Porto Alegre

(11/12/1810)

O Porto de Viamão virou Alegre sem querer. No Rio Grande do Sul pós-Tratado de Madrid (1750), a ameaça de invasão tirava o sono dos portugueses, que procuravam desenhar de uma vez por todas o mapa de seus domínios.

Para isso precisavam de uma capital. Desde 1763, a vila de Rio Grande não servia mais. Havia sido tomada pelos espanhóis. Era preciso buscar um povoado que pudesse ser defendido - ou melhor, inatingível. A saída do sul foi voltar-se para o norte. Navegando pela Lagoa dos Patos, a capital acabou parando em Viamão, onde permaneceu por uma década. Um canetaço do governador José Marcelino de Figueiredo transferiu a sede da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul para uma terra-de-quase-ninguém em 1772. Fundado 20 anos antes para abrigar os casais que chegavam dos Açores e da Ilha da Madeira para colonizar a região, o Porto de Viamão, ou Porto dos Casais, foi escolhido pela posição estratégica. Em meados do século 18, a capital não passava de um atracadouro em propriedade alheia.

Além dos imigrantes que foram logo se fixando na Rua da Praia, o povoado se resumia às sesmarias de Jeronimode Ornelas de Menezes e Vasconcelos, Sebastião Francisco Chaves e Dionísio Rodrigues Mendes. "Porto Alegrenasceu espontaneamente", sintetiza Sérgio da Costa Franco, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do RS.

Da noite para o dia, virou Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais. No ano seguinte, Nossa SenhoraMadre de Deus de Porto Alegre. Quase sem casas e população, a cidade de todos os gaúchos transformou-se na localidade mais importante do Sul do Brasil sem ao menos ser oficialmente uma vila. Somente em 1810 o erro foi corrigido.

Os portugueses tinham muito mais coisas importantes para se preocupar. Um dos primeiros atos do governador foi proteger a península. Por sua posição estratégica, era quase impossível um ataque pelo estuário do Guaíba. Em terra, entretanto, a situação era bem diferente. Engargalada no conhecido funil que virou o centro da cidade,o povoado era vulnerável pelo flanco leste.

Para evitar a invasão da nova capital, Figueiredo autorizou a construção de fortificações. As obras se estenderam de 1773 a 78 e formaram uma trincheira na fronteira seca da vila. Na metade do caminho, em um largo próximo à Santa Casa de Misericórdia, um portão controlava a entrada e saída dos moradores e forasteiros.

Muito barulho por nada. A tomada de Porto Alegre não foi concretizada pelos espanhóis. Meio século depois, os próprios gaúchos cuidaram da tarefa sem sequer arranhar os muros da cidade. Em 20 de setembro de 1835, os farrapos atacaram por água a península protegida.

Menos de um ano mais tarde, as tropas imperiais voltavam a mandar no município. Em pouco tempo, as fortificações seriam ampliadas e ganhariam um novo significado até serem demolidas em 1840. "A cidade de Porto Alegre, cercada por um cinturão de trincheiras, com canhões de fortaleza encaixados nela, espaçadamente, já davam naquela época um aspecto mais marcial do que Alegre", escreveu Johann Carl Dreher.

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.