São Leopoldo

(24/07/1846)

Um vale com a marca dos alemães

O desenvolvimento do Vale do Sinos iniciou-se com os alemães que chegaram à região em 24 de julho de 1824, data em que se comemora a fundação de São Leopoldo.

A idéia de trazer imigrantes da Alemanha surgiu porque eles não estavam ligados a nenhuma invasão do país, que havia alcançado a independência de Portugual recentemente. Até então, o local onde os primeiros 39 imigrantes se instalaram era conhecido apenas como Feitoria do Linho-Cânhamo, de propriedade do governo português e desativada quatro meses antes. Os colonos chegaram em busca de terras e de uma vida melhor e batizaram o lugar de Colônia Alemã de São Leopoldo em homenagem ao padroeiro da imperatriz Leopoldina.

Em dezembro de 1824, o presidente da província, José Feliciano Fernandes Pinheiro, mais tarde Visconde de São Leopoldo, visitou a colônia e previu que próximo ao local utilizado para atravessar o Rio dos Sinos, onde hoje é o centro da cidade, haveria enchentes. Fernandes Pinheiro escolheu a Floresta Imperial, distante da outra margem, local onde está Novo Hamburgo, para ser a sede.

O administrador das terras, José Thomaz de Lima, não tinha interesse na transferência por causa da localização de suas terras. Com a mudança, perderia o controle da colônia. A sede acabou ficando inalterada, mesmo com enchentes. Em 1828, os alemâes construíram uma capela onde hoje é a Igreja Matriz e o local foi tomando aspecto de povoado.

A produção agrícola se desenvolveu e, em poucos anos, a colônia abastecia a Capital. Os produtos eram levados pelo Rio dos Sinos. Além da atividade agrícola, os alemães eram artesãos. Trabalhavam com madeira, couro, ferro e fibras, e formaram as bases da industrialização no Rio Grande do Sul.

Os produtos confeccionados pelos seleiros de São Leopoldo eram "sehr gut" (muito bons). Da expressão surgiu a expressão serigote, tipo de sela utilizada pelos gaúchos dos Campos de Cima da Sera, região de São Francisco de Paula.

Os colonos não são responsáveis só pelo desenvolvimento da colônia. Construiram escolas (Gemeindeschule). Em 1938, já existiam mais de mil, o que explica o baixo índice de analfabetismo no Estado.

Os alemães, apreciadores da vida em grupo, também foram os responsáveis pela proliferação de sociedades de canto, tiro e bolão. Fundada pelos colonos em 1858, a Sociedade Orfeu, em São Leopoldo, é uma das mais antigas do Brasil.

Sede da colônia alimentava a Capital

À base de trabalho árduo, principalmente dos colonos alemães, na virada do século 20, o município de São Leopoldo representava um importante parceiro comercial de Porto Alegre.

Fornecia produtos agrícolas e gado de corte para alimentar os habitantes da Capital. O Rio dos Sinos, apesar da existência de ferrovia desde 1875, era o principal canal de ligação entre as cidades. Nesta época, a sede da colônia alemã - São Leopoldo - contava com três núcleos: o Paço Real, onde hoje fica o centro, a Feitoria, e a Cidade Nova (atual bairro Rio dos Sinos).

São Leopoldo adquiriu status de cidade em 1864, mas no início do século ainda preservava o território da colônia alemã: 1,2 mil quilometros quadrados, mais de 10 vezes a área atual. A cidade se estendia de Sapucaia, ao sul, até o Campo dos Bugres (hoje Caxias do Sul), ao norte, de Taquara, ao leste, e Montenegro, a oeste. Eram as terras situadas entre os rios dos Sinos e Caí.

A rua principal já era calçada e contava com 115 lampiões a querosene na iluminação pública. Um funcionário da Intendência, munido de escada, os acendia todos os dias meia hora antes de anoitecer e os apagava na manhã seguinte. Como o meio de transporte era formado por cavalos e carroças, as calçadas contavam com argolas para prender os animais. A Feitoria representava a sede agrícola da cidade.

A construção da ponte 25 de Julho, em 1873, ajudou a desenvolver a região e permitiu a criação da Cidade Nova na outra margem do Rio dos Sinos. O local logo foi tomando a característica de pólo industrial, com a implantação de fábricas de chapéu, cerveja, champanha e cerâmica, entre outras. Em 1897, o intendente Epifânio Fogaça instituiu o aguadeiro municipal, que operou até a construção da hidráulica, 29 anos depois. O produto era distribuído em baldes.

Antonio Bernardes trabalhava como capitão da embarcação que fazia a linha São Leopoldo-Porto Alegre, pelo Rio dos Sinos. na virada do século, os dois vapores da Navegação Pedro Blauth & Cia levavam seis horas para concluir o percurso.

A filha do "prático do vapor", como era chamado Bernardes, Nair Bernardes de Souza, 78 anos, lembra que o pai nunca podia dormir no dia de folga. "Todos os domingos meu pai tinha que acordar cedo para libertar os marinheiros - muito bagunceiros - na delegacia", recorda Nair. enquanto mostra fotos dos tempos antigos. A avó de Nair, Alexandra Gonçalves, nascida em 1861, era uma renomada lavadeira. "O posto da vó Alexandra era o mais privilegiado e ela lavava roupas para a Casa Lang", orgulha-se a neta, que chegou a trabalhar com a vó, nos anos 20.

Alexandra, assim como as outras lavadeiras da cidade, era defendida pelo código de postura em vigor na virada do século, que proibia os cidadãos de zombarem das trabalhadoras enquanto buscavam as roupas na casa dos clientes. Cavalgar a galope na rua principal também se constituía uma falta grave. "Se o infrator fosse um negro, era preso e solto somente quando o seu patrão pagasse a multa", conta o historiador Telmo Lauro Müller.

Médico virou líder comunitário

O imigrante João Daniel Hillebrandt chegou a São Leopoldo em 9 de novembro de 1824. Com 24 anos e formado em Medicina, asusmiu a liderança da colônia por meio século. Homem simples e bondoso, obteve o reconhecimento como médico humanitário.

Defendeu os colonos principalmente durante a batalha do Paço do Rosário, em 1827, e coordenou a resistência aos revolucionários na Guerra dos Farrapos. Solteiro, enquanto muitos, inclusive médicos, fugiam da cidade durante a epidemia de cólera, em 1855, ele permaneceu e construiu um pequeno hospital.

Falecido em 1880, é até hoje homenageado. Hillebrandt lutou ao lado do Império durante a Revolução Farroupilha. Quando os revolucionários invadiram a colônia, em 1836, o líder se obrigou a fugir para Santa Maria do herval, onde ficou até o final da guerra.


Informações adicionais prestadas por Gustavo Souza, da Rádio Gaúcha, em 27/07/99:

Olá Roberto!

Só alguma coisa sobre São Leopoldo. A chegada dos alemães foi em 25 de julho de 1824, e não no dia 24.

Outro ponto é sobre a fundação da cidade. Ela já existia antes da chegada dos imigrantes (não lembro a data correta da fundação - e a cidade se chamava antes Feitoria do Linho-Cânhamo). Era habitada quase que totalmente por portugueses e seus escravos.

Até mais!

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.