Refugiados em meio às matas de pinheiros araucária, atacavam também as aldeias dos guaranis situadas nos vales dos rios que desciam as encostas do planalto.

Vindos da Amazônia, os seus antepassados guaranis continuaram a plantar e cultivar suas hortas no solo fértil das matas. Defenderam esses vales que agora eram seus, e neles mantiveram seus padrões culturais imemoriais. Não imaginaram jamais que seriam conquistados e vencidos, por sua ver. Os brancos chegaram quase em silêncio, explorando os litorais e os grandes rios. E hoje dominavam vastos territórios. Muitos dos guaranis sucumbiram diante das armas de fogo trazidas pelos novos conquistadores espanhóis ou portugueses. Em face dos decididos e valentes guerreiros das matas de araucária e dos pampas sem-fins, os seus antepassados guaranis haviam sido muitas vezes vencedores. O mesmo não aconteceu nas lutas contra os novos invasores. Ao longo de quase dois séculos seus antepassados guaranis se, lançaram corajosamente contra estes novos inimigos, desafiando-os com suas armas até então invencíveis. Os tacapes, as fundas, os arcos e as flechas, não eram suficientes ante as armas que disparavam a destruição à distância. O terrível projétil que traria a morte explodia como o raio e soava como o trovão de Tupã. Inúmeros destes novos conquistadores de pele clara foram submetidos ao ritual de honra que se concedia aos inimigos valorosos. Foram comidos pelos guaranis, que buscavam adquirir suas qualidades e seu poder. Tudo em vão. Esses brancos que haviam chegado em imensas ilhas flutuantes de madeira, através do mar, e que se haviam interiorizado pelos férteis vales cobertos pela floresta, conquistaram a terra e o corpo dos guaranis. Esses novos invasores foram os mesmos que levaram para as suas redes as mulheres dos guaranis, para delas fazer suas concubinas e procriar seus filhos mestiços. Como havia acontecido com ela. Pela derrota no campo de batalha, os guerreiros foram submetidos aos trabalhos terríveis da escravidão. Na agricultura, foram atrelados aos arados, juntamente com os bois, como se fossem animais domésticos e, submetidos ao jugo dos senhores brancos. Muitos terminaram morrendo, transformados em combustível da grande fogueira colonial, que necessitava do trabalho dos braços vigorosos dos guerreiros derrotados. Outros fugiram para o recesso das matas para atacar novamente os brancos. Aos milhares, entretanto, eles se refugiaram nas Missões dos jesuítas e franciscanos, únicos espaços consentidos de liberdade onde poderiam sobreviver etnicamente.

Milhares de outros indígenas desapareceram no mais profundo das florestas. Afastando-se das áreas invadidas pelos brancos, partiram em busca de um espaço de liberdade em meio à floresta. Buscavam uma ilusão. Terminaram encontrando outros grupos indígenas, que reagiram violentamente ao ver seus territórios de caça e coleta invadidos. Outras vezes, deram ouvidos aos seus pajés, e partiram liderados por eles em busca de "yvy mara ey", a terra sem mal. Esse paraíso deveria encontrar-se no leste, onde o sol Quaraí nascia. Entretanto, poucos foram tão longe. Eles se, defrontaram com o mar, um obstáculo intransponível. E nas praias do oceano imenso, sem sucesso dançaram noites inteiras para tornar o corpo mais leve e assim poder voar para o oriente. Em lugar da "terra sem mal", entretanto, encontraram os caravelões dos escravagistas de São Vicente. Terminaram conduzidos como escravos para as lavouras de cana de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A índia voltou-se para o interior da moradia. Nada aparentava na face impassível, apenas uma profunda tristeza estampada no olhar, provocada em parte por recordações de tempos passados, em parte por histórias que escutara junto às fogueiras de seu povo. Aproximou-se das cinzas e carvões do fogo de chão que se havia apagado desde a noite anterior. Tornou a acender o fogo e avivar o braseiro. Seus antepassados durante milênios haviam mantido este fogo de chão aceso em suas moradas. Ele lhes protegia do frio, ao mesmo tempo em que dava uma sensação de segurança e de proteção contra a noite e a morte, lá fora. Ela colocou água fresca a esquentar em um recipiente cerâmico, em meio aos carvões e galhos; que queimavam na fogueira. Enquanto isso, preparou um churrasco. Da mesma maneira seus antepassados haviam fincado pedaços de carne de caça no espeto feito de um resistente galho de árvore, cravado no chão junto ao calor das brasas para assar. Logo, um delicioso odor se desprendeu do churrasco, provocado pelos pingos de graxa que caíam no braseiro. Lá fora, o vento frio da manhã começou a soprar, enquanto que o Sol se elevava pouco a pouco, dominando a paisagem. No mosaico de campos e verdes florestas, viam-se aqui e ali as manchas vivas e coloridas de amarelo ou rosa dos ipês coloridos, anunciando a primavera.

Começou a preparar um mate, como há séculos seus antepassados haviam feito. Utilizou uma planta nativa, um porongo, cortado numa das extremidades, de maneira a formar um recipiente vegetal muito útil, a cuia. Colocou no seu interior folhas quebradas e moídas de erva-mate. Acrescentou água e um taquari, ou seja, um canudo de taquara, destinado a sorver a infusão. Em sua memória lembrava ainda a figura de um pajé, tomando esta infusão mágica, como milhares de outros haviam feito antes dele, para tirar da própria natureza a solução dos segredos que ela impunha aos homens.

Voltou-se para a parte mais escura da habitação e acordou o homem que lá dormia, em outra rede. Ela mesma tecera e tingira com suas próprias mãos esta rede onde o seu homem ainda dormia, segundo gestos e padrões milenares de seu povo. Acordou-o suavemente, chamando-o:

- Chê...

Estendeu-lhe o mate nativo, que ele tornou lentamente, ainda bêbado de sono. Sorvendo gole a gole, ele aqueceu as mãos e o corpo, sentindo a bebida começara fazer efeito, afastando para bem longe os véus do sono. Ela olhava para a face branca de seu homem, coberta por barbas e um bigode levemente aloirado pelo sol. Ele chegara após as guerras dos guaranis contra as tropas dos portugueses e dos espanhóis, que haviam invadido as Missões e posto um fim às esperanças de todo um povo. E desde então viviam juntos. Ela vira nele a possibilidade de sobreviver nestes tempos difíceis e ao mesmo tempo de ser amada e protegida. Ele, por sua vez, devia a ela o conhecimento das coisas da terra e a própria sobrevivência do dia-a-dia. Como ela, muitos guaranis decidiram procurar o mundo dos brancos. Alguns foram ser peões nas fazendas, para trabalhar da mesma maneira como tinham feito nas intensas estâncias de gado das Missões. Outros, que tinham aprendido muitos ofícios dos padres, foram ser artesãos nas cidades dos brancos. Terminaram assim desaparecendo como etnia guarani ou como índios missioneiros, para se transformarem pouco a pouco nos milhares de mestiços da sociedade colonial. Ela sabia que seus filhos dariam origem às gerações de mestiços de ar indígena que povoariam estas terras, conservando muitos dos hábitos nativos.

Ele lhe sorriu e a atraiu para junto de si, chamando-a: - Mani, minha bela chinoca.

Os traços indígenas de sua companheira, os olhos rasgados e os cabelos negros e espessos, o levavam a utilizar o termo tão usual na região: chinoca, ou pequena china. E como ela lhe lembrava a cor do amendoim, por sua tez amorenada, ele também a chamava carinhosamente de "Mani", utilizando o termo guarani para designar esta planta. O amendoim era uma planta que descobrira por intermédio dela, assim como tantas outras plantas e ervas medicinais. Eram muito diferentes daquelas que conhecera na Península Ibérica, de onde saíra para uma nova vida em um novo mundo. Terminou pouco a pouco o mate, tomou a encher a cuia e a passou para Mani. Pensou consigo mesmo: este era um hábito ao qual se afeiçoara de tal maneira, que duvidava que um dia pudesse passar sem ele.

Outro hábito do qual sabia que jamais se, livraria, e ao qual tanto se afeiçoara, era Mani. Ela ainda encantava irresistivelmente. Ele passara toda uma vida em meio às repressões e aos controles sociais da sociedade em que nascera e vivera até os trinta anos. Era ainda um pouco inquietador sentir-se tão apaixonado por Mani. E poder praticar com ela o sexo com uma desenvoltura e uma liberdade que jamais imaginara ser possível. Estariam certos os que viam naquelas novas terras, um continente, entregue ao demônio? Ou teriam razão os que diziam que os índios não tinham pecado, o que tornava este novo mundo além do Mar-Oceano um paraíso? Apesar de, ser muito quieta e parecer estar sempre imersa em seus pensamentos, Mani demonstrava que o queria. Entretanto, nunca o chamava por seu nome, Miguel. Apenas se referia a ele como "Chê". Mas quando ouvia Mani chamar-lhe, dizendo suavemente "chê", ele sentia na sua entonação, mais que compreendia, o tom de posse e de propriedade que o curto vocábulo significava, o que lhe agradava muito. Mani, por sua vez, estava feliz de ter encontrado um branco que gostava dela, a protegia e não a ameaçava continuamente com o fogo do inferno. Na Missão para onde todo o seu povo fora em busca de defesa contra o etnocídio, muitas vezes ouvira restrições ao seu comportamento, com ameaças do castigo de Tupã. Isso a havia deixado temerosa porque conhecia perfeitamente bem o poder de destruição do seu raio, quando caía sobre a floresta ou sobre árvores isoladas nos campos. Era evidente, porém, que seu homem tinha alguns hábitos muitos estranhos. Não compreendia muito bem, por exemplo, por que ele relutava tanto em acompanhá-la nos banhos diários nas águas límpidas do rio próximo. Na sua aldeia, todos sempre se banhavam muitas vezes ao dia nas águas das lagoas, e dos rios e arroios. Por que ele parecia temer este, hábito? Ela utilizava seu corpo e sua sensualidade como forma de atraí-lo para dentro da água, no que quase sempre tinha sucesso, pois terminavam fazendo juntos o amor. Pouco a pouco, ela o iria ensinando como se vivia nestas florestas e rios.

Mani se encontrava junto ao fogo, enquanto cuidava do espeto e da carne. Esta deveria ser lentamente cozida pelo calor das brasas. E não queimada externamente pelas chamas enquanto que o interior permanecia cru, como já vira alguns brancos apressados fazerem. Enquanto esperava com paciência, buscou algumas folhas de tabaco que plantara, colhera e secara ao sol, como as mulheres dos guaranis sempre haviam feito com esta planta nativa. Picou todas elas cuidadosamente, no côncavo da mão. Miguel preparou um cigarro palheiro para ele, com uma larga palha de espiga de milho. Enquanto isso, Mani colocou o tabaco no fornilho de um cachimbo de cerâmica. Como a sua mãe, e a mãe de sua mãe, ela mesmo fizera o cachimbo, modelado artesanalmente em argila que trouxera das encostas das colinas, próximo dos veios de água e de suas vertentes. Secara cuidadosamente ao sol o cachimbo, pintado ritualisticamente de vermelho, sabendo que o seu próprio uso e o fogo aceso repetidas vezes seriam responsáveis pela queima final. Enquanto acendia o tabaco, e observava a fumaça subir lentamente no ar da manhã, lembrou que em sua aldeia natal os pajés sopravam a fumaça dos cachimbos na direção das crianças recém-nascidas. Como a bruma da manhã que significava a vida renascida, assim também a fumaça ritual do tabaco daria vida ao pequeno "curumim". Teria ela esta possibilidade? Teria ainda filhos? Os soldados espanhóis e portugueses que a haviam encontrado, violado e surrado, eram responsáveis pelas suas dúvidas. Antes ela não estivesse entre aqueles que preferiram atear fogo à Missão a entregar aos portugueses os povoados que representavam todo o trabalho ele milhares de homens e, mulheres guaranis, ao longo de quase dois séculos.

Quando o churrasco estava quase pronto, ela preparou um beiju de farinha de mandioca, e colocou algumas espigas de milho nas brasas. Miguel s, espantava com o domínio que ela tinha sobre esta natureza que para ele, ainda era em grande parte um mistério, tão diferente eram a flora e a fauna daquelas que ele conhecia desde criança. Mani nunca procurava ensiná-lo, apesar de suas insistências. Para ela, os guerreiros não manipulavam a reprodução das plantas, um atributo das mulheres, por serem as geradoras da vida. Ela mesma plantava e colhia as plantas nativas que o seu povo conhecia desde muitos séculos: a abóbora, o porongo, o amendoim, o tabaco, o algodão, a batata, o feijão, o milho e a mandioca. Seguia padrões culturais já milenares ele seu povo, e por esta sabedoria acumulada conhecia todas as ervas e seus poderes de cura. Miguel observava e aprendia, como esperava que seus filhos viessem também a aprender com Mani. No próprio momento que ela colhia a raiz da mandioca, já enterrava um pedaço do caule e tapava o buraco com o pé. Sabia que ela conhecia também as maneiras de tornar comestível a mandioca amarga. Entretanto, o milho era um mistério, tanto para Miguel como para Mani. Jamais eles o haviam encontrado em estado selvagem. De onde teria surgido? Não podiam imaginar que esta planta era uma invenção dos indígenas americanos, realizada há milênios, com o cruzamento de algumas gramíneas. Enquanto que a observação de todas as plantas mostrava que elas tinham meios para se reproduzir sozinhas, o milho tinha que ser plantado. Sua espiga, se caísse rio chão, apodrecia antes mesmo de germinar. Assim, tornava-se necessário sempre guardar algumas centenas de grãos de milho secos para o próximo plantio. Estes padrões tecnológicos haviam sido aprendidos e seguidos pelos guaranis durante séculos. Mani os reproduzia sem saber que faziam parte de uma tradição cultural que na América tinha nove, mil anos. E que se perpetuaria ainda por muitos séculos. Seria verdade que o domínio das plantas havia sido dado aos guaranis por um herói civilizador, como seus antepassados contavam em volta das fogueiras?

Para Miguel, o primeiro contato com esta natureza tão diferente já ocorrera na viagem, no momento da chegada. Quando passara pelo litoral desta imensa colônia brasileira, no barco que o trouxera para o sul, ficara extasiado com a exuberância da vegetação e com muitas frutas que os indígenas, utilizavam em seu cotidiano: o abacate, a goiaba, o caju, o coco, o abacaxi. O Novo Mundo não fora para ele um choque apenas pela flora. A fauna igualmente era exuberante e diferente de tudo que conhecia. A princípio não entendia muitas das palavras que lhe falavam os portugueses que encontrava nestes territórios. Eram palavras em tupi-guarani, que jamais escutara em Portugal. Eram muito comuns nas frases dos habitantes da colônia: arara, jacaré, tatu, itapeva, taquara, etc. Teriam sido criadas pelo mesmo Deus bíblico responsável pelos animais do Velho Mundo? Ficou muito espantado um dia em que soube que "caí" não era apenas o nome de um rio, mas sim um macaco pequeno. A vida junto de Mani ainda lhe trazia surpresas diárias.

Miguel preparou-se para sair. Terminara outro chimarrão, comera rapidamente algumas lascas generosas de carne e segurou entre os dentes outro paliteiro aceso, com evidente prazer. Colocou sobre a testa uma larga tira de couro, que prendia os cabelos, como ele, vira muitas vezes na cabeça de guerreiros, entre os guaranis e os charruas. Vestiu um poncho que Mani tecera com finos fios de algodão e tingira com belas cores. Ela buscara muito longe os vegetais e os minerais com os quais produzia cores muito vivas e alegres. Miguel se havia rapidamente habituado a utilizar o poncho indígena e o vestia sobre a sua própria roupa. Protegia dos ventos frios do inverno, tanto quando andava a cavalo, como quando dormia nos campos sob a proteção das copas da figueira ou do umbu. Mani entregou-lhe as bolas de boleadeira e ele amarrou com cuidado na cintura. Sabia ele sua utilidade, não apenas na caça às emas e aos veados campeiros, mas igualmente nas lides do gado. Ele observou detidamente as boleadeiras, admirando mais uma vez, a capacidade de quem tinha imaginado este prolongamento cultural tão eficaz para o braço e a mão do caçador. Ele não podia imaginar que as boleadeiras já eram utilizadas há quatro mil anos nas imensas paisagens abertas das planícies do Pampa e da Patagônia.

Montando no cavalo que encilhara, Miguel partiu a galope pelas coxilhas em busca do gado selvagem que por lá se reproduzia desde o século anterior. Ia orgulhoso de ser um autêntico açoriano, de boa cepa lusitana, dono de uma nova terra. Tinha uma memória curta, pois não se dava conta que jamais voltaria a ser um autêntico português. Assim como os conquistadores c colonizadores ibéricos marcaram de maneira indelével o continente com a sua cultura, haviam igualmente sido tocados profundamente pelas raízes culturais indígenas. Chimarrão e poncho, churrasco e palheiro, boleadeiras e fogo de chão, milho e mandioca, redes e cachimbos, tabaco e erva-mate, e tantos outros traços culturais, eram coisas das quais os seus antepassados açorianos, naquelas ilhas perdidas rio Atlântico, jamais haviam ouvido falar.