Ijuí

(07/04/1875)

A rota dos tropeiros nos ervais

Até as primeiras décadas do século 20, Palmeira das Missões não tinha do que se queixar. Em quase 300 anos de história, acompanhou os três principais ciclos da formação econômica e social do Estado. Trocou a fase dos ervais nativos pelo tropeirismo. Mais tarde, deixou os caminhos dp gado para entrar de cabeça na colonização e voltar à extração vegetal com a exploração da madeira.

"Palmeira é o município síntese do Rio Grande do Sul", diz o historiador Mozart Pereira Soares. Mesmo não tendo a garantia de ter sediado uma Redução dos Jesuítas, o território de Palmeira certamente foi visitado pelos índios que as habitavam. As densas áreas de erva-mate interessavam aos padres espanhóis desde 1633, ano da primeira referência escrita sobre o uso da planta. No Rincão de São João, 15 quilômetros ao norte da cidade, a abundância de ervais evidenciava que a região estava no mapa de riquezas da Companhia de Jesus. Sem se descuidar da exploração dos ervais, os jesuítas também introduziram a criação de gado nas Missões. Os guaranis cuidavam de imensos rebanhos até serem dizimados pelos portugueses, que passaram a ter direito sobre os Sete Povos das Missões com a assinatura do Tratado de Madrid (1750).

Milhares de cabeças de vacas e mulas soltas nos pastos chamaram a atenção dos novos donos da terra. Por volta de 1816, os bandeirantes estabelecem uma terceira rota para conduzir os animais até São Paulo. O pouso dos tropeiros e as grandes manchas de campo com rebanhos selvagens tornam Palmeira das Missões alvo das atenções dos mercadores do "ouro mível". Para controlar o negócio de perto, alguns paulistas instalam-se na região, apropriando-se de terras devolutas. Um século depois, a instalação da Comissão de Terras e Colonização de Palmeira das Missões trans transforma pela terceira vez a face do município. A partir de 1917, as áreas despovoadas do norte (Iraí, Seberi, Nonoai, Frederico Westphalen) começam a ser ocupadas pela terceira onda de colonização do Estado. Famílias inteiras de italianos, alemães, poloneses e russos entram com requerimentos de propriedade na Comissão.

Depois de trabalharem para abrir as estradas que os levariam até os lotes, os imigrantes descobrem que precisam ainda limpar o terreno. Começa o desmatamento. As árvores nativas são derrubadas e passam a engrossar o orçamento doméstico. Com o surgimento das colônias, Palmeira está pronta para caminhar com as próprias pernas.

O peão salvo pelos rebeldes

Seis da manhã de l de janeiro de 1925. Nas terras da Fazenda da Ramada, a 39 quilômetros do centro de Palmeira das Missões, o capitão Luiz Carlos Prestes e centenas de soldados revoltosos iniciavam um confronto contra as tropas Governistas. O combate mais sangrento da Coluna Prestes se estendeu por 12 horas, deixou mais de 100 homens feridos e custou ao movimento militar a vida de outros 50. Na sede da fazenda, um empregado com pouco mais de 10 anos de idade não entendia por que o Exército queria ipedir o avanço daqueles 4 mil homens que acamparam perto da propriedade "Nem uma vaca eles chegaram a carnear ", garante Abrão Machado dos Santos, 82 anos. Um dia antes, o menino havia sido salvo por um rebelde. "Os civis que acompanhavam a Coluna iam me degolar quando um sargento acudiu", lembra. Apenas um túmulo, que marca o ponto onde os dois lados enterraram seus combatentes, continua de pé na Esquina dos Becker, atual município de Condor.

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.