Ijuí

(11/02/1912)

A Europa Gaúcha

A intenção de misturar imigrantes de várias etnias para não causar conflitos nas colônias foi levada ao extremo por Ijuí. Percorrendo o pequeno povoado em 1898, sete anos depois do início da ocupação, o padre Antoni Cuber registrou um recorde. Os habitantes haviam criado uma babel no meio do mato. Cuber detectou 19 idiomas entre italianos, alemães, poloneses, letos, austríacos, holandeses, suecos, espanhóis, libaneses, árabes, lituanos, rutenos, checos, filandeses e até gregos. "Era política do governo estadual evitar a criação de núcleos puros", analisa o professor de história e pesquisador Danilo Lazzarotto, 62 anos. Apesar da predominância de alemães e italianos, Ijuí ainda hoje é conhecida como a Europa do Rio Grande.

Caminho aberto pela Picada Conceição

Na metade do século passado, Cruz Alta e Santo Angelo eram duas vilas cercadas de mato por todos os lados. Ir de uma cidade à outra exigia paciência e tempo, uma vez que não existia estrada que as ligassem em linha reta. Para cumprir este papel e encurtar a distância em cerca de 60 quilômetros, o governo da Província decidiu construir uma picada com 12 quilômetros de extensão. A abertura da estrada trouxe o desenvolvimento. Ali Ijuí começava a abrir o caminho para a colonização.

A tarefa de abrir a Picada Conceição coube a José Gabriel da Silva Lima, que iniciou o trabalho por volta de 1848. Como pagamento pelas obras e manutenção da "via expressa". por onde só passavam cavalos, recebeu duas léguas de terra. Demarcado ao longo da picada, o lote de Silva Lima não poderia estar em melhor lugar. Percebendo esta vantagem, o agrimensor tratou de fundar uma colônia particular.

Em 1887, o primeiro morador da Picada Conceição instalava-se com a mulher e cinco filhos em dois lotes. Natural da Alsácia-Lorena (região da França anexada à Alemanha e depois devolvida à França), Simão Hickenbick e sua família permaneceram isolados por cerca de três anos. Os lotes da Picada Conceição caíram como uma luva para o administrador da Comissão de Terras e Colonização da colônia Silveira Martins, José Manuel da Siqueira Couto. Criado em 1881, o povoado não possuía mais espaço para acomodar os colonos que não paravam de chegar.

Mostrando a viabilidade de seu empreendimento, Silva Lima atraiu essas famílias, que se tomaram os novos vizinhos de Hickenbick. Em 1890, os primeiros grupos de italianos tomavam posse de seus lotes na então colônia ljuhy. De maio a dezembro do ano seguinte, chegaram mais 815 pessoas. Europeus na maioria, os colonos enfrentavam as dificuldades normais de uma ocupação isolada do mundo pelo mato.

Condenada ao fracasso, ljuí deu a volta por cima depois que o engenheiro Augusto Pestana, diretor da colônia a partir de 1899, se deu conta de uma evidência: seria mais fácil e barato assentar famílias que viessem com conhecimentos de agricultura. "O fato de virem imigrantes experientes de Silveira Martins e das colônias mais velhas facilitou o desenvolvimento", observa o historiador Argemiro Brum, 66 anos, da Universidade de Ijuí.

Origem: Material recolhido do fascículo especial do jornal Zero Hora, do dia 04/12/96, chamado "Origens do Rio Grande", tendo sido as reportagens efetuadas por:

James Marlon Görgen, Clarissa Eidelwein, Théo Rochefort, Klécio Santos, Marcos Fonseca, Luciane Ferreira, Mauro Maciel, Carlos Fonseca, Carlos Bindé, Marielise Ferreira, Itamar Pelizzaro; edição de Moisés Mendes e Mário Marcos de Souza; arte de Leandro Maciel, planejamento gráfico de Daniel Dias e Luiz Carlos Py; coordenação de Clóvis Heberle.

Editado por Roberto Cohen em 20/11/2003.