São Borja

(21/05/1834)

Invasão empurra o Brasil para a guerra

A ex-missão jesuíta de São Francisco de Borja foi um dos tubos de ensaio para o ditador Solano Lopes fazer a Guerra do Paraguai. Em 1865, uma coluna com cerca de 12 mil homens invadiu a terra natal de Getúlio Vargas. Sem reação à altura, as forças estrangeiras ocuparam a cidade por 10 dias. A tomada do município assustou o governo imperial e serviu de estopim para a entrada definitiva dos brasileiros num dos maiores confrontos armados da América do Sul.

Os planos de conquistar o Rio Grande do Sul começaram cedo. Por volta de 1847, quando ainda era tratado de El Generalito, Solano Lopes invadiu a província argentina de Corrientes. Sem ser reconhecido, atravessou o rio Uruguai e verificou as condições de combate em algumas fazendas do interior de São Borja. Quase 20 anos mais tarde, o projeto de invasão foi concluído.

Depois de ocupar o sul da Província do Mato Grosso, o comandante paraguaio decidiu avançar em direção ao território gaúcho. No início de 1865, seu exército contava com mais de 60 mil homens e um grande estoque de armamento e munição. Sob o comando do coronel Antônio de la Cruz Estigarribia, uma coluna com cerca de 12 mil soldados partiu rumo ao Sudeste. A missão: invadir o Rio Grande do Sul e o Estado Oriental do Uruguai.

Mesmo alertado sobre a intenção do inimigo, o chefe das forças da fronteira, coronel Antônio Fernandez Lima, não acreditou na rapidez dos paraguaios e permaneceu com seus 2 mil homens no Passo da Pedra, metade do caminho entre Itaqui e São Borja. Pouco mais de 650 homens tentaram defender a cidade quando os adversários iniciaram a travessia do rio no Passo de São Borja. Eram 10h do dia 10 de junho de 1865.

Depois de quatro horas de luta, os defensores receberam o auxílio do 1o Batalhão dos Voluntários da Pátria, comandado pelo coronel João Maunel Menna Barreto. O reforço de última hora deu uma sobrevida à resistência brasileira. Estigarribia demorou dois dias para dominar a cidade. Controlada a situação, o coronel paraguaio ordenou o saque das casas. A derrotada e assustada São Borja estava deserta.

Como o alvo de Solano Lopes era Uruguaiana (de onde pretendia alcançar o Uruguai e unir forças com Aguirre), Estigarribia não permaneceu muito tempo na cidade. No dia 19 de junho, o ex~ercito paraguaio partiu. O prõximo destino seria Itaqui.

Isolada do teatro das operações, o palco da Guerra do Paraguai não precisou ser reconquistado. Havia sido abandonado por seus próprios atores.

Dinastia Vargas detém o poder

Em algum momento das vidas de Viriato, Protásio, Spartaco e Benjamin, ser irmão de Getúlio Vargas falava mais alto. Com certeza, mais positiva do que negativamente. Graças à trajetória política do filho do meio do general Manoel do nascimento Vargas, a família manteve-se no poder político de São Borja durante várias décadas. Valendo-se de estratégias diversas, os quatro Vargas e seus homens de confiança ficaram na fronteira controlando o rebanho eleitoral. Interrompida apenas pela ditadura militar, a família sempre indicou ou foi consultada na escolha dos governantes de São Borja. "Os trabalhistas estiveram na prefeitura do início do século até 1988", afirma o ex-prefeito Florêncio Guimarães, 71 anos, um dos fundadores do antigo PTB. "Até a morte de Getúlio, todos eram membros da família ou amigos dele", acrescenta.

O estadista mais controvertido da história brasileira e o comportamento de seus irmãos ofuscaram até a imagem do pai. Veterano da Guerra do Paraguai e da Revolução Federalista de 1893, Manoel foi o primeiro Vargas a comandar o município. "A força do general nunca chegou aos pés do domínio dos filhos", considera o pesquisador Timótheo Ávila, 60 anos.

Depos de governar de 1907 a 1911, o cetro do pai passou para o filho mais velho. Durante o mandato do coronel Viriato Vargas (1911-14), São Borja assistiu a um grande número de perseguições políticas. A situação era tão delicada que Viriato chegou ao ponto de se exilar na Argentina depois de ser acusado como mandante do assassinato de um médico.

Quando Getúlio saiu da Revolução de 30 como presidente da República, a cidade virou o quintal dos Vargas. Sob o comando de Benjamin "Beja" Vargas, o 14o Corpo Provisório tornou-se o braço armado do poder. "Eles reprimiam qualquer tipo de manifestação de oposição atuando como defensores das idéias da família", conta Ávila. Anos depois, um dos soldados mais temidos tornou-se chefe da guarda pessoal do presidente. Seu nome: Gregório Fortunato.

O primeiro dos sete retornos

Na liderança de 1.952 pessoas, o padre jesuíta Francisco Garcia atravessou o Rio Uruguai para fundar uma colônia em sua margem esquerda. O aldeamento pertenceria à redução de Santo Tomé. Foi batizado de São Francisco de Borja. O ano era 1682. Este seria o primeiro de uma série de sete retornos que trariam de volta ao solo gaúcho os guaranis catequizados pela Companhia de Jesus. Quase 50 anos antes, os bandeirantes paulistas haviam expulsado os índios para o lado argentino.

Formada por famílias educadas e integradas ao trabalho, a colônia se desenvolveu rapidamente. Com a volta dos habitantes de outras reduções em 1687, o povoado recbeu a autorização para caminhar com suas próprias forças. Nasciam os Sete Povos das Missões Orientais do Uruguai.

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Publicado por Roberto Cohen em 15/01/2006.