Passo Fundo

(17/02/1834)

O Caminho dos viajantes do Planalto

Quando chegou a uma terra onde sabia apenas que existia "um passo muito fundo" e onde havia índios ferozes, por volta de 1827, o cabo da milícia estadual paulista Manoel José das Neves, o cabo Neves, não imaginava que estava projetando um dos principais pólos de prestação de serviços do Rio Grande do Sul. Antes dele, um destacamento comandado por Atanagildo Pinto de Morais fora enviado pelo governo de São Paulo à região para descobrir uma nova ligação com a Capitania de São Pedro.

O cabo Neves ganhou algumas léguas de terra, onde hoje está a Praça Tamandaré, no centro da cidade, e ali começou a formar sua fazenda, seguidamente atacada pelos índios coroados e caingangues, que habitavam a região.

Em 1834, chega outro militar, o capitão Joaquim Fagundes dos Reis, considerado por muitos também como fundador da cidade, que só se libertou administrativainente de Cruz Alta, da qual era distrito, em 1857. O dia 7 de agosto é a data oficial de criação do município, que vivia o ciclo da criação de gado. O extravismo vegetal, a pecuária, o comércio e o tropeirismo confirmam que Passo Fundo teve sua origem ligada ao transporte, lembra a professora Maria Mattos, da Universidade de Passo Fundo. Ainda sentindo as conseqüências sangrentas da Revolução Federalista de 1893, Passo Fundo - assim batizado pelos tropeiros que cortavam caminho no Planalto Médio para chegar à Feira Agropecuária de Sorocaba, em São Paulo - começa o novo século com uma população de cerca de 35 mil habitantes.

O tenente-coronel Pedro Lopes de Oliveira era o intendente em 1900. O ciclo do gado já dera passagem também à erva-mate e à madeira, e a agricultura se revelava como uma das principais forças da economia em formação. A ferrovia despontava como principal ligação com o Centro do país. Era em Passo Fundo que muitos fazendeiros paulistas faziam negócios.

Somente em 1920 os passo-fundenses conheceriam o avião, conta o livro Annaes do Município de Passo Fundo, escrito em 1931 por um dos primeiros jornalistas da cidade, Francisco Antonino Xavier e Oliveira. Muita gente se escondeu dentro de casa ao ouvir um "barulho estranho vindo do céu." Era um biplano que vinha de Buenos Aires com destino a São Paulo.

A boa época das sedas e louças européias

Em meados década de 30, havia em Passo Fundo uma rua onde moça de família não passava. Era a Rua 15 de Novembro, onde funcionavam casas de prostituição e o famoso Cassino da Maroca. No local, os bailes reuniam figuras conhecidas da cidade. Uma das primeiras socialites, Leofrida Barbieux, junto com outras moradoras das proximidades do cassino, ficava na janela vendo quem freqüentava o local para depois ter assunto para as rodas de conversa. "Mesmo assim era uma época bonita, de respeito", recorda.

Leofrida mora em Passo Fundo desde 1924. Dois anos depois, seu marido, Walter Barbieux, inaugurou a primeira cervejaria da cidade, a Serrana. Leofrida, que nasceu em Uruguaiana, relembra com saudade uma época em que as mulheres se enfeitavam e vestiam as melhores roupas, não dispensando o tradicional leque de plumas para ir ao Cinema Coliseu, que não existe mais, ou aos saraus promovidos na casa do comerciante Antônio Loureiro Lima, que, por sua elegância, foi apelilado de Barão. Até hoje a Casa do Barão é preservada em um dos pontos principais da Avenida Brasil, no centro de Passo Fundo.

Leofrida lembra-se de uma festa que movimentou a cidade: a da inauguração da primeira agência bancária, o Banco da Província, em 1922. A cidade vivia principalmente do comércio, confirmando a fama de terra de passagem. Os viajantes faziam muito sucesso e sempre apareciam com novidades.

"Hoje, as pessoas ficam muito faceiras quando compram alguma coisa importada, de terceira categoria, mas, no início do século, isso para nós era comum." E com a diferença da qualidade. Compravam farinha da Argentina, louças da França, sedas inglesas - e bebiam vinho do Porto. A iluminação pública era escassa na década de 30, só abrangendo o centro. Um morador, Ciro Schell, conta Leofrida, era o encarregado de acender diariamente os lampiões que iluminavam a região central. E a explicação: Schell tinha 1m80cm.

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.